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domingo, 1 de novembro de 2009

azul escuro, passando a negro

















Edward Hopper
Lighthouse Hill, 1927

Dallas Museum of Art

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A casa sempre esteve

Demasiado perto do mar. A areia

Fugia-lhe por baixo dos pilares;

E as ondas, à noite, faziam da casa um barco.


Então os dois corpos aproximados

Eram um lampião no meio do absoluto escuro,

Enquanto os objectos sobre o soalho

Iam progressivamente desaparecendo

Nessa líquida inclinação para o fundo.


É certo, procurávamos em nós

Aquilo que restava da casa, da sua memória,

Dos seus amores ao lado da praia: essa areia,

Esse grão. E eu chupava-te como a um molusco

Suculento e cru, salgado e macio, de onde se extrai

A essência do iodo e de todos os odores do mar.

Com uma mão levantando cada uma das tuas nádegas.


E tu o mesmo comigo, dizendo, havemos de vencer

Mais esta noite, é preciso que as fogueiras santificadas

Se acendam no cimo do mastro: nelas me marco, me

queimo.

E procedias à acção com naturalidade.


Mas a água sempre esteve demasiado perto do fogo.

E a ondulação azul do soalho tornou-se

Cada vez mais forte, levando-nos as mesas,

Os papéis em que trabalhávamos, os livros

Meio lidos. E nunca senti que houvesse ali medo,

Sendo esse o maior enigma.



voj out/nov. 2009, porto


domingo, 18 de outubro de 2009

sobre uns canaviais que avisto daqui






agora que as glórias do último verão
tendem a passar para a efabulação da memória...
as terras de foz côa onde julho decorreu
no júbilo dos trabalhos arqueológicos, com amigos...
agosto numa tavira vivida a partir do seu núcleo,
as refeições no claustro renascentista,
as descidas depois para o centro vibrante de gente...
e o fim de agosto, começo de setembro, com a aventura jordana
e as suas paisagens fabulosas, que vão parecendo irreais...

agora que os dias de sol permanecem, mas no seu âmago
há já um frio, um prenúncio de outono, dessa melancolia
de folhas que amarelecem e caem, ou avermelham numa espécie de agonia...
agora que é preciso viver dia a dia, na sua rotina, e nem uma pequena fuga
para outro país por breves dias é possível...

e os olhos se voltam de novo para os livros, que de facto
nunca deixaram, mas os abarcam mais dedicadamente
enquanto do computador vêm as imagens dolorosas do verão que passou,


reconforto-me com os meus objectos envolventes,
com esta espécie de cabina de livros e computadores e memórias
que orquestro todos os dias solitariamente,
acreditando com as minhas teclas acrescentar alguma coisa ao mundo...


e vejo pela janela não o que passa, mas o que permanece,
e nunca é igual a si próprio, antes vai mudando na forma e cor
consoante a hora, a estação do ano, a disposição de espírito...

e torna-se-me nítido, familiar, referencial como um monumento,
um renque de canas, um canavial que avisto daqui,
entre pinheiros e choupos, e outras árvores e plantas cujo nome não sei.

e penso como ele cresceu provavelmente sem eu me aperceber,
nos últimos anos ou até meses, e já ali estava quando eu passava
pelo planalto do castanheiro do vento, ou recebia a brisa morna
sobre a ponte antiga de tavira, ou atravessava o desfiladeiro de petra...

e de repente dou comigo a considerar essa injustiça que fazemos às coisas
que ficam aqui enquanto partimos, e estão aqui quando chegamos,
e constituem a nossa casa, asseguram a nossa permanência
na imprevisibilidade e perigo dos dias, dos meses, dos anos...


e penso como é urgente registar, fotografar, falar dessas coisas,
porque a contemplação em si, solitária, não é suficiente,
e as coisas só existem se olharmos para elas com uma espécie de carinho
e de conforto íntimo, e de reconhecimento por nos fazerem companhia
durante tantos dias, e dormirem de noite no escuro para estarem lá
na manhã seguinte, expondo-se a uma iluminação diferente e nova...


será esse o privilégio do que se habituou a escrever, e a olhar
para os cenários que o rodeiam, não como cenários, não como paisagens,
mas como conjuntos animados e vivos, cheios de alma, povoados de almas,
que por vezes parecem querer chamar-nos a atenção, olhar para nós, e dizer:


escreve-nos também a nós, que te esperámos até ao fim do verão,
escreve-nos também a nós, dá testemunho da nossa mudez e persistência,
a nós que aqui estamos para te acompanhar pelo inverno, pelo túnel do tempo,


para que tenhamos também direito à existência...


a esse pedido fui sensível...


bem hajam canaviais que me acompanham sempre, amigos fiéis,
no meio dos pinheiros, e dos choupos, e das outras árvores e ervas cujo nome não sei.




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foto e texto voj porto out 2009

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

impudica






Não te quero a ti
Quero apenas ver a tua imagem
Impudica.

Não quero apenas uma imagem
De ti, mas uma sucessão
Que eu possa suspender com um clique.

Um shot. Apanhar o teu corpo
No momento preciso - como um disparo.
Quero a foto da tua nudez escolhida por mim.

Pode ser assim, com o peito e as mãos
Encostadas à parede, e o pé direito
Ligeiramente erguido, a acentuar o lombo

Como se fosses um cavalo em pé.
Pode ser assim, esse contraste de cores,
Essa tensão, teasing me nesse desequilíbrio.

Pode ser assim, com se fosses uma jibóia
Em pé: inteiramente abraçada pela luz.
Entregando-te à luz como uma coluna impudica,
Como um cavalo em pé numa praça, contra uma parede.

Quero ouvir o clique, quando pressionar o botão
E te fixar assim, para te ver até me cansar,
Escrutinar-te o corpo todo, a paleta de cores
Que te frisa os contornos. Os tornozelos. Os joelhos.
Os cotovelos. As espáduas. O relevo fabuloso das nádegas!

Isso quero, quero-te totalmente parada, enquanto escrevo,
Enquanto deixo a música invadir-me o cérebro,
Desejo puro, culto puro da tua imagem impudica.

Tu sabes que encostando-te assim a uma parede
E dando as costas ao que possa acercar-se por detrás
Em volta de ti toda a luz abraçando-te de forma
Tão in-decente, you know you are teasing me hard.

É assim que te quero, de shot em shot, é assim
Que te possuo, que me és totalmente disponível,
É assim que estou no comando dos botões.

Mando erguer o cavalo. Mando a jibóia levantar-se na parede.
Ergo a palavra palmada e dou-te com ela impudicamente
No rabo, e um frenesim atravessa-me enquanto tremes. É isso.

Poder imaginar esta sucessão de tiros.
Este atravessamento de ecografia. Este amor tecnológico.
Foi sempre isso que ambicionei, uma nudez,
Mas tua. E fotografada. Para te abraçar com tempo, a gosto.
Como num jogo prolongado por uma estação sem fim.

Essa expressão impudica, esses lábios, esse rosto
Que me alvoroça, verso a verso, estrofe a estrofe,
Até os lábios da poesia ficarem cada vez mais inchados,
Mais vermelhos, e algo partir de mim sem que eu controle,
Num misto de dor e prazer, uma coisa prolongada
No tempo, um silvo ou sulco ou jacto que se estira, que se enrola
Por esse teu corpo todo, que macula de sangue e leite
A tua cor rosada e nua, tão impudicamente esticada.




voj wadi rum/jordânia e porto set. 2009

sábado, 19 de setembro de 2009

cães e gatos e delírios








Aquilo que a maior parte das pessoas gosta nos cães, a sua "fidelidade", não me diz muito.
Aprecio completamente o carácter não servil dos gatos, o seu aspecto esquivo e maravilhosamente dúbio. O seu olhar enigmático.
A obediência servil dos cães (quando não são, no extremo, ferozes ou até raivosos assassinos... não escondo o meu preconceito de quem já apanhou sustos grandes)irrita-me.
A nobreza absolutamente superior de um felino é inigualável.
E pode ser extremamente meigo, que é o que muita gente não sabe. Igualmente dependente do seu dono, das suas carícias, da sua companhia. Depende também de cada gato, e do seu "tipo"... mais acomodatício ou irrequieto. Mas a depressão em que ficam quando saímos e sobretudo quando nos vêem preparar malas é óbvia. É claro que estas palavras se dirigem a felinos de apartamento, e implicam uma certa, óbvia, antropomorfização na linguagem, para dar uma ideia rápida. Os animais são um enigma, por muito que os etologistas tenham avançado nesse domínio.
Por alguma razão os símbolos do poder foram os grandes leões, ou tigres, domados, e nunca um cão, que é sobretudo um utilitário para a caça ou um vigia dos rebanhos.
Se fosse mesmo rico gostaria de ter grandes felinos, bem tratados, que passassem voluptuosamente pela casa (nesse caso, enorme mansão) sempre naquela expectativa, naquela ambiguidade, de virem deitar-se ao pé de mim para receber festas ou para acabarem gloriosamente com a minha vida (nesse caso) de ócio. Que luxo! Uma grande pantera negra sobre fundo de tapetes raros e sons de pátio oriental...ronronando com as minhas festas, sempre à beira do salto, sempre no intervalo da inquietação. Magnífico. Desprezo a servidão e a mediania, o conforto simples. Todo o poderoso tem um zoo, um gabinete de maravilhas, obras que brilham na sombra da sua beleza e antiguidade, espalhadas por toda a casa, uma série de gente atarefada a preparar-lhe o banho de bálsamos e os tigres para o passeio.
Deliro.



domingo, 1 de março de 2009

o começo da Grande Festa



Não somos espectaculares?
Livres, livres, livres! Olhem
Para nós!

Nós olhamos fixamente para ver
Se nos olham. Tudo o que pedimos
É a vossa atenção. Vamos começar
A acontecer.

Foram horas e horas e horas
E boiões, e frascos, e vaporizadores,
E esfoliadores, horas e horas e horas
De Cabeleireira.

Flashes, flashes, candeeiros, lâmpadas,
E acerto os óculos sobre o bâton
E acerto os lábios sobre o cabelo
E acerto o decote sobre os joelhos
E acerto o penteado, e avanço.

Avançamos livres, livres, livres.
Quem controla aqui agora somos nós,
Temos o Automóvel, temos o Telemóvel,
Temos o iphone, temos gps,
Marcamos a agenda, marcamos o terreno:

Desenrolem-se as carpetes grenás
E as violetas voadoras, que nós avançamos.
Só queremos ser olhadas, sentir a seda do desejo
Nos olhares. E os clarões.

Temos tudo o que uma mulher deve ter.
Nós somos a Panóplia.
O automóvel da Parafernália de Lábios Vermelhos.

Vamos em frente. Cultivadas. Emancipadas. Dotadas.
Sobre-dotadas. Sobre – tudo.
Comemos tudo
O que nos apetece, estamos aqui para vingar milénios.

Sabemos o que queremos. Vorazmente, por que não?
Sabemos o que temos. Sabemos
Como nos entendemos umas com as outras,
Trocamos Tatuagens entre nós.

Precisamos apenas do vosso olhar vermelho
Esbugalhado.Não é que nos faça falta,
Se não é aqui é ali, há espelhos por todo o lado.
A escolha é livre. Nós somos livres. livres.

E queremos espelhos que nos peguem na cintura,
Que nos dobrem pela cintura para dançar,
Que nos enrolem na Grande Excitação.

Já vamos aqui com um certo grau de humidade
Com um certo odor a noite a começar
Nada que uma base não componha, um toque
De pó-de-arroz. Prá passerelle.

Vamos todas em frente. Somos o assalto final.
Reparem só na Máquina. Notem a Produção.
Vamos ao volante do Acontecimento.

E viramos o volante, ora à esquerda, ora
À direita, sempre com aquele toque imoderado
De quem conduz a sua vontade,
O seu desejo, a sua liberdade.

Não solicitamos. Dispomos.
Estamos no controlo
Da situação.

Olhem, olhem, olhem. A Grande Excitação
Vai começar. Nós temos as chaves da abertura.

E as vagas da multidão abrem-se para os lados
Como águas que se apartam para passarmos
Entre constelações de luzes
Directas ao centro do acontecimento
Ao planisfério dos Grandes Candelabros.

Vamos sobre o Gume da Humidade
Vamos sobre o Tacto dos Grandes Lábios
Vamos inaugurar o Império do Veludo.

Movemo-nos a grande velocidade
O Acontecimento caminha-nos sobre as espáduas
Somos as Grandes Sodomizadas pela nossa Compulsão
De Domínio. E é isso mesmo que está no centro
Da Festa, é essa a proposta sobre a Mesa.

Liberdade!

________________________
Foto: Frank Herholdt

Site: http://www.frankherholdt.com/html/personal_detail2.php?id=160&gallery=Personal
Agradeço a este fotógrafo a autorização para reproduzir os seus trabalhos
Texto: voj porto 2009 fev.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Aos leitores deste blogue


Ao longo de dois anos, tenho-me esforçado por fazer deste blogue um sítio variado e útil, antes de mais a mim, mas também a outros que se reconheçam em alguns dos meus interesses. É uma actividade lúdica, mas criativa, e tem tudo a ver com esta indeterminação que hoje existe entre o lazer e o trabalho (são categorias ultrapassadas... questão obviamente muito longa e interessante...).

Tem sido para mim um modo de ensaiar ideias e poemas, em público, tem sido para mim o modo de me apresentar, porque também se sabe que hoje, mais que nunca, quem não aparece, esquece. Ora, os meus objectivos na vida nunca foram puramente académicos, e suspeito que isso não existe, mas se existe, essa pessoa devia ser tratada, pois sofre.
Assim, dou muita importância ao impacte que o blogue pode ter. Em termos de comentários substanciais. De número de visitas. E também agora de "seguidores".
Por isso, se gosta deste blogue, recomende-o a amigos, envie material para ele (eu tenho enviado poemas meus para diversos blogues, por exemplo), siga-o. Isso alimenta o meu (espero que em níveis saudáveis) narcisismo, e como tal a vontade de continuar a utilizar este espaço para contar a minha vida, o que sinto e penso.
Como sabemos, tudo o que fazemos e contamos e dizemos é pura encenação. Não existe uma verdade escondida de mim que eu esteja aqui a revelar. Por isso, ao contrário dos que se escondem atrás de uma cortina de silêncio, eu escondo-me (=preservo a minha privacidade, bem entendido) mostrando-me. Quanto mais me mostrar mais vocês me desconhecem. E enquanto pensam em quem eu realmente serei, alimentam o meu narcisismo. E enquanto alimentam o meu narcisismo, incrementam a minha vontade de sentir, pensar, fazer, dizer coisas que sejam úteis ou interessantes ou até esteticamente aproveitáveis. E enquanto todos nós fizermos isto cada vez mais a vida será o contrário do tédio, do lazer embrutecedor, do enquistamento.
OK?
Se discordar, diga, adoro quem discorda de mim. Não para eu sempre me sobrepor no fim do jogo, lançando a ultima carta. Sair perdedor é bom, também, sobretudo quando se tem um opositor à altura. Tudo é preferível ao enquistamento.


sábado, 17 de janeiro de 2009

fronteira

Há dias, no momento da partida, num dos aeroportos de Londres, cometi o erro (há sempre erros, muitos deles crassos, quando o cansaço aumenta, é claro) de deixar uma pequena garrafa de água meio bebida na minha mochila, portanto na bagagem de mão. Ao passar no controlo ficou de parte para revisão. Justo. Essa revisão foi exaustiva, com esvaziamento de cada compartimento da dita mochila (tem bastantes), observação detalhada/milimétrica de cada coisa, e passagem de aparelho pelas partes esvaziadas para detectar se havia alguma irregularidade. Óptimo. Ainda bem que há tais cuidados. O meu único stress resultava de a minha mulher não saber onde eu estava naquela altura e por que razão estaria a demorar tanto tempo, sendo que eu não podia avisá-la por telemóvel pois era um dos objectos em observação. Um molosso conduzia a operação. Só tive uma reacção no sentido de pedir cuidado quando concretamente me tocou num ponto fraco, a minha preciosa mini-caixinha de medicamentos de primeira utilidade, ainda por cima um recuerdo de Veneza. Temi que a destruísse ao abri-la do lado errado. Acabaram por cair dois comprimidos, que se recuperam, foi o menos. Mas o molosso em causa (era grande) irritou-se mesmo, e disse-me: não toque com as suas mãos em nada, nem as ponha aqui, senão ainda não viaja hoje. Bem, era nítido que o melhor era obedecer-lhe, e que foi o que evidentemente fiz. Não é o que fazemos toda a vida, quando percebemos que há uma fronteira, razoável ou arbitrária? Ninguém quer ser esmagado por um mal-entendido, por dar ao outro razões fáceis para exercer coacção, em nome da lei e da ordem. Quando finalmente me mandou pôr tudo dentro da mochila de novo (onde um dos biscoitos ficou reduzido quase a pó, foi o menos), seguiu-o até à entrada do circuito, único sítio onde, previamente a refazer todo o percurso (tirar cinto, etc.) me foi permitido incorporar o resto da minha água, antes de deitar fora o recipiente. Óptimo. Nunca mais vi o colosso em causa. Deve ter mudado de turno. Ah, também não apreciei que ele afastasse com a sola do sapato (supostamente não limpa) um dos papéis que cairam ao chão, e que eu recuperei, foi o menos.
Mas é isto o poder. Sempre as suas razoáveis razões todas e mais qualquer coisa, um condimento de violência, que normalmente apenas se anuncia pelos seus signos e insígnias.
Tem toda a razão, o erro foi meu, aquela inspecção é para nossa segurança de passageiros, até ficamos mais tranquilos e seguros; só a ameaça que me fez teria sido evitável. Ou talvez não, deve ser chato estar ali a fazer aquilo, naturalmente por um salário fraco e ainda por cima a ter de se denunciar assim como elemento tão primário de um aparelho de controlo, a dar a ver a cara irritada do poder, provavelmente com frequência, quer dizer, a atirar as insígnias para a frente, como um antigo mestre-escola. Poor man. Mas foi o menos. Ele não tinha de ter presente, sempre, que o verdadeiro poder nunca perde as estribeiras, senão desnuda-se. Ter isso presente pode talvez impedir uma pessoa de seguir aquela carreira, de ter aquele emprego. A delicadeza não tem ali a melhor morada. Falo em geral, é claro. Tenho o maior respeito por quem trabalha e cumpre escrupulosamente as funções para que foi designado.



domingo, 21 de dezembro de 2008

O que custa viajar: o exemplo desta minha "missão" em Inglaterra (14 a 18 de Dezembro de 2008)


Londres. Foto tirada a partir da Blackfriars Bridge. 18.12.08



14 de Dezembro
- deitei-me às 2 h a acabar o power point para Leicester e levantei-me às 6 h.
Check-in no Porto e partida para Londres-Stansted na Ryanair.
Comboio Stansted-Londres (ida e volta 26 libras)
Londres Liverpool até St Pancras (mais 4 libras)
St Pancras - Leicester (a correr para apanhar o comboio - no total destes comboios "inter-cidades" gastei mais de 100 libras)
Estação de caminho de ferro de Leicester, mais morto que vivo: comprar algo para comer no quarto, comprar bilhetes de comboio de regresso, instalação no hotel. Nunca me soube tão bem um colchão fofo!

15 de Dezembro - levantar cedo para saber onde é exactamente o Colóquio internacional em homenagem da Profa Susan Pearce. Durante o duche, c. das 8 da manhã: alarme geral de fogo no hotel para abandono imediato. Um som de furar os tímpanos. Habituado a estas "especialidades" britânicas, não liguei muito. Entre morrer estornicado no hotel ou congelado no exterior, preferi o quente. Pequeno-almoço normal, sorte de encontrar o director do Departamento de Museum Studies ao telefone, ida com ele de táxi até ao novo Centro de congressos, que não conhecia (John Foster Hall). Inscrição, recepção de documentos, problema: uso um power point feito em Mac, algumas imagens não se vêem. Encontro uma colega com um Mac ligando-se à net, peço emprestado. Perfeito. Não: problema! Falta cabo para ligação ao data show, próprio para Macs. Finalmente um técnico arranja o cabo. Uf. Após o almoço, a sessão corre muito bem. Conheci uma série de pessoas muito interessantes. Pena não poder ficar. Táxi para a estação de caminhos de ferro, longe como tudo. Londres: o comboio chega atrasado para se poder fazer duas mudanças no metro pré-pagas. - cada um que se amanhe, no frio e na solidão. Resolução: táxi para a gigantesca Waterloo railway station. Londres à noite, junto ao Tamisa. lembra o filme Blade Runner. Telefonema da Faculdade para coisa urgente. Depois várias horas de comboio até Southampton (os transportes ingleses actuais deixam a desejar - autocarros então é um horror). De novo tento comprar algo para comer no hotel, mas está tudo fechado por ali; bem, adquiro o bilhete de volta do comboio e tomo um táxi. Na recepção do hotel, encontro o Gonçalo e a Evita. Parece milagre estar de novo "em casa".


16 Dezembro - levantar às 7,30 horas para ir para o TAG. Pagamento de inscrição (50 libras e organizando eu uma sessão!) e contacto com colegas e amigos. Todo o dia a ouvir sessões. À noite, agradável jantar. Arrasto-me para o hotel. Vou ler, até os olhos já não poderem.

17 Dezembro - de novo levantar às 7,30 horas (uma pessoa nestes países quase não vê a luz do dia, que aliás é pouca nesta altura do ano). Sessões de manhã. Almoço, tal como no dia anterior: uma sandes dentro de um saco de papel com um bolo e uma bebida (água). Avante para a nossa sessão, que dura toda a tarde, e corre muito bem. Toca depois a correr para hotel no meio do nevoeiro. Jantar agradável num pub. Chego ao hotel desfeito, mas tenho de fazer a mala.

18 Dezembro - levantar à mesma hora, pequeno-almoço, correria num táxi para a estação. Por 1 minuto 1 perco o comboio das 8,30 para Londres Waterloo. Apanho o das 9 h. Decido que isto não é vida, tenho de ir à Tate Modern pelo menos. Táxi. Visita das exposições, incluindo a de Rothko (por ser professor, com desconto, pago quase 12 libras - as exposições permanentes são gratuitas). Sublime momento, na vida há coisas boas, o paraíso ao lado do inferno. Incursão na loja do museu, maior que qualquer livraria do Porto. Em pouco tempo, tentar apanhar o que houver de mais importante para o que pesquiso. Compro dois livros e toca a marchar para a ponte sobre o Tamisa para apanhar o metro em Blackfriars. É necessário ir na Circle Line do metro, mas indicam-me mal. Se não estou atento, vou para leste; erros de quem vai poucas vezes a Londres mesmo, ficando-se pelos aeroportos, qual deles o mais torturante (dentro de dias já me vingo). Toca a mudar de linha e a voltar à Circle Line. Chego finalmente a Liverpool station, inserindo-me na onda de milhares de pessoas que por ali circulam. Comboio para Stansted. Almoço no aeroporto e procura de algo de interessante para trazer como recuerdo. Novo sistema de check-in da Ryanair: é preciso ir a uma máquina buscar o cartão de embarque com o nosso código de reserva. OK. Fila enorme, e lá me liberto da mala de porão, cujo fecho chegará ao Porto estropiado. É o menos. Finalmente lá entra tudo para o avião, tipo autocarro em hora de ponta. Mesmo assim leio um pouco do The Archive, livro que comprei na Tate. A mala chega, não se perdeu desta vez. Táxi para casa (os táxis em Portugal estão caríssimos). Não acredito. Estou em minha casa. Toca a comer algo, toca a desmalar, toda a ler centenas de mails.

19 Dezembro - estou a dar aulas de mestrado às 8,30 h. 3 horas seguidas. É milagre. Julgo poder vir para casa finalmente dormir. Doce engano... deito-me às 2 horas a trabalhar, a tentar pôr em ordem o caos resultante de ter estado fora apenas 5 dias.

Isto é vida?! E há pessoas que passam o tempo nestas viagens. Bem, pelo menos, está-se mais longe por uns dias de muita coisa chata deste país. Mudamos de calvário. É o que são as viagens actualmente. Fugir, andamos todos a fugir do calvário da vida.


sábado, 20 de dezembro de 2008

vida quotidiana



Hoje na rua por onde passava um alçapão (destes que cobre e dá acesso às canalizações subjacentes à cidade) subiu a tampa que o tapa e de dentro uma face olhou-me.
Quando corri para lá era demasiado tarde.
Tinha sido atropelado.
A vida quotidiana não perdoa a mais pequena coisa.







domingo, 7 de dezembro de 2008

função - umas notas para os meus alunos



No nosso país, felizmente, a arqueologia deixou há muito de ser apenas uma prática de amadores e de entretenimento.
Há duas gerações, pelo menos, que ultrapassaram isso: uma que é aquela a que pertenço, e que trouxe para as universidades (sobretudo após o 25 de Abril) uma nova maneira de ver as coisas, propriamente científica, o que quer dizer problematizante dos métodos, dos objectivos, e das interpretações.

A outra, a seguinte, e que esquematicamente poderia ser a de um filho meu (agora por exemplo teoricamente na idade entre os 30 e os 40) que tornou a arqueologia progressivamente uma prática profissional implantada no terreno.

Sobre essas modificações, e suas implicações sociais e teóricas, tenho-me debruçado em muitos textos, nos livros publicados, etc, e não vou repetir-me constantemente. Reporto para eles.
Queria apenas focar uma noção de senso comum que percorre muitas das preocupações/interpretações de arqueólogos, incluindo os mais jovens, e que tem a ver com a determinação das supostas funções dos vestígios arqueológicos.
Já Gordon Childe, na primeira metade do séc. XX, falava do tríplice aspecto da classificação arqueológica, que corresponderia a dar satisfação a três perguntas sobre um artefacto: para que servia? (função) quando foi feito? (cronologia) quem o fez? (autoria).
Podíamos dizer que a arqueologia experimental e a comparação etnográfica nos ajudaram muito no primeiro aspecto, a datação pelo radiocarbono no segundo e... o terceiro foi sempre um grande problema.
De facto, quem é esse "quem?" Uma cultura? Um sistema social?... a arqueologia processual dizia que o que o arqueólogo procura, por detrás do artefacto, é o homem (ou mulher) que o fez, e por detrás deste(s), o sistema em que estava(m) incluido(s)
.
Como se deve observar uma realidade arqueológica, seja ela muito remota, ou muito recente? Obviamente que a nossa tendência espontânea é de logo responder às três perguntas.
Mas, que é a função de um objecto?... não há palavra mais ambígua.
E porquê? Porque o ser humano não vive apenas num mundo denotativo, isto é, claro e simples, mas num mundo conotativo, metafórico, se quisermos, onde tudo aponta para outra coisa. Se isso é assim agora, em que eu posso interrogar uma pessoa para que serve uma coisa, e outra que está ao lado pode divergir, acrescentar outras informações, ou até discordar, o que não será relativamente a um artefacto arqueológico, cuja história completa eu não sei, e sobre o qual não tenho possiblidade de cotejar interpretações, ou conotações, daqueles que foram seus contemporâneos...
Tenho então de ter muito cuidado, para não me deixar levar por lugares-comuns, preconceitos, projecções do que para mim é evidente (mas para outros não), ideias retiradas de uma sociedade de consumo, onde tudo me aparece codificado como um conjunto de mercadorias prontas para uso, e cada qual classificada segundo a sua função ou multifunções. Numa sociedade destas, é fácil a tendência de julgar que há uma espécie de necessidades universais, a-históricas, básicas ou menos básicas, do ser humano, às quais cada objecto corresponde, para ajudar a satisfazê-las. Ora, como qualquer um sabe, não é nada assim. De modo que a palavra função tem logo à partida um lastro redutor, justamente dito funcionalista, num sentido pejorativo.
Uma função ou uso pode ser realizada/conseguido com recurso a objectos muito diferentes, e objectos iguais podem corresponder a funções ou usos muito diversificados.
Quando, para caracterizar genericamente certas formas, e as integrarmos numa tipologia, numa nomenclatura, lhes damos um nome tradicional, consagrado pelo hábito, pela tradição da disciplina, como "raspador", "lareira", "fossa" ou outro qualquer, sabemos que estamos a usar apenas uma convenção terminológica, que pouco ou nada diz sobre a ideia ou ideias que poderão ter estado presentes nas distintas etapas de vida que o objecto teve, até hoje. Porque os objectos tiveram a sua biografia, e por assim dizer, a sua sociologia.
Não nos podemos deixar levar por classificações a priori, sejam elas derivadas de um contexto local (se é algo revolvido, pode ter sido uma lixeira, por exemplo) ou mais geral (se uma construção com muros está no topo de um monte, é defensiva) ou da observação directa de um artefacto, a uma pequena escala: se um vaso tem restos de comida carbonizada, é porque foi usado para a fabricação de alimentos, ou então foi produto de um ritual que envolvia o consumo (festivo ou não, colectivo ou não) de determinadas substâncias.
Um objecto teve a sua vida. Nada nos garante quais as suas etapas, quais as conotações e os contextos em que foi transcorrendo, até ir parar à posição em que o encontramos, posição essa quase sempre produto de acções naturais e humanas imbricadas.
Um objecto não é em regra um elemento passivo, espelho de uma ideia, materialização de um design mental apriorístico. É um elemento activo, é parte de um sistema simbólico (não confundir toscamente com ritual), e normalmente está conotado com crenças, com conotações, que vão muito para além de uma atribuição funcional simples. Uma seta, por exemplo, poderia ser considerada inoperante se não fosse pintada com determinada tinta, ou ornada com as penas de determinado pássaro. A sua funcionalidade "dependia" dessas conotações, ligadas a toda uma formação discursiva, a toda uma disposição da consciência, a todo um dispositivo, que ia muito para além até do verbalizado, ou expresso, ou eventualmente escrito. O que há de mais importante no funcionamento de uma sociedade é pressuposto.
Simetricamente, temos também de ter cuidado na pretensa caracterização de objectos ditos de culto ou de ritual, porque em muitas sociedades, incluindo a nossa, há conotações simbólicas para tudo (não deixo a minha escova de dentes em geral à vista num hotel, sobretudo barato, porque temo infectar-me através da pouca higiene de quem limpa os quartos, por exemplo - o que se relaciona com toda uma subjectividade "minha" que eu próprio não controlo) e isso às vezes é difícil de distinguir de rituais ou de outras intencionalidades.
Quer dizer, e em suma: temos de utilizar nomenclaturas para caracterizar a realidade arqueológica (lamentavelmente designada como "registo arquelógico", numa infeliz tradução da não feliz expressão inglesa "archaeological record"), a diferentes escalas, desde a mas micro à mais macro. Mas não devemos confundir os planos da análise, uma taxonomia com uma interpretação, embora as duas estejam relacionadas, como é óbvio. Certas normas disciplinares têm de ser partilhadas, como num hospital, por exemplo; mas quando se trata de pesquisa médica, o paper interessante é aquele que aporta novas maneiras de fazer e, sobretudo, novas maneiras de pensar esse fazer, obrigando-o a mudar. A rotina é a morte da imaginação, a redução do profissional a um tecnocrata, a um executor. A investigação é o contrário disso, é a anti-rotina, é a ousadia!
Criar, investigar, é estar atento à complexidade do real, e isso implica cultura geral, cultura geral essa para a qual não basta nem um curso universitário (sobretudo agora na sua versão reduzida de Bolonha), nem uma série de técnicas aprendidas, nem a intuição do senso-comum.
É preciso a instisfação intelectual que resulta de um meio-ambiente "enervado" (no bom sentido), energético, que problematize e desconforte os assentos fofos da vida pequeno-burguesa.
Em suma, é preciso lutar constantemente contra a tendência para o óbvio, e isso só se consegue estudando, lendo, olhando transversalmente, procurando outras visões, inter e transdisciplinarmente, para esclarecer melhor a realidade que nos cerca. Esclarecer melhor é um brilho, é um algo-mais... é o fulgor da inspiração, que vem depois de muito trabalho e de muito treino.
Quando o conseguirmos, seremos os primeiros a atrair a atenção de imensa gente interessante e inteligente, e a conseguir um estatuto para a arqueologia que ela, hoje, confundida pelos ignorantes como uma mera técnica, ainda não tem.
Não se trata de "fazer filosofia" - trata-se simplesmemte de nos inspirarmos, sem restrições, em tudo quanto possa inspirar-nos para a descentração, o recuo, o olhar distanciado.
Foi isso o que disse - ou pretendi dizer - no final,ontem, do debate no Centro Unesco, debate esse aliás amplamente divulgado e aberto a quantos nele quisessem participar, nomeadamente os meus alunos, após a bela conferência que ouvimos.



domingo, 23 de novembro de 2008

Sujeito e conhecimento (apontamentos da aula do Prof. Paulo Tunhas de 21.11.08 na FLUP) - podem ter interesse para os estudantes e não só


É crucial distinguir dois aspectos:
o
epistémico e o epistemológico.

O
aspecto epistémico diz respeito à relação do sujeito com o conhecimento.
Esta relação tem a ver com a crença : dúvida, certeza, indiferença, etc, situam-se todas nesse plano. Para C. S. Peirce, por exemplo, a dúvida provoca irritação. A partir dos anos 60 do séc. XX desenvolveu-se toda uma lógica epistémica, relativa aos fenómenos de crença, cujas primeiras perspectivas foram avançadas por autores como Jaakko Hintikka.

O
aspecto epistemológico diz respeito à relação do saber, das teorias, com a realidade.

Há filosofias que privilegiam a primeira dimensão ou aspecto - epistémico - desde logo representadas por
Descartes.
Outras, privilegiam a dimensão epistemológica, como é o caso do filósofo das ciências
Karl Popper.

1 - Nas
Meditações Metafísicas (esse livro compõe-se de 6 meditações) Descartes começa pela dúvida, aparentemente na herança do cepticismo grego e de Montaigne (séc. XVI). Mas essa dúvida é muito mais radical, hiperbólica, extravagante em Descartes, embora esteja "programada" para ser superada. Nos cépticos gregos, a dúvida faz parte da própria estrutura do conhecimento. É uma recusa da tese e funciona como um motor de investigação (skepsis = investigação). Porém em Descartes a dúvida tem por fim ser substituída pela certeza. E por uma certeza metafísica ("científica", para ele) que deve ser absoluta. Ver uma obra importante sobre Descartes, de Martial Guéroult, "Descartes selon L' Ordre des Raisons", Paris, Aubier Montaigne, 2e ed. 2007.
É isso que se trata de adquirir com o conhecimento. E mesmo uma "certeza da certeza", uma certeza redobrada, ou seja, o grau máximo de superação da dúvida- disso fala Espinosa no 5º livro da
Ética, e também Fernando Gil, no livro A Convicção. Tal tema tem a ver com as modalidades da atenção, com a atitude do sujeito. Essa certeza da certeza relaciona-se com a crença. Também Wittgenstein numa das suas últimas obras fala da certeza.

2 - Popper -um grande autor da epistemologia da filosofia da segunda metade do séc. XX, publicou em 1934 (depois traduzido nos finais dos anos 50) o livro
A Lógica da Descoberta Científica. Ele desvaloriza a relação do sujeito com o conhecimento; a dimensão epistémica está aqui praticamente ausente. O conhecimento humano pertence a um mundo de teorias (mundo 3) que competem entre si darwinianamente pela sobrevivência. As teorias são filhas da mente dos autores, mas tornam-se entidades separadas daquela.
No livro
Objective Knowledge (princípios dos anos 70 do séc. XX) Popper distingue três mundos: o 1, o das coisas naturais, o 2, o dos estados de espírito objectivos, e o 3, o mundo das teorias. Estas não não apenas teorias científicas - abarcam a totalidade das criações do "espírito humano", incluindo as obras de arte, etc. Essas criações assumem uma realidade objectiva. Podem ser teorias matemáticas, teorias sobre a evolução da humanidade, por exemplo.
A Popper interessa a autonomia do mundo 3 - "não sou um filósofo da crença", declara. Por isso não tematiza praticamente as relações entre o mundo 2 e o mundo 3; isso não lhe importa.
Esta teoria de Popper é contra o psicologismo. Existe um mundo da realidade objectiva em que existem as nossas teorias, e que competem entre si. Essas teorias têm uma autonomia objectiva; ganham um estatuto autónomo e independente.
A luta contra psicologismo vem já de finais do século XIX, princípios do XX, procurando uma autonomização de todo o conhecimento em relação à psicologia humana. O seu primeito grande representante foi G. Frege. Esta corrente não concede grande impotância à dimensão epistémica. Combateu E. Husserl da primeira fase, o qual depois, sob influência de Frege, passou a ser anti-psicologista.
No séc. XVII temos um exemplo clássico do psicologismo na chamada École de Port -Royal, com por exemplo A. Arnauld e Nicole, discípulos de Pascal. Para eles, a lógica era um desenvolvimento da psicologia; ela diz-nos a maneira como nós pensamos. Os psicologistas em geral exigem a dimensão epistémica do conhecimento.

Posto isto, de Platão a Hegel, vejamos como se articulam os temas epistémicos e epistemológicos. Qual a relação do sujeito com o conhecimento?

Em
Platão encontramos as duas dimensões. Dimensão epistémica: o mundo das ideias é o mundo da verdade Há uma exterioridade do mundo das ideias em relação ao sujeito humano, ao seu conhecimento. Apesar da anamnese (v. Fédon) nós não temos um contacto directo e imediato com o mundo das ideias. Mas há também a discussão da relação do sujeito com o conhecimento.
Existe de facto uma oposição entre o que ele chama "doxa" (opinião) e o que chama "episteme" (saber, ciência para nós). Esta oposição é também epistémica, e não apenas puramente epistemológica; diz também respeito à relação do sujeito com o seu conhecimento. Na
República, Platão elabora o diagrama da linha dividida.Há várias formas de conhecimento. O grau máximo de conhecimento é an-hipotético, quer dizer, é um conhecimento que transcendeu completamente o estatuto de hipótese, é a certeza da certeza de que fala Espinosa, uma certeza redobrada. É dotado de uma espécie de brilho de evidência por oposição à opinião e mesmo aos conhecimentos epistemológicos.O an-hipotético em Platão consiste numa experiência do próprio sujeito.

Leibniz (fins do séc. XVII. primeira metade do séc. XVIII) avançou com o conceito de hipótese (como igual a conjectura) que é já o sentido que mais tarde lhe dará Popper.
Para Platão, hipótese é algo que colocamos na base do conhecimento para lhe servir de suporte. Não há portanto uma dimensão aventureira da conjectura.
Para Leibniz, quais são as características da boa hipótese? Ela é algo que nos surge como mais do que uma simples hipótese. São: a inteligibilidade (critério epistémico - tem sobretudo a ver com a relação do sujeito com conhecimento); a simplicidade (uma hipótese, uma teoria, é mais inteligível e eficaz se for mais simples; pode assim revelar-nos mais acerca da natureza do mundo; se uma teoria estiver cheia de hipóteses ad hoc ela é menos eficiente do ponto de vista da representação do mundo); a beleza (elegância, no sentido em que falam os matemáticos).
Pensadores como René Thom, Einstein, ou Popper pensam que a teoria quântia, por exemplo, acusa um défice de inteligibilidade, há dificuldades nela do ponto de vista epistémico.
Nos finais do século XIX, princípios do séc. XX Pierre Duhem defendia uma exigência da inteligibilidade, de abertura à compreensão por parte do sujeito, das teorias científicas.
No séc. XX, pelo contrário, a concentração do interesse faz toda nos aspectos epistemológicos. Já para Kant a dimensão do epistémico estava num segndo plano.

A
Crítica da Razão Pura, de Kant (1781) está dividida em duas partes. Porém, a maior parte do livro é consagrada à doutrina transcendental dos elementos (estética, analítica, e dialéctica - esta última tem a ver com a distinção entre ser e pensar - transcendentais). Está aqui em causa a importância das nossas intuições, entendimentos, categorias, no espaço e no tempo, e a dificuldade, ou impossibilidade, do conhecimento em sair delas.
A segunda parte, que ocupa apenas uma pequena porção da obra, é a doutrina transcendental do método. Qual é a base filosófica da ciência newtoniana? Nesta questão, a dimensão epistémica (relação entre a opinião e o saber) está arredada. Ela aparece apenas de passagem na doutrina transcendental do método.
Há aqui um corte com o passado filosófico: uma sub-valorização do epistémico em relação ao epistemológico. Grande parte da filosofia do século XX reclama-se dessa herança kantiana, por exemplo, o neo-positivismo.
David Hume, que escreveu o Tratado da Natureza Humana (séc. XVIII) inspirou Kant. Nessa obra, ele discute toda a questão do conhecimento a partir da noção de crença ("belief"). A noção fundamental que aparece em Hume para a questão do conhecimento é epistémica.
Hume pergunta: que justificação temos nós para acreditar na regularidade dos fenómenos naturais? Certos filósofos, anteriores e posteriores a Hume, defenderam que é por razões emotivas.
Mas para ele, essa crença não é susceptível de justificação racional. É inevitável os seres humanos acreditarem em regularidades, mas elas não oferecem tal justificação. A crença é compulsiva, necessária, serve-nos de orientador, é indispensável à sobrevivência. As ciências da natureza, por exemplo, permitem-nos criar expectativas em relação ao mundo.

Em
Kant, o sujeito transcendental tem o mesmo estatuto do eu de Descartes. É impessoal, fora de qualquer concreto. Vamos aliás encontrar isso na nossa época em Piaget. O sujeito do conhecimento é um sujeito abstracto, serve de assento ao conhecimento, mas não o sente. Opõe-se a sujeito concreto. O sujeito de conhecimento experimenta afectos intelectuais (Espinosa); sente a dúvida, por exemplo. O sujeito intelectual, ao contrário, não tem afectos individuais. Os sujeitos abstractos são distintos dos sujeitos concretos, mas servem para pensar estes últimos.
Em Kant só é possíve pensar com as categorias a priori do nosso espírito. Essas categorias são imutáveis (para outrs autores, tais categorias são mutáveis, e não são a priori).

Cepticismo, pois, de
Hume: a crença não é justificável por um processo indutivo. Não há qualquer espécie de justificação da crença - e esta, apesar disso, orienta a nossa existência. O facto da crença não ser justificável não quer dizer que não seja operatória - ela é mesmo impossível de evitar.
A filosofia posterior vai tentar justificar a crença em termos emotivos.

O neo-positivismo foi um anti-psicologismo.
Rudolf Carnap é um dos seus mais destacados elementos. H. Reicenbach outro. Eles procuraram uma justificação epistemológica para a crença - fundamentar o epsitémico pelo epistemológico.

Em Hegel há fusão do epistémico (relação do sujeito com as teorias, recorda-se mais uma vez) e do epistemológico (relação das teorias com a realidade).

Antes, para certos autores, as teorias representavam a realidade. Tal é uma relação de representação, a qual é externa - essa ideia de exterioridade está no cerne dessa concepção. A nossa intuição é a da verdade, da verdade como correspondência. Nesse ponto de vista, uma teoria é verdadeira se representa a realidade.

Toda a filosofia de Hegel (por oposição a Kant) é uma crítica da exterioridade e das relações externas. Para Hegel a verdade não é representativa, não se constrói como uma representação, decalque do mundo exterior. Ela é o produto da actividade do sujeito. Encontra-se numa relação interna com o sujeito.
O que é o sujeito em Hegel? Não é um sujeito psicológico que se define por oposição ao objecto. O sujeito em Hegel representa toda a humanidade no processo de desenvolvimento do seu conhecimento, uma recapitução, que se realiza no próprio Hegel (por muito megalómana que possa parecer, e essa a sua concepção).
Em 1807 Hegel publica A Fenomenologia do Espírito. Aí retrata todo o desenvlvimento da história humana para mostrar que ela chegou a um fim com o próprio Hegel, que recapitula a história passada. O sujeito não é um indivíduo particular. É a história humana toda que é recapitulada por Hegel (espécie de anamnese à maneira de Platão). O que ele chamou Erinnerung ganha sentido através da recapitulação que ele faz. O sujeito não é abstracto (como acontece em Kant ou em Piaget). O sujeito é o próprio processo da verdade. Há uma completa eliminação da exterioridade em Hegel ( a sua "bête noire").
O epistemológico em Hegel é absorvido pelo epistémico, pela relação do sujeito do conhecimento - este último é produto do desenvolvimento do sujeito. Aqui está considerado um máximo de inteligiblidade do sujeito: o que eu tenho a comreender são os gestos do meu espírito, mais inteligíveis do que é exterior ao meu espírito.
Hegel visa ois aqui a inteligibilidade máxima. Tudo está na inteligibilidade do sujeito. Absorção do epistemológico pelo epistémico.
Todo o processo de conhecimento humano é concebido como o desenvolvimento (recapitulação por Hegel) que conduz ao saber absoluto. Há aqui uma forte carga epistémica. Não é um saber exterior, designa a maneira como o sujeito se apropria de toda a realidade. O saber absoluto é a apoteose da dimensão epistémica.
O espírito humano é que pensa. O sujeito ao qual se refere o conhecimento absoluto não e o indivíduo isolado, é a própria humanidade tal como e concebida por ele.
A certeza sensível é a certeza que temos em relação aos objectos dos nossos sentidos. Através de várias etapas (superação ou sublimação de cada etapa na seguinte) vai-se progredindo até chegar ao saber absoluto.
A certeza sensível caminha até ao espírito absoluto.
Dos gregos, até ao próprio Hegel há, na sua concepção, um pleno desenvolvimento do espirito. A humanidade inteira vem concretizar-se em Hegel (esta é uma concepção um pouco delirante, do autor, mas...)

Encontramos formas mais radicais deste privilégio concedido ao sujeito em autores como Fichte (filósofo alemão que se situa entre Kant e Hegel) e Paul Valéry, poeta francês, ambos dos finais do séc. XIX, inícios do séc. XX.
Fichte diz que só podemos compreender o que nós próprios produzimos. Compreender uma filosofia é de certo modo ser capaz de antecipar o que o autor pensa. Compreender é conseguir reproduzir em nós mesmos os processos de pensamento do autor: reproduzir através do nosso pensament aquilo que se trata de compreender. O eu projecta, através da acção de imaginação, um não-eu, que é o mundo exterior. Este descobre-se numa exterioridade que foi criada pelo próprio sujeito, e por isso é que ele, mundo, é compreensível.
Para Valéry nós só podemos compreender as operações que podemos executar, como por exemplo em matemática; mas isto vale para tudo. O epistemológico encontra-se sob a alçada do epistémico.


Para aqueles que entendem a verdade com correspondência, tudo o que é susceptível de uma representação que seja verdadeira é algo de exterior. A interioridade tem a ver com a nossa percepção dos nossos estados mentais. Há uma relação da primeira com a terceira pessoa, por exemplo na filosofia da mente contemporânea.
Os qualia são estados mentais pessoais intransmissíveis, aos quais apenas a primeira pessoa tem acesso. A interiordade não é redutível à pura exterioridade. O ondivíduo concreto tem uma experiência concreta de qualia.

Wittgenstein nega um privilégio da primeira pessoa, mas há na sua filosofia algo de complexo (e variável ao longo do tempo), pois, apesar disso, há uma certa capacidade da primeira pessoa: a dor só é sentida por mim.

A movência estruturalista e o pós-neo-positivismo constituem-se como uma crítica do sujeito, uma negação do epistémico.

Em Jacques Derrida há uma crítica do sujeito, uma crítica da evidência.

Muitos outros não perdem de vista a dimensão epistémica do conhecimento - por exemplo, Fernando Gil.
Nomes como Roderick Chisholm e Hector-Neri Castañeda situam-se nos antípodas do desconstrucionismo, valorizando a dimensão epistémica do conhecimento.

O desconstrucionismo (Derrida e outros) sustêm-se numa crítica do epistémico que não é compensada por uma revalorização do epistemológico.
O epistémico e o epistemológico são desvalorizados neste autor.
_________
Nota: estes apontamentos estão sujeitos a correcção pelo autor da aula. Certas repetições são próprias da oralidade e são, a meu ver, muito úteis.
Qualquer correcção será feita, se e onde necessário, após a sua revisão.
Até lá, eu sou o único responsável por qualquer gralha ou má interprertação resultante da minha percepção da lição, dos meus apontamentos, (14 pp. A4) e da minha falta de preparação em filosofia.
Estes elementos são úteis, creio, para todos.
Este blogue visa aliás contribuir para superar a superficialidade/banalidade que muitas vezes caracteriza esta forma de comunicção/expressão (com ridicularias até à náusea), dentro das minhas capacidades e competências que, como as de qualquer pessoa, são muito limitadas, por maior esforço que se faça. Visa-se assim também contribuir para uma cultura de não facilitismo nem de mais ou menos. Uma cultura aberta, acessivel, mas exigente.
Isso implica trabalho constante.

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Foto acima: d.m.
Fonte: http://egipciadffm.blogspot.com/



sábado, 25 de outubro de 2008

O perseguidor


todos temos essa figura, a sombra incómoda. o homem chato que nos persegue.
e leva muitos anos até nos apercebermos da sua presença, como a da mosca que entrou pela frincha.
está obcecado pela nossa pessoa, e nem sequer é um diamante, mulher ou cavalo.
é possivelmente um simples pobre homem, que de vez em quando pousa. sobre os braços, sobre a mesa, sobre a nossa própria comida, entre as almofadas.
não tem rigorosamente nada para dizer, ou fazer.
e por isso chega, acerca-se, invade, como puro vazio, sem pretexto. é o interruptor, o que de facto interrompe, muda o sentido da nossa atenção, deixa um muco sobre a superfície lisa da consciência.
e tal como a mosca, escapa sempre ao nosso movimento súbito de o atingir com um pedaço de jornal já lido. ou então fica de pernas para o ar, em aparente agonia.
mas reaparece passadas semanas, ou meses, ou anos, ou mesmo apenas alguns minutos, numa insistência sem limites.
parece repetir: ainda estou aqui. ainda estou aqui.
não quero nada, quero apenas interromper, aparecer, como a figura de que te não libertas, o Grande Maçador.
e explode então numa gargalhada que nos dá a ver o seu crânio morto. descomposto, como um animal de talho pendurado, uma figura de francis bacon.
e recompõe-se, metamorfoseia-se, muda constantemente de figura para parecer igual, para se repetir a si mesmo.

é um cavalo vazio, um guerreiro de plástico, um tigre morto, um placard apunhalado, um tronco alto seco, mas mesmo assim pousa sempre.
interrompe.
desafiando as figuras do desencanto e da miséria, desafiando mesmo os vivos e os mortos.
está entre, é uma entretela que mói.

e assim, mesmo quando não aparece, está sempre aqui.

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Foto Aya and Ned

http://www.louchelab.com/index.html


terça-feira, 16 de setembro de 2008

erecção



Guardei o que aquele ser especial
tinha para me dizer:

"nada iguala neste mundo a soberania do artista
sentado ao lado da sua obra;
a sua obra está em pé e as protuberâncias dela
brilham e espetam-nos como a luz do crepúsculo
um pouco antes deste acontecer."

Recolhi as palavras daquele que me transmitiu
esta arte, o meu pai.

"Canta", disse, e eu cantei.

e perdi o medo, sentei-me na soberania do artesão
sentado ao lado da sua obra em pé.


texto e foto voj 2008

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

sabes



sabes, o belo é para as pessoas se entreterem.
o Sublime, sabemo-lo há séculos,
beija constantemente o Ridículo.

num daqueles beijos fundos que con-fundem.

mas a lava negra que sai dessa boca unida
é de uma soberania total.

os animais prostam-se perante ela.

e até deus dá um risinho frenético, efeminado,
como se não lhe fosse suportável o olhar amarelo,

brilhante, das suas criaturas,

como se esse olhar o congelasse a ele, deus,
na sua solidão eterna, na sua areia rasteira

de excrementos e pedras espalhadas na horizontal,
pois que tal é o modo de estar do infinito,

a cama onde ele dorme.

deus é como um camelo: até os seus excrementos
se assemelham a tâmaras. e foi assim, pelo ânus,
que ele criou o mundo no princípio.


estendendo o Sublime no Ridículo,
confundindo as essências,
espalhando odores contraditórios,
unindo bocas, abrindo

o segredo da diversidade
irrepresentável, no vértice do cristal em que se senta
e que ao mesmo tempo o sodomiza,
adiando constantemente a possibilidade
da síntese.



voj texto e foto 2008

carnuda



Conheces as plantas carnudas, rasteiras, que crescem pela superfície do deserto, a sua presença extensa, alucinada, amarela, como a de um mar parado e escondido? Então conheces tudo. Acaricia-as como se fossem o dorso brilhante de uma fêmea jovem.
Que mais precisa aquele
que vai desfalecer à beira do prazer horrível, tão insuportável como uma dor? Enfia as mãos pela realidade dentro, colhe a sua humidade, nem que ela seja a do sangue indescernível, pois não sabes se sai do teu corpo ou do corpo carnudo que apertas. Não era isso que procuravam os que se abeiravam dos limites, tornarem-se materiais comuns, reduzidos à paragem definitiva das plantas, à sua serenidade amarela?



texto e foto voj 2008

"Safari em Marrocos"

Hoje recebi por mail uma proposta de "safari" em Marrocos, com 5 noites, e respondi isto:

Obrigado pela dica.
Acabo de vir de lá.
Mas é preciso ser mais aventuroso, uma semana não é nada e quanto a mim descura-se muito a arquitectura das kasbahs, verdadeira jóia da humanidade em ruinas. Fomos impedidos de ver a de Ouarzazate porque estava alugada para um filme. É frustrante! E descura-se as pessoas, é tudo um negócio muito bem montado mas muito redutor. Enfim...
É preciso um turismo para pessoas que querem viver por dentro os outros povos e não só observá-los e fotografá-los.
Um outro turismo.
Um turismo que pode não atrair massas, mas que atrai pessoas de gosto e de cultura. Também existem... E claro, querem conforto, isso é óbvio. Dormi num acampamento em condições absolutamente desgraçadas, em Merzouga.
É preciso um turismo de deserto, mesmo. Não só olhar para ele desde a margem.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

algum trabalho para remover



eu não queria parar aqui.

nesta fronteira
cheia de cavalos cansados
e abismos de onde vem um hálito
de vazio.

eu queria ver as cabeças embalsamadas
marcando a margem até ao infinito:
ou seja, o outro lado, algo para lá do horror mais absoluto.

talvez incontáveis cabeças de camelos já verdes
pela antiguidade da sua morte,
escorrendo um sangue de estalagtites.

eu não queria parar no fim da estrada
na berma do abismo
onde expressões de angústia me confrontam
cada uma com o seu passado e a sua queixa.

seres nus, deambulando como espectros,
incapazes de segurarem a sua coroa.

estou cansado de vultos a lamentar-se:
que é o que sofrem comparado com o que já aconteceu
e acontece, e está para acontecer?

cantem as gaitas de foles junto a uma fronteira imensa
e milhares e milhares de seres levantem as saias
para o voo branco!

deita-te na areia
que a noite, uma cobra, um simples lacrau
hão-de chegar para acabar connosco,

e veremos o horizonte juntos,
rindo de agonia e dos miseráveis que querem a todo o custo
ter a vida arranjada, tudo em ordem,
e vivem como répteis
junto à sua própria comida e excremento, tudo perto.

se aceitas este pacto, vem comigo
até à fronteira para lá das fronteiras
sem qualquer garantia nem seguro,
sem qualquer previsão.

caminha apenas, enquanto puderes,
pois o sol e os bichos
que espreitam os exaustos
hão-de acabar connosco.

e enquanto tiveres forças
espalha no ar esta areia rósea,
levanta os lençóis da atmosfera,
as saias brancas.

não tenhas medo nem pena nem qualquer ansiedade,
o importante é conseguirmos no momento preciso
ter a mão de um escondida dentro da mão do outro.

e dentro dela, o baile dos deuses
transformados em anões, em brinquedos nossos,
ridículos seres humanos entregues ao tempo,
presas da expectativa,

enquanto algures alguém se ri disto tudo
desta corrida, deste percurso, desta viagem malvada
em que sem pedirmos nos meteram.

olha os olhos do camelo morto:
são sublimes as suas lágrimas de estalagtites
caindo sobre esta greda branca,
sobre este gesso virgem do deserto.

estou farto deste vai-vém
querendo sempre mais qualquer coisa,
vendo se mais algum sinal aparece,

rodeado de brutos, de filhos da mãe,
de gente medíocre
sempre a queixar-se,
ou a fazer alarde dos seus feitos

- tipos e tipas que apenas me pedem coisas,
me perguntam quem são e para onde hão-de ir.

pois dou-lhes o meu corpo,
que o venham buscar aqui na fronteira
colado com lava ao teu,
tornado fóssil negro, negro, e brilhante, e pesado

- algo que ainda lhes dará trabalho e sobretudo despesa
a remover!




2008 voj texto e foto (pôr do sol sobre as dunas de Merzouga, fronteira Marrocos-Argélia)