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quarta-feira, 20 de maio de 2009

chinelos e flores silvestres

Se nunca gostei de usar a palavra chinelos (ou chinelas, também se utiliza no femimino, a não ser que seja conotado com as mulheres), nem mesmo em boa verdade de os usar (prefiro sandálias, ou socas, ou coisa assim) e se pelo contrário olho da minha janela do sítio onde trabalho, e vejo, por entre o verde que cresceu nos últimos meses, umas flores avermelhadas, altas, que se destacam, e gosto de olhar essas flores silvestres a que ninguém liga e que (felizmente) ninguém colhe (em boa verdade a paisagem que vejo da janela aparece-me como um quadro) - qual a razão para o evitamento de uma coisa afinal tão precisa e próxima para tantas pessoas, e o enaltecimento de outra que apenas surge como um acréscimo estético à minha vida de clausura "estudantil"?
Sobre isso podia dissertar até ter um livro, mas posso só sugerir alguns tópicos destas conotações subjectivas, tais como as imagino ou fantasio.
O pé é um ponto ambíguo do corpo (o corpo está cheio deles), pois é o que representa a nossa humanidade (libertámos as mãos da locomoção) mas também o que toca na parte suja do solo. É um ponto de segurança frágil, de equilíbrio precário (ainda não estamos bem adaptados à marcha bípede, dizem os evolucionistas): é um ponto tenso de contradições. Por isso se usam botas, para tapar totalmente o pé (e eventualmente o transformar, efectiva ou alusivamente, numa arma, ou no signo de uma arma - de pontapear; transformando ou sugerindo metamorfosear o frágil em forte), mas por isso as mulheres sobretudo utilizam o calçado como um dos elementos fulcrais da sua "máscara", do seu jogo imparável de aparências. Lembro-me de como as minhas irmãs (como julgo que todas as reparigas) gostavam tanto de calçar, em pequenas, os sapatos altos da minha mãe... e como isso me chocava pela sua estranheza e até por alguma obscenidade...bom, isso do fetichismo dos pés (um ponto erótico, ou erotizável por excelência) e do calçado daria uma infinita prosa, como qualquer um sabe. Os chinelos é o que está mais perto de, e ao mesmo tempo desvela a, intimidade dos pés, dos pés na domesticidade. E os pés, como outros pontos do corpo, nomeadamente com interstícios (neste caso são os entre-dedos e os suores, odores, etc, que aí se geram) comunicam-se aos chinelos - às vezes até, com o uso, sob a forma de uma mancha que se não pode eliminar pela lavagem... assim, os chinelos e os pés são conotados facilmente com aquilo que queremos ocultar aos outros, a nossa intimidade (o corpo na sua vitalidade e portanto no que nele há de algo que transborda sempre dele) e suas facetas reprimidas socialmente. O pé nu é um mundo de símbolos (até de soberania ou sacralidade), e por isso aparecem na chamada "arte rupestre" tantas pegadas... mas surgem também todas essas "leonores" deste mundo que "vão pela verdura" e vão descalças e "não seguras"... com toda a ambiguidade que aí reside.
Enquanto que fazer o elogio de umas flores silvestres, supostamente imaculadas na sua distância (ah, a "natureza"), cor e (eventual) odor, até me fica bem, embora seja bastante vulgar como imagética... é a possível a partir da minha janela...nesta época em que a poética do resto, do banal, do quotidiano, está de moda. É uma estética cínica de evitar os grandes temas.


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