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sexta-feira, 25 de Julho de 2014

I Encontro sobre Arqueologia e Museologia das Guerras Napoleónicas em Portugal - Loures, Setembro 2014






18 e 19 de Setembro 2014

"Pretende-se que este encontro seja o início de um conjunto de muitos outros eventos com diversificado tipo de temáticas que dinamizem a investigação, a mediação e a divulgação deste património, numa primeira fase num contexto nacional, mas que gradualmente permitam que se consiga também uma projeção internacional, pois a temática das Guerra Napoleónicas é muitíssimo abrangente, rica e complexa, envolvendo toda a Europa do século XIX, com repercussões na atualidade."




"Este encontro visa apresentar e discutir publicamente:
·Os trabalhos de investigação arqueológica desenvolvidos nas várias fortificações militares que fazem parte do Sistema Defensivo das Linhas de Torres;
·Os projetos de conservação, valorização e de musealização que estiveram na génese da RHLT;
·Outros projetos similares de investigação em edificações militares que também estiveram envolvidas nas Guerras Napoleónicas (exemplo: a fortificação de Almeida).
·Edição das atas em formato pdf de modo a serem disponibilizadas em formato digital e também on-line.
Contactos
gabinete_arqueologia@cm-loures.pt
telefone: (00351) 211 150 664
Organização:
Câmara Municipal de Loures
Associação para o Desenvolvimento Turístico e Patrimonial das Linhas de Torres
Inscrições:
Participação gratuita mas condicionada a inscrição prévia (circunscrita à capacidade do auditório)"

domingo, 13 de Julho de 2014

O TEMPO E OS SEUS MODOS - CICLO DE DEBATES NO PORTO






Cartaz José Paiva



O TEMPO E OS SEUS MODOS
Ciclo de debates interdisciplinares 
Setembro a Dezembro 2014
Coordenação geral: Vítor Oliveira Jorge (Professor da FLUP, aposentado) e Catarina Martins (Professora da FBAUP)
Organização da associação Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE) em colaboração com o i2ADS – Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade (FBAUP)
Colaboração da FPCEUP

Porto, Auditório da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto

Rua Alfredo Allen
4200-135 Porto
(dispõe de parque de estacionamento; metro estação do Pólo Universitário)

Todas as sessões começam às 15 horas

Este primeiro ciclo de debates (cada um ocupará uma tarde de sábado), incidirá sobre uma temática que tem a ver com as vivências do tempo, com a aceleração contemporânea do modo de vida, profundamente impregnado de tecnologia, e também com esta espécie de fuga em frente que leva – aqueles que ainda o podem fazer - à mobilidade constante, à viagem. Enquanto, paralelamente, os habita o sonho ou a fantasia do repouso, da retenção, da paragem, da contemplação, da meditação, da fuga ao tempo, do descanso.
De forma que a ideia de história (e de causalidade, com a qual obviamente se conecta), sempre controversa, tal como as suas associadas, a memória, o arquivo, o museu, o património, a identidade, se articulam com a ideia de viagem e de tudo o que ela também tem de paradoxal.
Temos cada vez mais consciência de que a tecnologia nos controla totalmente, e não é uma coisa exterior, uma prótese, mas algo que já está implantado em nós, na nossa intimidade e no nosso desejo. De modo que as antigas formas de equilíbrio psíquico, de economia libidinal, de subjetividade, se transformaram, e o sujeito atual é um indivíduo, no mínimo, inquieto, e normalmente não pelas melhores razões.  O stress tomou conta de nós e desgasta-nos a vida e a saúde, com a intensificação do medo da perda, definida ou indefinida. Cada um de nós é um pessoa muitas vezes só, des-subjetivada, tendencialmente deprimida, desmotivada e desencantada.
Para além do ideal de vida de cada um(a), que uso ou usos queremos propor para uma ocupação mais feliz, em comum e não solitária, mas antes em equipa solidária, dos nossos tempos?



1 – HISTÓRIA  - 27 de Setembro 2014

A história linear que nos ensinaram e ensinam não corresponde aos nossos anseios. Há que revisitar, que repensar, outras maneiras de pensar a história e a temporalidade, que divirjam do tempo homogéneo e cronológico. Longe de escatologias e de vontades de “colonizar o futuro”, há que inventar formas novas de pensar a temporalidade e a causalidade.

Moderadores: Armando Malheiro (FLUP), Gonçalo Velho (IPT-Tomar), Orfeu Bertolami (FCUP).

2 – MEMÓRIA – 4 de Outubro de 2014

Memória individual, memória colectiva... formas de constituição da subjetividade individual e partilhada, matérias subtis e sensíveis...Memória, testemunho/a, verdade, mnemónica, técnica e memória, perda, luto, nostalgia, melancolia... e, de novo, formas de pensar o tempo.

Moderadores: Álvaro Campelo  (Univ. F. Pessoa), Fernando José Pereira (FBAUP), Gonçalo Velho (IPT-Tomar), Joaquim Luís Coimbra (FPCEUP), Maria José Barbosa (doutoranda em Filosofia – U. S. C., Espanha), Stella Azevedo (doutoranda em Filosofia -FLUP).

3 – ARQUIVO – 11 de Outubro de 2014

Obsessão contemporânea, a de guardar, conservar, a de indexar, febril atitude de se contrapor ao tempo, ou seja, à morte. Uma sociedade que convive mal com a obsolescência e com a contingência, ou seja, uma angústia e ao mesmo tempo uma atração mórbida, fetichista, pelo olhar vazio da múmia: a nossa morte vista. Fantasia de eternidade, da totalidade recuperada e afinal sempre incompleta.

Moderadores: Catarina Alves Costa (FCSH-UNL), Fernanda Ribeiro (FLUP), Jorge Ramos do Ó (Inst. Ed. U.L.), Stella Azevedo (doutoranda em Filosofia - FLUP)

4 – MUSEU – 25 de Outubro de 2014

Mausoléu de tudo o que perdemos, como o arquivo, mas aqui se expõe numa montra, num caixão de vidro. O museu é o lugar da canonização do quotidiano, seja ele de ar livre ou fechado, seja ele dirigido a objetos ou a pessoas. Museu do gesto, museu da pessoa, museu do imaterial, depois de ser gabinete de antiguidades e coleção de raridades. Museu, sintoma da nossa incurável insatisfação de consumidores, de colecionistas e de turistas. Turistas de nós mesmos.
Moderadores: Alice Semedo (FLUP), Álvaro Campelo  (Univ. F. Pessoa), Florbela Estêvão (C. M. Loures)

5 – PATRIMÓNIO – 15 de Novembro de 2014

Valor colectivo, em permanente estado de perda, porque vive da própria ferida que pretende cobrir, tapar, compensar. O património é também e sobretudo uma política, ligada ao Estado moderno e à vontade de lacar o tempo e de fixar uma imagem da história, quer dizer, de naturalizar uma série de narrativas, de mitos fundadores, de heróis, de lugares sagrados da laicidade.
Moderadores: Álvaro Campelo  (Univ. F. Pessoa), Armando Malheiro (FLUP), Augusto Santos Silva (FEP), Cláudio Torres (CAM), João Pedro Cunha-Ribeiro (FLUL).

6 – IDENTIDADE –  22 de Novembro de 2014

De novo a vontade de identificação, que é sempre uma indexação, uma atitude de ligar a um código de referência, que me diga o que eu sou, o que nós somos, e aquilo que não sou ou que não somos: atitude de marcação de uma fronteira, de um limite, de uma adopção de uma tipologia. Medo do outro, da aproximação excessiva do outro e do que ela pode conter de contaminação. Não se pode abordar este problema sem passar por exemplo pela psicanálise, mas por muitas outras perspectivas também.

Moderadores: Álvaro Campelo  (Univ. F. Pessoa), José Alberto Correia (FPCEUP), Maria José Barbosa (doutoranda em Filosofia – U. S. C. – Espanha), Paulo C. Seixas (ISCSP),

7 – VIAGEM – 13 de Dezembro de 2014

Interminável movimento, que começa bem antes do início, com o sonho e o planeamento do ato de mobilidade, de arrastar o corpo e o olhar para paisagens ainda não fruídas, e acaba bem depois do fim, na rememoração, na reconstrução do vivido, do visto, na imaginação que se narra. A viagem e a narrativa do tempo contínuo, da história como nos foi ensinada, e a necessidade, de novo, de repensar o sentido da viagem como algo que está sempre a acontecer e que, paradoxalmente, nunca se deu. O turismo e a compra de um bem imaterial: poder olhar durante um certo tempo para uma paisagem do despaisamento.

Moderadores: Arnaldo Saraiva (FLUP- jubilado), Mariana Correia (Escola Sup. Gallaecia), Paulo C. Seixas (ISCSP), Vítor Martins (FBAUP).


Modo de funcionamento: em cada sessão algumas pessoas (os/as moderadores/as) “darão o mote” da problemática em questão,  cada um(a) do seu ponto de vista, seguindo-se um debate com todos os presentes que desejem intervir.

terça-feira, 1 de Julho de 2014

privacidade




Há pessoas que não querem aderir ao facebook em nome da manutenção da sua privacidade. Estão no seu pleno direito, até porque o facebook é uma máquina de fazer dinheiro à custa de nós, seus utentes e seus “trabalhadores” voluntários e gratuitos. Um dispositivo algo obsceno. Certo.
Mas que é a privacidade, de facto, nas sociedades de controlo, em que todos os meus movimentos podem ser monitorizados, e cada vez mais, através da rede informática onde, quer queiramos quer não, todos estamos inseridos?
Que é a privacidade nas sociedades do biopoder em que logo à nascença se tem um cartão de cidadão, que é um número, e mesmo depois de morto é atribuído ao falecido (por causa da herança) um novo número fiscal? Em que o nosso corpo é esquadrinhado em todas as direções, nomeadamente quando em pânico desconfiamos que podemos ter alguma doença grave, ou o seu prenúncio?... sociedades do desassossego, da vigilância, da autovigilância, do narcisismo doentio e em que todos nos sentimos permanentemente frágeis, expostos totalmente ao acaso. Angústia, ansiedade, fechamento de cada um no seu casulo pessoal e familiar, retração da sociabilidade.
Deus? Para quem acredita, serve de pai protetor, de segurança última.
Estado? Para quem acredita na boa fé dos que o comandam, serve de encantadora ilusão securizante.
Natureza? Para quem tem esse mito, numa época em que o ambiente continua a sofrer todas as tropelias, enfim, que goze muito no seu maternal seio.
Dinheiro? Ah sim, dinheiro, deus e sexo devem ser três daquelas coisas que, depois do futebol, são das mais sagradas para muitos. Mas, claro, o dinheiro é o grande motor deste mundo, é o deus do capitalismo e o capitalismo é o nome que é herético pronunciar, como dantes não se podia dizer o nome de Deus em vão.
Amanhãs que cantam? Camaradas, o povo unido jamais será vencido. Sob a liderança de um chefe, iremos lá um dia. Boa caminhada, pode ser que aconteça o milagre!
Mas, privacidade? Receio de se expor? Oh amigo, oh amiga, tu já estás nu(a) perante o biopoder que nos controla!
Nunca entraste num hospital, internado? Nunca tocaram mãos alheias no teu corpo como se fosse uma máquina, quando tu, deitado numa cama e ligado a um tubo de soro, te não podias furtar a tal profanação? Nunca te expuseste nu perante uma equipa de recrutamento militar? Nunca te expuseste nu(a) a alguém a cujas carícias te entregaste, pouco sabendo desse alguém, pouco sentindo por esse alguém, apenas porque seguiste aquela malvada ordem do teu superego para gozares?... e, finalmente, nunca chegaste, às vezes passado tanto tempo, à conclusão de que o ser perante o qual tinhas desnudado o teu corpo e a tua vida, afinal, não correspondia à tua fantasia, ao teu desejo, ao mínimo de decência que pudesse manter essa relação?
Privacidade? Não me fales disso com essa ligeireza. Se não gostas do facebook, se não tens e-mail, se não usas telemóvel, se te julgas dono e senhor do que te acontece, pelo menos parcialmente, está descansado, que um dia o Real há de bater-te com força na cara. Se isso não te aconteceu ainda, vai criando as tuas defesas, se quiseres sobreviver. Boas férias, o mundo está para os simples que não se interrogam demais; deles será o reino da terra no seu dia a dia chão, como dantes lhes estava prometido o reino dos céus.


voj julho 2014

quarta-feira, 25 de Junho de 2014

Voltando aos 4 As de Tim Ingold: algumas notas


Voltando aos 4 As de Tim Ingold: algumas notas

“Foi na minha mudança de Manchester para Aberdeen [1999] que aos três As de arte, arquitetura e antropologia se juntou o quarto, arqueologia. Isto refletia em parte os meus próprios interesses, que durante muito tempo estiveram na fronteira entre arqueologia e antropologia. Mas eu estava também convencido de que nenhuma discussão da relação entre arte, arquitetura e antropologia podia estar completa se a arqueologia não fosse também incluída. Com os seus temas afins de tempo e paisagem (Ingold 1990) e a sua preocupação mútua com as formas materiais e simbólicas da vida humana, a antropologia e a arqueologia tinham desde há muito sido vistas como disciplinas irmãs, mesmo se não o foram sempre em termos explícitos. Acima de tudo há uma afinidade óbvia entre a arqueologia e as histórias quer da arte quer da arquitetura, nos seus interesses comuns pelos artefactos e edifícios antigos. Num certo sentido, suponho eu, os arquitetos e arqueólogos podiam ser encarados como iguais nos seus procedimentos, embora opostos na questão temporal: afinal o mesmo utensílio – o colherim – que o construtor usa para fabricar as formas do futuro é usado pelo arqueólogo, na escavação de um sítio, para revelar as formas do passado. Se um começa com desenhos daquilo que é preciso erguer, o outro termina com plantas do que foi exumado. (...)
Contudo, se a arqueologia se junta à antropologia não como uma ciência positiva mas como uma arte do inquérito [conceito específico do autor, explicitado no conjunto do texto], e se de forma semelhante é para se unir à arte e arquitetura concebidas como disciplinas em vez de compêndios de objetos para uso histórico [é o que faz a história da arte] , então os termos da ligação mútua têm de ser renegociados, em dois aspetos. Primeiro, assim como fomos levados a distinguir a antropologia da etnografia, também, de igual modo, a arqueologia tem de ser distinguida do tipo de pré- ou proto-historiografia que tem como seu objetivo chegar a reconstruções plausíveis da vida quotidiana no passado. Embora os prós e contras do uso de analogias etnográficas para preencher os buracos de tais reconstruções tenham sido extensivamente debatidos, este ponto – crucial para a relação entre etnografia e pré-história – não tem consequências particulares na relação entre antropologia e arqueologia. Segundo, temos de reconhecer que a prática nuclear da arqueologia que é a escavação, entendida no sentido mais vasto como um engajamento com os materiais imersos na terra que contêm traços da atividade humana passada, não pode já ser reduzida a uma atividade de recolha de dados tal como o não pode a prática correspondente da observação participante em antropologia. Tal como a observação participante, a escavação é um meio de conhecer a partir de dentro: uma correspondência entre atenção consciente e materiais ativos, estimulantes conduzida por mãos hábeis “na ponta do colherim”. É a partir desta correspondência, e não da análise de “dados” incluídos em molduras “teóricas”, que o conhecimento arqueológico cresce. Na prática da escavação, como Matt Edgeworth escreveu recentemente, os arqueólogos são obrigados a seguir o corte – “ver onde ele vai, e em que direção nos leva” – não de forma passiva mas ativamente como caçadores atrás da sua presa, sempre alerta e capazes de responder a dicas visuais e tácteis num ambiente intrinsecamente variável (Edgeworth 2012, p. 78; v. Ingold 2011). Com efeito, o corte é uma linha de correspondência.” [conceito de Ingold, explicitado por ele no mesmo texto, p. 7].
Tim Ingold, “Making. Anthropology, Archaeology, art and Architecture”, London, Routledge, 2013, pp. 10 e 11).
Ingold designa “arte de inquérito” algo que caracteriza também a atividade do artesão, ou seja, “(...) permitir ao conhecimento crescer a partir do cadinho dos nossos engajamentos [envolvimentos] práticos e de observação com os seres e as coisas à nossa volta.” (ib., p. 6). E “correspondência” como algo de oposto à descrição do mundo, ou sua representação, mas antes como uma atitude de abertura “àquilo que está a acontecer ali para que nós, por nossa vez, possamos responder-lhe.” (ib., p. 7).
O objetivo do autor é extremamente ambicioso: trata-se não de erguer uma qualquer obra inteligente, mas  de tentar construir uma inteiramente nova configuração dos saberes, uma filosofia completamente diferente da que em geral preside à organização da nossa forma de (vi)ver o mundo, as disciplinas e a sua “transmissão”.
Note-se que o autor procura sempre, em filigrana, diluir os seres humanos no conjunto dos outros seres vivos (a especificidade humana existe, mas como um ser ou organismo entre outros; as questões “existenciais” ou subjetivas estão reduzidas a um mínimo; mesmo as diferenças sociais ou os conflitos são pouco acentuados, em geral, na obra de um autor que tem uma radicação marxista, entre outras. Ingold tenazmente evita, ao seu modo, cair nas armadilhas das dicotomias formativas da nossa cultura, como humano-não humano, natureza-cultura, matéria-espírito, etc.). E, por outro lado, complementarmente, a realidade exterior aos indivíduos aparece normalmente dada como “mundo”, ou seja, da forma mais abrangente e inclusiva possível.
Havendo esta aparente negação do inconsciente, da pulsão, do desejo, as formas de atividade “científica” e “artística” tornam-se disciplinas (modalidades de “inquérito”, no senti acima explicitado) que as pessoas prosseguem como formas de viver o mundo por dentro, como seres imersos no mundo (ao modo explicitado por Heidegger).  Há sim em Ingold um desejo intenso de diluir as fronteiras entre as várias categorias que fomos construindo ao longo de séculos de pensamento e ação, por forma a construir uma filosofia da percepção, da criatividade, da improvisação e da habilidade [“skill”]. De quem? De um ser humano abstrato, afinal, mas que para Ingold é, evidentemente, algo que corresponde a todo o ser humano, na sua “vida real”, ser humano real esse de que o nosso pensamento “categorial” se afastou, confundindo tudo. De modo que a tarefa a que este  pensador brilhante, incansável, obstinado como todo o grande pensador se dedica é a abrir-nos os olhos, retirando as “ramelas conceptuais” que se nos foram acumulando, para ver a realidade de uma forma límpida, atitude a que não falta uma certa poética e uma certa candura. Há em Ingold um frenesim, se bem interpreto, que é a de um homem feliz, na sua relação com os outros, com esse “mundo” abstrato que ele, académico anti-académico, confortavelmente habita, desejoso de se afastar de toda a burocracia que nos assola e perturba a ação de “puramente pensar”.
O entusiasmo com que fala dos seus cursos, perfeitamente compreensível porque são certamente fascinantes (pelo que dele li, e pelas conferências a que assisti) leva-nos porém a perguntar, felizes nós também por haver pessoas assim, que vivem numa espécie de “outro mundo maravilhoso”... e os seus estudantes, que terão ido fazer para a triste vida que a sociedade dos nossos dias lhes reserva?... a Grã-Bretanha estará certamente muito melhor que Portugal, nem se compara, mas também não é o eldorado em que possam medrar muitos “praticantes”, como Ingold, de tarefas em que conhecimento e ação cresçam como uma realidade una e gratificante cada ano que passa. Isto é óptimo que aconteça, mas pelo caminho a ação crítica do professor e investigador pode ficar um tanto atenuada, confinada àquilo que certamente Ingold menos gostaria, mas é bem provável: ser mais um, raro, na grande galeria dos “ilustres”.
Só uma última nota: o autor tem toda a pertinência quando afirma que a arqueologia tem de se distinguir, de se separar, da pré-história ou proto-história que quisesse reconstituir plausivelmente a vida quotidiana do passado. Esse objetivo, que muitos perseguem, é insensato. A arqueologia de que fala Ingold não é essa prática de reconstituição histórica, quero crer, mas antes uma prática de campo que nos envolve diretamente com os materiais (sedimentos, estruturas, objetos, o que seja), que nos leva a pensar “na ponta do colherim”, sem a preocupação de ligar tudo, o mais depressa possível, a um discurso historiográfico. Aqui reside uma das mensagens mais importantes do autor: mais vai levar tempo para que uma grande maioria o entenda.
Ou seja, a arqueologia é uma forma de se “engajar” com a terra, com o terreno, com as estruturas mais ou menos visíveis que o povoam, por forma a desbastá-lo quanto possível das “sujidades” que o tempo nele acumulou, e – necessariamente de uma forma que corresponde sempre a opções de equipa, que vão sendo improvisadas e negociadas ao longo do tempo – tentar perceber como é que esse espaço escolhido para intervenção poderá ter sido organizado no passado, nos variadíssimos passados que nele se imbricam. Trata-se de uma atividade, de uma tarefa, que não visa diretamente reconstituir nada, mas de um exercício de percepção, habilidade, imaginação, antecipação, por forma sobretudo a descartar o que aquilo (aquele sítio, aquela zona intervencionada) não foi, à medida que se avançam hipóteses plausíveis do que pode ter sido. Afastando a ideia dicotómica das funcionalidades versus simbolismos, afastando qualquer categoria óbvia apriorística, sem obsessão interpretativa, mas seguindo aquilo que a “ponta do colherim” – um colherim colectivo, pois se trata de um trabalho de equipa, e de uma performance sobre o terreno que é também um trabalho dos corpos, uma performance comunitária – nos indica. Uma palpitação que é também sentida por seres desejantes, sobre a superfície da terra que é também uma superfície vivida, não apenas um pedaço de terreno. Esse é o fascínio da arqueologia, que nada tem a ver com “mistérios” nem decifração de engmas, mas com a paixão humana de nos envolvermos, de tocarmos o que Lacan genialmente chamou “o Real”.

Vítor Oliveira Jorge
Loures, Junho de 2014