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quinta-feira, 7 de maio de 2009

duas horas em Paris, a pensar

Acabo de chegar da minha Faculdade onde tive a sorte de assistir ao seminário aberto organizado pela minha colega Profa Eugénia Vilela sobre "Filosofia, Biopolítica e Contemporaneidade".
Hoje pudemos escutar (e participar no debate que se seguiu) o Prof. Alain Brossat, da Universidade de Paris 8 (Vincennes), que tratou de "Política, Vida, Sociedade: a Questão das Normas", na linha de Michel Foucault. Foi muito interessante! Até para perceber por que é que não vão mais pessoas a estas coisas imperdíveis!
Se puder volto ao assunto...

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Alguns tópicos da intervenção deste professor (qualquer erro de interpretação é da minha exclusiva responsabilidade):

A primeira modernidade ocidental, diríamos clássica, caracterizou-se por procurar uma uniformização, uma "inclusão sem restos" (ao contrário do que sucede numa sociedade de castas, por exemplo, com os "intocáveis"). A norma é um modelo de condutas disciplinares que abrangem pela primeira vez toda a população. É um quadro de inclusão total; um código de uniformitarização muito rígido. Trata-se de formatar de modo autoritário, através da escola republicana (modelo francês do séc. XIX. por exemplo), mas também do exército, do hospital, das instituições para os velhos, prisões, fábricas e oficinas, etc.). Há aqui uma autêntica MUTAÇÃO CIVILIZACONAL em relação ao Antigo Regime. Os limites da sociedade tendem a coincidir com os limites da população.
A sociedade é uma estrutura de integração que se sonha sem exterior - é um espaço de inclusão, de integração. É um novo modelo humanista.
Trata-se de reduzir, e tendencialmente eliminar, as diferenças locais e regionais: falares, superstições, particulariosmos de toda a espécie. A norma é de pretensão universal, primeiro que tudo ao nível do Estado-nação, depois de forma mais alargada. O Estado é uma máquina niveladora. O seu modo de aferição geral é o exame e o concurso. Toda a população é posta em estado de sujeita às normas. Processo geral de normalização. Há uma homogeneização e integração normativa, hoje continuada a outra escala pela globalização.
O Estado é quem tem a soberania, a autoridade para estabelecer as normas, as quais procuram recobrir tudo, incluindo os saberes e os conhecimentos. Toda a gente é mobilizada neste processo, como num voluntarismo obsessivo de tomar a seu cargo uma parte da tarefa: como por exemplo a de educar, integrar, tornar humana a criança selvagem, a criança-lobo. Qualquer defeito físico deve ser corrigido, seja ele a surdez, o ser-se canhoto, etc.
Há portanto a constituição de um campo de inclusão totalizante, totalidade totalitária essa que reivindica a sua universalidade.
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Com a passagem à segunda modernidade, ou modernidade tardia, o regime então vigente da norma começa a enfraquecer-se, a dissolver-se: a norma torna-se indescernível. Há ma mudança do regime normativo. O motor da prosperidade é agora preponderantemente a empresa privada, o mercado, a concorrência. A regra muda, o jogo muda. O que se valoriza no indivíduo não é a sua conformação a uma norma fixa, mas a sua capacidade mimética, a sua adaptabilidade. Há mesmo uma mudança mais geral: a operação normativa ela mesma (meta-norma) altera-se. O regime normativo muda. Surge uma configuração pós-humanista, que pulveriza a norma anterior. Isso torna-se claramente patente em Maio de 68, em que uma das coisas que se afirmou (Univ. de Paris Nanterre) foi a de que se não fariam ali nunca mais quaisquer exames.
Há uma validação da diferenças, uma legitimação já não pelo modelo único, mas pela diversidade. A norma é dissociada da "média" anterior, e é associada à diferença. Trata-se portanto de um regime heterogéneo em relação ao precedente. Tolerância generalizada, encorajamento das heterogeneidades, novos referentes - a moda, o consumo - por contraste com os modelos da escola republicana, da prisão, etc, anteriores. Não se trata apenas de uma fluidez das normas: é outro regime normativo.
À sociedade da disciplina (Foucault) substitui-se a sociedade do controlo (Deleuze). Novos mecanismos de segurança, de validação das variações; desregulamentação. Foi isso que Boltanski caracterizou como o "novo espírito" do capitalismo. A pluralização das normas, que evidentemente não desaparecem, mas se transformam e refinam. Aparecem novas formas de redisciplinarização, havendo até muitas vezes imbricações deste regime normativo, diferencialista, com o anterior, uniformizante. Em muitos casos - ilustrou com exemplos de filmes, considerando o cinema um laboratorio filosófico - dá-se o afrontamento das duas normas em personagens diferentes envolvidas em interacção.
Por exemplo, a questão do género e questões conexas de pertença. A premissa da posição humanista clássica era a de que cada indivíduo pertence a um sexo, a um género, a um Estado, a um espaço linguístico, a uma raça, a uma etnia se for caso disso, a um grupo social. No caso de um hermafrodita, aí está a medicina, a cirurgia, para reparar essas falhas da natureza. Ora, para o pós-humanismo, essas etiquetas e intenções são bárbaras, são abusos da ciência e do conhecimento. Há um novo código, digamos, pós-normativo. Os novos mandamentos são a imunidade do vivente, e a integração dos corpos tais como eles são. Há esta injunção normativa: ama a diferença. "Anormalizemo-nos". Mesmo o corpo "monstruoso" (ou antes considerado tal) é aceite e exposto (o monstro deve exibir-se) tal como é. Medicalização generalizada da vida: assegurar os cuidados para a vida toda em todas as suas ocorrências e variedades.
Do regime do sexo normativo (primeira modernidade) passou-se ao do género (segunda modernidade).
Portanto, às velhas Luzes opõem-se as novas Luzes, sob a forma de uma muito duvidosa "emancipação", ao autoritário opõe-se o liberal, no sentido anglo-saxónico, à normalização, e violência do mesmo, opõe-se a diversidade. Passa-se a enfatizar as variações do género, da cor da pele, dos costumes culturais. À igualdade sucede a diversidade, não já humanista, mas neo-liberal, com uma nova normatividade moral e até subversão de antigas normas. As normas são agora as do capital. É a tolerância, o vector das novas Luzes, que as antigas tinham excluído em função de valores universais e não relativistas. Há uma libertação dos universais, uma certa suspensão da verdade. A paz é o mais importante de tudo. Há um enfraquecimento da paixão pela verdade. A tolerância generalizada é uma indiferença, universal e de fraca intensidade, um deixar andar. A fetichização das diferenças é estabelecida como norma das normas. Há um pan-niilismo em pano de fundo. Não se faz comunidade, por exemplo por justaposição de grupos, à maneira canadiana. É um respeito pela coexistência dentro de uma indiferença absoluta.
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O poder psiquiátrico inaugurado no século XIX foi temível, como estudou Foucault num dos seus cursos do Colégio de França. Por isso a psicanálise, admitindo a singularidade do analista e do analisado, e relativizando o normal e o patológico, foi e é de uma extrema importância como resistência a esse discurso rígido da psiquiatria clássica. Lacan foi muito importante contra a deriva comportamentalista da psicanálise. O lacanismo é hoje aquilo que resiste à medicalização das perturbações psíquicas. Coloca o paciente em escuta, cria uma relação muito própria entre paciente e analista, e por isso é preciso defender Lacan. Badiou, filósofo da diferença, é um dos muitos que ficou a dever a Lacan.

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A fetichização da diversidade, a exaltação das diferenças (mas diferenças em relação a quê?) contribui para o desaparecimento da política, e para o aparecimento de um novo tipo de políticos, que vai a par com a defesa de normas infra-jurídicas (preocupação por exemplo com a conformidade de certos produtos no mercado a certas regras). Há uma flexibilidade das normas de conduta, mas é muito difícil uma contra-conduta, as contestações são ignoradas pelo poder político. É muito difícil criar afastamento em relação ao poder e à nova normatividade leve, a este tipo de comportamentalidade. Todavia, a proposta de Lyotard, com o seu conceito de "Differend", é importante. Trata-se de algo que não é solúvel no diferencialismo. Haveria que evitar a moda, o exotismo, mas é muito difícil. Enquanto que na sociedade da disciplina havia algo contra o qual resistir, o regime diferencialista contemporâneo promoveu um esmagamento das subjectividades, sob a égide do "Moi, c' est Moi" - um pólo autárcico, auto-referencial, um eu vazio. A quintessência da subjectividade, hoje, é um sujeito vazio, leve, evaporado. Estamos num tempo bloqueado, da repetição sem fim, das particularidades fluidas, em que os sujeitos estão expostos a todos os tipos de jogos miméticos.
É difícil conseguirmos atribuir-nos um devir, como diria Deleuze. Há um esmagamento das subjectividades, um enfraquecimento.

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Por mim (VOJ) penso que há que, sempre que possível, realizar actos de resistência (estar por exemplo aqui a transcrever estas ideias, comunicá-las) sectoriais, mas muito importantes, minando o sistema mimético, resistindo a fazer o mesmo, a imitar a onda!


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