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sábado, 22 de janeiro de 2011

A propósito de uma workshop próxima - algumas reflexões "espontâneas", improvisadas e genéricas

- Arquitectura é o nome genérico convencional que nós ocidentais damos a um conjunto de manifestações de origem humana que alteram ou alteraram a forma - ou, se quisermos, o aspecto físico visível - anterior de um determinado espaço, seja qual for a sua dimensão.

- Obviamente que uma tal abrangência é puramente nossa e como assumidamente nossa deve permanecer, qualquer que seja a área do mundo ou a época da história sobre a qual incida o nosso interesse.

- Qualquer veleidade de interpretar seja o que for, o que implica um princípio de generalização, de redução de um certo particular ao geral, neste como noutro campo do saber, baseia-se sempre em axiomas, quer dizer, puras convenções sem prova, e portanto assenta sobre uma base de crença partilhada.

- A ciência, e neste caso a ciência da arquitectura ou a da arqueologia, são como sabemos meras convenções pragmáticas para caracterizar práticas, saberes, formações discursivas que se formaram ou ganharam novas formas na modernidade. Assentam na ideia de que é possível, apesar de todos os riscos, formular noções gerais sobre o que fazemos e o que fizeram os outros, mesmo que remotos no espaço e no tempo. Estes axiomas ou presunções são a nossa condição de existir como ocidentais.

- Portanto, a arqueologia da arquitectura – a observação das denominadas arquitecturas de um ponto de vista arqueológico – baseia-se no postulado de que é útil ao conhecimento a delimitação de uma tal realidade chamada arquitectura, e de que é interessante (isto é, é um ganho para o conhecimento) convencionar uma arqueologia da mesma.

- A arqueologia, tal como a arquitectura, têm a mesma raiz etimológica na nossa cultura ocidental: relacionam-se com a arché, no seu duplo sentido de origem, fundamento, e portanto simultaneamente causa e legalização do que existe, ou seja, naturalização, universalização, de um conjunto de realidades, supostas serem interessantes à nossa pesquisa, quer dizer, ao nosso desejo de aumento de conhecimento.

- Provinda da história e consolidada no século XIX, a arqueologia, ou o que poderíamos chamar a “pulsão arqueológica”, vive da vontade de conhecer o ausente e de o fazer presente, ou seja, de convocar um passado, de convocar o morto, por forma a voltar a dar-lhe vida, ou seja, a preencher a falha, ou falta, que se insere entre o presente e o passado, o já ocorrido e a que não podemos assistir.

- Corresponde a um desejo de totalidade, de recuperação, de redenção de uma falta que todavia sabemos ser do domínio do fantasma: a simples ideia de passado e da sua reconstituição, do conhecimento do passado realmente acontecido, é a manifestação de uma fantasia. O passado só existe na trilogia articulada de passado, presente e futuro, adentro de uma visão linear do tempo.

- Na verdade o passado é uma construção da minha mente/imaginação, tal qual como o presente ou como o futuro: são categorias de uma visão do tempo linear e envolvem uma cronologia, uma seriação, uma periodização, um faseamento, uma noção do tempo típica da civilização ocidental. Essas concepções não fariam qualquer sentido em ontologias de outra natureza.

- Assim, a história da arquitectura seria para nós uma seriação de um conjunto de objectos ou intervenções no espaço (no sentido mais amplo destes termos) ao longo de uma sequência de períodos, baseados em estilos, modos de fazer, técnicas, maneiras de abordagem de materiais, formas de relacionamento social, modos de criatividade, etc., etc.

- A arqueologia, por seu turno, tende também para esta história, ou descrição/explicação periodizada, da razão de ser (interpretação) de características físicas por nós hoje evidenciadas, ao longo de um eixo cronológico e de um eixo espacial encarados como contínuos, quer dizer, como repartíveis em unidades discretas, como mensuráveis na sua extensão e portanto subdivisíveis.

- Tecnologias de toda a sorte tem reforçado esta convicção da arqueologia e do seu objecto/objectivo, desde as técnicas de abordagem da chamada “realidade arqueológica” (escavação, por exemplo), até às técnicas de datação ou às técnicas de abordagem do espaço, ajudadas pela matematização do mundo (passagem de um mundo analógico, de qualidades, a um mundo digital, de quantidades, em última análise binário) e pelas chamadas “novas tecnologias”.

- A digitalização do mundo, ou seja, a sua in-diferenciação em termos da oposição tradicional de real (vivência sentida pelos intervenientes directos) e de virtual (simulação dessa vivência por forma a ela parecer/ser ainda mais viva do que a primeira) continua em curso, tendo evidentes repercussões na arqueologia, na nossa abordagem/entendimento da arquitectura, e de uma maneira geral (é o que pelo menos parece) em tudo quanto poderá ter sido o mundo do homem ocidental até hoje, embora esse “novo”, como todo o “novo”, esteja inscrito desde sempre na sua ontologia própria de ocidental, bem caracterizada (v. por exemplo Ph. Descola).

- Paralelamente a este processo, o pensamento filosófico não parou de se interrogar sobre qual o sentido de tudo o que existe ou acontece, como sempre fez, e outras disciplinas/ciências que interagem com a arqueologia, no processo constante de trocas que entretêm, também o fazem, no quadro de um mundo em aceleração jamais vista até hoje.

- Daqui resulta uma arqueologia a duas velocidades, pelo menos, e que esquematicamente são: a do senso comum e da produção rápida – uma arqueologia tornada profissão e tecnocratizada, rotineira, inculta, e frequentemente boçal, apartada dos debates contemporâneos e envolvida no afã de produzir/conservar/resgatar património – e uma arqueologia que tenta desesperadamente por vezes interrogar-se sobre o próprio sentido de si mesma, na linha das arqueologia erudita, universitária, de investigação, etc. Claro que esta faceta tende a ser cada vez mais restrita na sociedade da mercantilização generalizada, onde o saber deixou de ter tempo para se exercer e está transformado em informação espartilhada por projectos.

É neste quadro genérico (do meu ponto de vista, está claro) que vamos realizar a nossa workshop anglo-portuguesa nos próximos dias 28 e 29 na Faculdade de Letras do Porto. A magnitude das questões/perguntas, por um lado, e a especificidade/particularidade da experiência de cada um tornam-na (como qualquer outra reunião do mesmo tipo aliás) uma oportunidade de encontros mas também uma muito provável fonte de mal-entendidos.

Estes mal- entendidos devem-se à própria temporalidade com que os encontros são hoje encarados: rápidos, pontuais, sem prévia distribuição de textos de apoio para se poder debater sobre uma base de trabalho. São portanto tendentes a um fácil deslize para uma sucessão de performances mais ou menos conseguidas (comunicações, debates, intervenções, etc.), entre pessoas que provêm de perspectivas muito diversas, parecendo basear-se na crença de que o diverso, quando colocado em conjunto/confronto, gera por si só acréscimo de valor. Oxalá assim pudesse ser. Mas se não for, oxalá possamos recolher a lição do trauma e fazer o luto deste tipo de workshops.

Vítor Oliveira Jorge

Janeiro de 2011

domingo, 16 de janeiro de 2011

Uma comunicação sem efeito por falta de verba


Quando a arqueologia se constituíu nos finais do século XIX como formação discursiva, como “disciplina” científica, destacando-se da história da arte, por um lado, e da longa tradição de antiquarismo, por outro, isso foi um fenómeno ocidental e muito particularmente ligado ao estado-nação moderno (v. Thomas, Julian, “Archaeology and Modernity”, Londres, Routledge, 2004). Cada país procurou firmar as suas raízes na mais remota antiguidade e seus “testemunhos” mais ou menos míticos, quer greco-latinos, quer nacionais (estes sobretudo naqueles países que tinham ficado fora do âmbito territorial do império romano): mas o “movimento nobilitador e identitário” é o mesmo. Como outra face da moeda, as “ciências naturais” (geologia, biologia), o evolucionismo e a ideia de uma “história natural do homem”, aliadas à etnografia dos “selvagens” (ou “primitivos”, uma invenção ocidental que legitimou todos os colonialismos), impuseram a noção de uma pré-história comum a toda a humanidade. Aí a disputa foi menos pelos pergaminhos nacionais em termos de grandes feitos expressos em monumentos e obras patrimoniais, e mais em torno da “antiguidade” maior ou menor dos indícios do “progresso” (grau de hominização dos indícios fósseis, antiguidade da “arte rupestre”, pioneirismo em torno de “descobertas” técnicas e produtivas, etc., etc).
Neste quadro, bem conhecido, é interessante repensar o conceito de história, e em particular de pré-história, e, como sintoma, o próprio desinteresse que tem havido por parte da União Europeia em, ao contrário do que poderia ser de esperar, fazer da sua “pré-história comum” um elo de ligação entre povos, nações, estados. Porquê, por exemplo, esse estatuto de margem dos “pré-historiadores”, dos arqueólogos das “origens”?
O discurso, ou narrativa, da continuidade, com a teleologia implícita, e a con-fusão, inerente à história, entre antecedentes e causas (descrever é perceber, é explicar mas diferentemente das ciências do cálculo), ligados à procura das “origens”, da archè, em particular na nossa tradição greco-latina e judaico-cristã têm sido discutidos por numerosos autores.
A mim interessa-me tentar prolongar algumas questões suscitadas por Giorgio Agamben no seu texto “Arqueologia filosófica”, inserto no livro (cito a tradução francesa) “Signatura Rerum. Sur la Méthode” (Paris, Lib. Ph. J. Vrin, 2008, pp. 93-128, na linha de Nietzsche, Foucault, e outros, e convocando também o pensamento de Walter Benjamin (noção de “reactivação”) e de Jacques Lacan, e do que na sequência deles se tem pensado sobre a condição do ser humano. Sem esquecer Alain Badiou ou Slavoj Zizek.
A minha convicção é a de que lavramos num mito fundamental, e esse nosso mito ocidental (que, como outros produtos ideológicos, “vendemos” a todo o mundo) é o da história e do tempo “continuista”, cronológico, tal como o temos pensado, tanto do lado dos “reformistas” do estado social (hoje falido), defensores de uma “redenção” por passos, como dos “revolucionários” sonhadores de um “tratamento de choque” igualmente de cariz religioso, escatológico, mesmo que não assuma aspectos fundamentalistas e se procure integrar nos quadros parlamentares do chamado “estado de direito”.
A questão do evento, da sua imprevisibilidade, e das rupturas que se darão certamente numa civilização que parece já viver no apocalipse, no “fim do tempo”, como diz Zizek, eis o que me interessaria debater.

VOJ
15 Nov. 2010


_________________________

Congresso Internacional ‘A Europa das Nacionalidades
Mitos de Origem: discursos modernos e pós-modernos’

Aveiro, 9/10/11 de Maio de 2011

Contributo submetido por Vítor Oliveira Jorge
Universidade do Porto, Faculdade de Letras/CEAUCP
e aceite agora em 10 de Janeiro pela organização do congresso.

Como, porém, é exigido um pagamento de inscrição a um participante com comunicação de 250 euros (até ao fim de Janeiro; será de 350 euros no momento do congresso) não participarei, por falta de verba.
Esta é já a primeira consequência a nível pessoal dos cortes salariais que nos estão a ser impostos.

VOJ


sexta-feira, 9 de abril de 2010

IIº Encontro de Jovens Investigadores do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto

II Encontro de Jovens Investigadores do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto

Dias 9 e 10 de Abril de 2010 (Sexta-feira e Sábado), Anfiteatro I

Vai ter lugar nos dias 9 e 10 de Abril, no Anfiteatro 1 da Faculdade de
Letras da Universidade do Porto, o IIº Encontro de Jovens Investigadores
do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto
.
Este Centro de Investigação dedica-se ao Estudo da Arqueologia nas
suas mais variadas vertentes, integrando também os Estudos
Multidisciplinares em Arte, sendo as comunicações o reflexo da pesquisa que é desenvolvida actualmente pelos seus investigadores.

A ENTRADA É LIVRE

ver link do programa aqui:

domingo, 29 de novembro de 2009

Um momento da conferência de sábado promovida pela ADECAP


e pronunciada por Gonçalo Leite Velho... tivemos de abandonar a sala por volta das 18 da tarde, e já com atraso em relação ao combinado com a gentil Fundação Eng. António de Almeida, que mais uma vez nos albergou no Centro Unesco do Porto.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sócios (actuais ou desejando sê-lo) por favor não esqueçam




ASSOCIAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA COOPERAÇÃO EM ARQUEOLOGIA PENINSULAR (ADECAP)

ASSEMBLEIA GERAL

28.11.2009

CONVOCATÓRIA

NOS TERMOS DOS ESTATUTOS DA ADECAP, CONVOCO UMA ASSEMBLEIA GERAL PARA O DIA 28.11.2009, nas instalações do Centro Unesco do Porto, R. José Falcão, 100 - Porto) ÀS 14,30 HORAS, COM A SEGUINTE

ORDEM DE TRABALHOS

1) Apresentação e votação do relatório de actividades e de contas do ano de 2008, e do parecer do Conselho Fiscal.

2) Assuntos correntes da ADECAP, e apresentação do volume 12, de 2009, da revista Journal of Iberian Archaeology.

A PRESIDENTE DA MESA DA ASSEMBLEIA GERAL

SUSANA OLIVEIRA JORGE

No caso de haver atrasos/faltas de sócios, a AG realizar-se-á às 15 h. com qualquer número de sócios presentes.


Seguir-se-á a anunciada conferência de Gonçalo Leite Velho (IPT, Tomar), às 15,30. Esta última - cujo tema é o da reconstrução em arqueologia - é de entrada livre.

Será também lançado na altura, e como anunciado, o vol. 49, de 2009, dos "Trabalhos de Antropologia e Etnologia", revista anual da SPAE.

Se se pensar que à noite, em Serralves, fala o Prof. Benjamin Buchloh, da Univ. de Harvard, uma autoridade mundial em arte moderna, ainda por cima apresentado pela directora do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, não vir ao Porto nesse dia será uma fatalidade que não desejo a ninguém.




sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Guia de Cerâmicas de Produção Local de Bracara Augusta

Está anunciada para o próximo dia 24, em Braga, no Auditório do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, pelas 19 horas, a apresentação do Guia de Cerâmicas de Produção Local de Bracara Augusta, da autoria de Manuela Delgado e Rui Morais.

Estarão presentes, da Universidade do Minho, o Professor Doutor Rui Vieira de Castro (Vice-Reitor), a Professora Doutora Felisbela Lopes (Pró-Reitora), o Professor Doutor Moisés Martins (Presidente do Instituto de Ciências Sociais) e a Professora Doutora Maria Augusta Lima Cruz (Responsável pelo CITCEM).

sábado, 14 de novembro de 2009

Jornadas de Jóvenes Investigadores en Arqueología, 2010


Ya esta disponible la Primera circular del JIA2010 (Jornadas de Jóvenes Investigadores en Arqueología, 2010) que se celebrará en Barcelona los días 5-7 de Mayo de 2010. Podéis consultarla y descargarla visitando el blog del

JIA (http://jia2010.blogspot.com) o bien consultando directamente elsiguiente enlace:



http://www.scribd.com/doc/20052245/Primera-Circular-JIA-2010

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

a casa como arquétipo de um mundo de funcionalidades domesticadas: breve nota

O que distingue o arqueólogo do antiquário ou coleccionador (para quem o que interessa é a "peça" em si, seja qual a razão invocada- estética, sentimental, prestigiante, etc.) é a procura de contextos.
Esta é pois uma palavra-chave em arqueologia.
Contextos são conjuntos de elementos que têm uma relação mais ou menos evidente entre si, dada pelo modo de organização dos elementos, pela sua proximidade/contiguidade, pela sua provável associação a/integração em estruturas ou elementos de maior escala (os materiais que se encontram numa fossa em relação à fossa em si, por exemplo), quer dizer, os contextos sugerem - acentuo sugerem - uma certa "cumplicidade" ou afinidade dos elementos que os constituem, afinidade no sentido cronológico (quando se constituíram), corológico (quem foi responsável por eles), e "funcional" (qual a razão de ser de tal contexto, qual a intenção (para se evitar o reducionismo de "função") que estaria por detrás deles.
Esta questão da intenção é crucial também em arqueologia, que é uma técnica/arte/ciência de elencar eventuais "intenções" para contextos, e portanto pressupõe sempre uma teoria do comportamento humano e, consequentemente, uma formação que transcende sempre, em muito, a filosofia espontânea comum, que leva à projecção inconsiderada de uma "natureza humana" ou de um conjunto de pressupostos da experiência corrente noutros momentos do tempo e do espaço, portanto, uma miopia anacrónica radical.
O arqueólogo, como cientista social, trata com fenómenos de intencionalidade, quer dizer com produções de seres auto-reflexivos e, portanto, com manifestações da ambiguidade (da "ruse", como se diria em francês) que caracteriza o ser humano. A sua problemática nem pode conter-se na mera aplicação do senso comum, nem nas leis das ciências naturais correntes, pois se trata aqui de fenómenos de outro tipo completamente diferente.

Os arqueólogos procuraram sempre distinguir claramente dois tipos de contextos: os contextos de deposição intencional (de que as sepulturas com as suas "oferendas funerárias" seriam talvez o melhor exemplo) e os contextos resultantes de fenómenos não intencionais, ou seja não controlados pelos seres humanos. Estes últimos ainda podiam subdividir-se em dois: os resultantes de fenómenos ditos "naturais" (por exemplo, uma enxurrada arrastando materiais e depositando-os noutro sítio, uma derrocada implicando a mistura ou reconfiguração de materiais originariamente noutra posição) ou "humanos" ( o "lixo" proveniente da vida quotidiana, por exemplo, supondo-se que em parte pelo menos não seria objecto de um tratamento secundário - limpeza, deposição, etc.)

Um dos contextos mais procurados pelos arqueólogos (sobretudo se motivados por um desejo de ultrapassarem a obsessão das sepulturas e de quererem voltar-se para a chamada "vida quotidiana" - adentro da famosa trilogia do povoado - lugar de culto - cemitério, a que se confinam os quadros interpretativos de alguns) é o mítico tema da casa.
A casa, suposto tema ou contexto a-histórico, no sentido de ser universal e corresponder a uma necessidade básica dos humanos, lugar da domesticidade e da intimidade, núcleo da sociabilidade e da "família", é um dos temas mais avidamente procurados pelos arqueólogos, e reporto-me aqui sobretudo aos chamados pé-historiadores, para os quais evidentemente a variabilidade das realidades possíveis é maior do que nas sociedades históricas mais padronizadas e (supostamente) ajudadas na sua interpretação por documentos escritos.
Procura-se encontrar a forma da casa, da unidade básica de habitação/abrigo, a sua estrutura arquitectónica e espacial, desde o Paleolítico até hoje. Certos autores fizeram mesmo uma "antropologia da casa", mostrando a sua diversidade e exotismo nas mais diversas "culturas". Assim, e independentemente da estrutura social, das formas de coesão, das "relações de produção" (passe o anacronismo), dos sistemas de consciência, etc, a casa, os seus restos materiais, quando encontrados, aí estaria a atestar uma realidade básica do ser humano, da sociedade humana, sendo um sintoma particularmente "falante" relativamente à interpretação da vida desses seres. Se a observação, aqui como sempre, já vai orientada por uma expectativa, por uma ideologia, por uma teoria subjacente (não há observação neutra, há apenas diferentes regimes/tipos de objectividade/subjectividade), a conclusão da observação é muitas vezes um deslizar fácil para a re-confirmação dessas expectativas, sobretudo nos casos em que os elementos aparecem mais bem conservados. Ou seja, a arqueologia aparece como o reforço de uma ideologia, sustentada desta vez numa suposta universalidade que se escora na antiguidade dos casos observados. O alibi é perfeito, e os autores muitas vezes nem estão conscientes dele: percebe-se que acreditam, que estão convictos do que afirmam. Quer dizer, fazem corpo completo com a sua inocência. Não se interrogam sobre o essencial,a montante: confirmam jubilosamente o que está conforme ao que tanto procuravam - como uma criança.
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Um dos locais do mundo onde qualquer europeu que se dedique à "Pré-história" deveria ter experiência de campo seria o Próximo Oriente, e todos os países ricos, "imperiais", assim o fizeram. Não Portugal, ou só muito esparsa e recentemente, num contexto pós-colonial.
O facto de nessa região tão diversificada se apontar sempre a precocidade com que os processos de passagem de sociedades de caçadores-recolectores a sociedades de agricultores e pastores (para usar uma terminologia consagrada) se verificaram, e a circunstância de se apontar a Europa como essencialmente uma região receptora de tal "revolução", devia fazer de nós, arqueólogos europeus, também especialistas do Próximo Oriente. Parece que nada pode ser compreendido aqui, espécie de península da grande Ásia, sem ser primeiro ou ao mesmo tempo compreendido lá. Claro que essa necessidade é obstaculizada por toda a sorte de dificuldades logísticas.

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Por exemplo, no livro "Premiers Paysans du Monde. Naissance des agricultures", dirigido por Jean Guilaine e publicado em 2000 em Paris pelas Éditions Errance, há um artigo, entre vários, interessante para esta problemática, de François Valla, sobre "A sedentarização no Próximo Oriente: a cultura natufense" (pp. 13-30).
Como se sabe ao Natufense (12.000 a 10.000 a. C.) é normalmente atribuído o início das "aldeias" (um conceito que resulta da reunião de "casas", por vezes de diferentes tipos) sedentárias, com "habitações" circulares em fossa, utensilagem microlítica, e uma regime de espectro amplo de caça e pesca. Tive a feliz oportunidade de visitar um dos seus locais mais carismáticos recentemente (Beidha, na Jordânia, depois "ocupada" no Neolítico pré-cerâmico B).
O autor, a propósito de "casa", adverte logo (p. 14) que o termo "deve ser utilizado com prudência, embora pareça que as principais funções, técnicas, sociais e simbólicas das casas mais tardias sejam já cumpridas por certas das estruturas mais antigas do Natufense." É muito interessante este discurso da continuidade (apesar da descontinuidade do Natufense mais recente...), e da procura de um elo de ligação entre as várias épocas da Pré-história desta região, neste caso em torno da "arquitectura". Mais adiante, ao tratar das "aldeias", refere-se a uma "casa" mais importante e melhor conhecida no sítio de Mallaha (Eynan, Israel), onde há toda uma série de inferências a partir das realidades observadas, que se poderiam comentar em pormenor, porque apontam sempre para "funcionalidades básicas", assumidas como as mais prováveis. Mas há sempre algo que vem complicar... e diz-se (p. 19): "A maior parte do solo [ da dita casa] não apresentava qualquer objecto marcante. Estes estavam concentrados entre a parede e o que podemos considerar a lareira principal.Ao lado de utensílios que se diria funcionais, tais como pilões, utensílios com ranhura, utensílios de sílex e de osso, encontravam-se objectos cuja razão utilitária - no sentido mecânico do termo - não salta aos olhos. Nesta categoria, incluiríamos uma calote craniana humana, uma semi-mandíbula de cão, os restos de uma gazela morta, e um grupo de pequenos seixos de cores diferentes. Não se pode excluir que este conjunto heteróclito remeta para o domínio do mito e das crenças." Quer dizer, primeiro vê-se a dita casa como uma casa, identificando-se e deduzindo-se um conjunto de funções, e depois, naquilo que se não encaixa em tal preconcebido esquema, e dentro de um espaço cujo diâmetro varia entre 5 e 7 m., recorre-se ao domínio "religioso"... toda uma grelha interpretativa está aqui em filigrana que muito provavelmente é uma simples projecção das nossas dicotomias actuais e que de certeza não é a mais apropriada para abordar uma realidade tão distante de nós, no tempo e espaço, mas também, certamente, no modo de conceber o mundo, incluindo o espaço construído, como seria o destas comunidades do Pleistoceno final...
Portanto, um trabalho que se adivinha rigoroso, metódico, mas que se molda por quadros de interpretação pouco propícios à recepção do completamente diferente, postura por excelência do arqueólogo, sobretudo o que estuda a pré-história num momento crucial como este.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Descoberto Stonehenge Azul

"Arqueólogos encontraram segundo círculo
de pedras perto do conhecido monumento
2009-10-07



Arqueólogos das universidades de Manchester, Sheffield e Bristol revelaram um desenho de como seria o segundo círculo de pedras semelhante ao Stonehenge e que foi descoberto o mês passado. Segundo Julian Thomas, professor da Universidade de Manchester e co-director do projecto Stonehenge Riverside, este segundo monumento era, tal como o primeiro, composto por um círculo de pedras mas azuis, transportadas das montanhas galesas de Preseli há cerca de cinco mil anos. As pedras foram entretanto removidas, deixando para trás nove buracos.

Este novo círculo tem dez metros de diâmetro e era rodeado por uma vala. A equipa de investigadores acredita que o monumento original era composto por 25 pedras colocadas ao alto. Supõem ainda que as pedras marcavam o fim de um corredor que ligava o rio Avon ao Stonehenge, localizado a 2,8 quilómetros e que teria sido construído no final da Idade da Pedra ou período neolítico. O fosso em volta das pedras terá sido construído cerca de 2.400 anos a.C.

A descoberta pode confirmar uma teoria apresentada pelo projecto Stonehenge Riverside segundo o qual o rio Avon ligava o ‘domínio dos vivos’ – marcado por círculos de madeira e casas na parte de cima do rio, na aldeia neolítica de Durrington Wall (descoberta em 2005) – ao chamado ‘domínio dos mortos’ marcado pelo Stonehenge e por este novo círculo. A equipa aguarda que alguns objectos encontrados no local (usados na construção do próprio círculo) sejam analisados para apurar a data precisa do monumento descoberto.


Mike Parker Pearson, professor da Universidade de Sheffield e director do projecto, acredita que “o Stonehenge Azul era o local onde os mortos começavam a sua viagem final até ao Stonehenge”. Segundo aquele investigador, o Stonehenge era o maior espaço consagrado a enterros naquela altura. Supõe agora que “o círculo de pedras azuis seria o local onde as pessoas eram cremadas antes de as suas cinzas serem enterradas no Stonehenge”. Nos buracos deixados pelas pedras removidas do segundo círculo foram encontradas grandes quantidades de carvão, mostrando que naquele local foi queimada madeira.

Por seu turno Julian Thomas, professor da Universidade de Manchester e co-director, defende que as implicações da descoberta serão imensas e que aquela parte do rio Avon seria de enorme importância para as crenças religiosas e rituais funerários de quem construiu o Stonehenge. “As velhas teorias sobre o Stonehenge que não explicam a evidente importância do rio terão de ser repensadas”, salientou. "


Fonte: http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=35685&op=all#cont

domingo, 13 de setembro de 2009

PPN2 - segundo sítio neolítico visitado na Jordânia, cujo nome ainda não consegui apurar ****





O enquadramento do sítio na paisagem (vedação à direita da foto), hoje um meandro da estrada asfaltada que, de Litle Petra, conduz ao Mar Morto... trata-se de uma descida acentuada, sabendo-se como o Mar Morto se encontra a várias centenas de metros abaixo do nível do mar.







Todo o sítio assenta numa plataforma sobre o vale à direita, devendo existir nessa periferia em declive uma estrutura de talude como já aparecia em Beidha.
























Parece haver aqui níveis muito escuros (com matérias carbonizadas?) a que se soprepõem lajes horizontais... tenho rapidamente de descobrir de que estação arqueológica se trata e qual a bibliografia pertinente...
















Se estes degraus forem contemporâneos da estrutura, como tudo indica, então esta é um exemplo de construção parcialmente "subterrânea", tão típica do Próximo Oriente, e todo o "murete" à vista é um embasamento de uma super-estrutura de terra e materiais vegetais.


















Todas estas esruturas eram revestidas a argila: vê-se aqui restos, passados tantos milénios...




Impressionante grau de conservação... e até de ausência de vandalismo, num sítio que está abandonado e cuja vedação permite a entrada, pois foi cortada num canto... claro que as atenções dos turistas e dos seus "fornecedores" estão viradas para coisas que "enchem mais o olho"... felizmente...





Estrutura completamente lajeada!






Terreno juncado de ossos... quase de certeza de animais...





Pequenos compartimnentos feitos com pedras, como temos nas estações que estudamos cá...





Se isto não é uma estela, o que é?...
















Estelas?...





Solo juncado de ossos, artefactos, etc.







































Aspecto de uma área da estação de que só foi retirada a camada superior, como fazemos por exemplo em Castanheiro, vendo-se o caos de pedras que resulta, antes da escavação em profundidade; mas é assim que deve ser, claro.










Esta estrutura lembra as de Beidha.















Níveis contendo ossos carbonizados.



































Estrutura toda lajeada interiormente.




Parece tratar-se de lareiras, estas depressões rodeadas de um "aro" de argila cozida pelo foogo, mas só os escavadores nos poderiam elucidar. De relembrar que estas fotos foram feitas durante uma visita de, um máximo, um quarto de hora, não prevista no programa e sob um sol escaldante, só possível por irmos em carro de turismo com um guia particular, que se interessou pela nossa interpretação, porque percebeu que esta era a matéria, genericamente falando, em que estamos a trabalhar em Portugal.



A existência de uma espécie de "estelas" parece ser uma constante nestes sítios.








Esta imagem mostra algo que nos suscitou dúvidas de interpretação... aparentemente é um derrube dentro de uma estrutura circular, ainda não totalmente escavada. Mas para percebermos o que está aqui em causa (derrube de quê, a sê-lo?) precisávamos de uma explicação do(s) escavador(es), claro. Os próprios pregos da quadriculagem, embora já ferrugentos, ainda estão implementados na argila do chão, pelo que a última intervenção deve ter sido feita há apenas alguns anos. Esse chão está juncados de ossos de animais (?) e de materiais líticos, entre outros. É daqueles sítios onde apetece, de imediato, escavar, para perceber o que ali se passa, e deve ser complexo. Mas são claras as suas afinidades com Beidha.

































Fotos VOJ Set. 2009

Publico aqui estas fotos porque me parecem de grande importância como documentos visuais. apesar da sua descontextualização...
Parece impossível que os nossos especialistas de Neolítico (no sentido geral da palavra... não falo de sociedades camponesas porque essa expressão é muito vaga e ambígua, além de provavelmente anacrónica se aplicada à pré-história) se não desloquem mais ao Próximo Oriente e Europa oriental, para verem e estudarem estes sítios... estamos todos ainda muito virados para o nosso "pequeno jardim" e, mesmo nesse, muitas vezes (todos nós) cultivamos mal... sem abrir os olhos à realidade internacional a nossa arqueologia não vai a lado nenhum. Realizamos uma investigação empírica (não empirista) que exige comparação, contraste, desconstrução constante (para construir, claro).


**** É Shukarit Emsaid, acaba de me informar o meu amigo Hasan Amro, nosso guia, por sms
15.9.09 22 h.