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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Giorgio Agamben - esquema (transcrição livre) da palestra postada neste blogue (mensagens anteriores) sobre "O Poder e a Glória"

Como é que o poder tomou nas sociedades ocidentais o modo de uma oikonomia, de uma economia: o governo dos homens e das coisas? Trata-se de uma peculiar, moderna, forma de poder, ou seja, o governo.
Foucault, nos meados dos anos 70 do séc. passado, começou a trabalhar na questão do "governo dos homens". As investigações históricas de Foucault eram só a sombra do seu questionamento teórico do presente; o mesmo acontece com G. Agamben, que vai aos começos da teologia cristã.
Da teologia cristã derivam dois paradigmas: a teologia política, que se baseia num deus, na transcendência do poder soberano, e uma (nova) teologia económica se que baseia na noção de oikonomia, economia, concebida como ordem imanente (doméstica e não propriamente política) da vida humana e da vida divina ao mesmo tempo.
O primeiro paradigma é jurídico-político e dará origem à teoria moderna da soberania. O segundo é gestionário e levará à biopolítica moderna, ao presente domínio da economia e da gestão sobre todos os aspectos da vida social.
O termo grego oikonomia (economia) teve um papel essencial na estratégia dos teólogos que no séc. II da nossa era elaboraram a doutrina da Trindade.
Como se sabe oikonomia deriva de oikos, é a administração da casa. A política é a administração da polis, da cidade. Na tradição aristotélica há uma profunda oposição entre a economia e a política; do ponto de vista grego a política não pode ser reduzida à economia. Para Aristóteles, a economia é um paradigma não epistémico, algo que não é uma ciência, uma episteme, mas uma prática, que implica decisões e medidas que só se podem perceber em relação com uma dada situação ou problema. Traduzi-lo-íamos hoje por gestão (management).
Por que é que os teólogos cristãos precisavam desse termo, economia? Muito simples. Quando a doutrina trinitária começou a ser desenvolvida, os teólogos tiveram que fazer face à forte resistência dentro da Igreja de um número razoável de pessoas (os "monárquicos"), partidários do Um, do Uno, que pensavam (e talvez tivessem razão...) que a introdução em Deus de três "pessoas" era um regresso ao politeísmo.
A economia - oikonomia - foi o conceito por meio do qual os teólogos tentaram reconciliar em Deus a Unidade com a Trindade. O argumento deles era simples: Deus, como substância ou ser, é absolutamente Um; mas no que toca à sua economia (o modo como ele gere a Casa Divina e a Vida), ele é três. Tal como o senhor, o chefe da casa pode partilhar a administração da mesma com um filho ou outras pessoas, sem perder a unidade do seu poder, do mesmo modo Deus pode confiar a gestão do mundo e a salvação dos homens ao seu filho, Cristo.
S. Paulo, nas suas cartas, refere-se à redenção, ou a uma economia do mistério da salvação. Alguns teólogos (Hipólito, Tertuliano, etc) inverteram esta expressão - trata-se de uma muito importante inversão estratégica - e falaram, referindo-se à Trindade, de um mistério da economia. Portanto,não é o ser de Deus que e misterioso, mas a economia, a acção, a sua actividade é que é misteriosa. E eles distinguem dois sentidos de discurso, dois logoi, o discurso teológico ou ontológico que se refere ao falar de Deus, e o discurso económico, que se refere à acção de Deus, ao modo como ele faz o governo, a gestão do mundo e da salvação. A Trindade não foi pois introduzida no princípio, como uma doutrina metafísica, mas depois dos primeiros grandes concílios da Igreja, como uma economia, como um instrumento de gestão.
A hipótese que estou [G. A.] a tentar sugerir é que este mistério da economia funcionou como o paradigma epistemológico subjacente (escondido) da governância moderna.
Portanto, usamos [G. A.] a teologia para melhor compreender o governo; não é um voltar à teologia, mas usar a teologia para melhor perceber a governância. Esta doutrina ocupou os padres da igreja durante séculos.
Os pontos principais da minha investigação, são:
- que tipo de actividade, que tipo de praxis é a economia, a oikonomia? Qual a estrutura subjacente a um acto de governância, a uma acto da divina gestão?
- por que é um tal governo do homem possível?
O primeiro ponto de cinco que irei tratar é o paradoxo da divina anarquia. Como vimos, a doutrina da divina economia foi elaborada para salvar o monoteísmo, mas acabou por introduzir uma cisão (split) em Deus: uma divisão entre ser e acção, ontologia e economia. A economia de Deus, a acção de Deus, de acordo com os Pais da Igreja, é um mistério anárquico.

[estes tópicos reportam-se à primeira de seis partes de um video postado neste blog]


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