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sexta-feira, 5 de junho de 2009

sobre alguns tópicos de uma velha paixão...o que é ser arqueólogo...(nótula enviada para a archport)

Do meu ponto de vista de professor universitário desde o ano lectivo de 1972/73, e como “arqueólogo de campo” em directa relação com a primeira actividade, o meu ponto de vista sucintamente é o seguinte:
    
  • as licenciaturas com tese, antes do 25 de Abril, tinham automática correspondência em países europeus a uma pós-graduação: Master no Reino Unido, DEA em França. É óbvio que mesmo assim seria exigível (visto agora retrospectivamente), para se ter uma autorização de direcção de escavações, um comprovado curriculum de experiência de participação em escavações, nomeadamente de qualidade, como as que faziam os colegas alemães no Zambujal, por exemplo, ou a escola de Conimbriga. Mas nesses tempos a arqueologia não estava minimamente organizada em Portugal, imperando o amadorismo;
  • após o 25 de Abril assistiu-se a uma diversidade de licenciaturas, e após muitas vicissitudes em 1999/2000 a UP conseguiu finalmente criar a primeira licenciatura só em arqueologia, de 4 anos (já tinha criado o primeiro mestrado de Arqueologia em 1989/90). Não tendo as universidades meios nem verbas para deslocar alunos ao campo da forma continuada que uma escavação exige, nunca pôde haver oficialmente um currículo completo (uma formação prática oficialmente integrada) de arqueologia, continuando professores e alunos a fazer ou participar em escavações conseguidas como sempre à custa de outros meios. Quer dizer, nas universidades (e politécnicos), onde se formam os profissionais (ou seja, onde se atribuem graus), nunca houve os meios para integralmente os formar, para integrar uma cadeira de escavações, por exemplo, formalmente, no curriculo dos cursos. Comparando toscamente, é o mesmo que uma faculdade de medicina não disponibilizar aos seus alunos um hospital com doentes em que exercer a aprendizagem da prática clínica.
  • se o arqueólogo é antes de mais um investigador, neste sentido a carta de alforria é o doutoramento. Quer dizer, só um indivíduo habilitado com o grau de doutor poderia dirigir trabalhos que envolvessem investigação (pelo menos a não pontual, plurianual), em bom rigor. Claro que há muitas pessoas sem esse grau (ou mesmo sem o grau de mestre) que podem ter muito mais capacidade, porque um grau não concede ou garante, só por si, qualidades práticas que aliás em arqueologia são muito diversificadas.
  • pessoalmente discordo da direcção unipessoal de escavações. Penso que uma escavação deveria ser sempre dirigida por uma equipa (como numa operação cirúrgica) embora pudesse naturalmente ter uma espécie de cirurgião-chefe como último responsável.
  • ao lado da arqueologia que visa a investigação, e que seria a sua vocação teoricamente mais “pura”, desenvolveu-se, tal como noutros países e disciplinas, toda uma arqueologia prática, empresarial ou não, que não precisa de estar em contradição com a investigação, mas devia funcionar em rede de parcerias com pessoas/equipas/instituições fazendo ou promovendo projectos de investigação, que é o que a arqueologia basicamente é. Toda esta actividade implica negociação com o conjunto da sociedade, como e óbvio.
  • tendo o sstema de Bolonha vindo introduzir alterações profundas, relacionadas com a sociedade acelerada em que nos encontramos, de produção rápida de diplomados que serve de écrã a toda uma profunda mercantilização dos saberes/poderes/práticas produtivas, no quadro de uma população ainda pouco motivada para o que seria uma arqueologia de qualidade, etc., penso que deveria haver um conselho de arqueólogos realmente representativo de todos os tipos de actividades que se desenrolam nesta área (conselho esse cujos membros tivessem mandatos rotativos) que aconselhasse as entidades da tutela e que propusesse, caso a caso, o que se deveria fazer e quem, independentemente do grau, poderia ou deveria ter a responsabilidade x ou y no contexto por exemplo de um estudo de impacte, e também de uma escavação, que é ainda o acto nuclear da arqueologia.
  • naturalmente que aos organismos centrais, regionais e locais do Estado competiria orquestrar toda esta máquina, adaptando a legislação existente às novas realidades e assegurando condições mínimas de equidade e de equidistância entre os múltiplos interesses em jogo.
  • já se vê , para concluir, que há muito de utópico nisto que sugiro, mas o facto de algo ser inconcretizável por muitas razões não nos impede de pensar, indo o pensamento a arrasto de interesses exteriores ao que se considera ser correcto, ou seja, assumindo a submissão como prática e a negligência mais ou menos controlada nos excessos como política.
  • torna-se óbvio que um licenciado pelo sistema de Bolonha, mesmo com um bom curriculum, não pode ser considerado um arqueólogo profissional, e que mesmo no caso de um mestre isso teria de ser reconhecido caso a caso por um conselho idóneo, sem desmerecer ou esquecer em primeiro lugar a APA ou qualquer outra entidade igualmente idónea existente, que teriam sempre uma palavra a dizer, e tendo em conta que estamos muito longe de ter uma massa critica que justifique a criação de uma Ordem dos Arqueólogos.
  • no caso do grau de doutor, lamentavelmente muito caro de obter (teria de se insistir na criação de mais bolsas) pareceria um contra-senso não corresponder de forma imediata à capacidade de um indivíduo ter o direito de dirigir ou co-dirigir escavações.
  • em tudo isto, agora como há dez, vinte ou trinta anos, uma parceria universidades/politécnicos e outros organismos do Estado que tutelam a arqueologia, para além de empresas, autarquias locais, associações, etc, pareceria indispensável.
  • escrevo estas notas com pouco tempo, e não tendo seguido em detalhe todas as argumentações em torno do assunto, pelo que, para além destas notas poderem estar muito imperfeitas em termos formais, podem conter lapsos ou incorrecções. Devido a excesso de trabalho, raramente posso agora fazer o que sempre procurei: tentar contribuir para pensar a arqueologia, desde as suas bases mais básicas, até às suas implicações mais filosóficas, arriscando, é claro, expor a minha necessária incompetência (como aliás de qualquer indivíduo isolado - acredito que isto tem de ser um trabalho colectivo), ou ser mal entendido.
  • uma coisa é certa: a matéria sobre a qual a arqueologia se debruça está por definição em constante transformação (nomeadamente em termos destrutivos) e no terreno actuam forças que ultrapassam a nossa “razão”, e perante as quais mesmo os nossos apelos veementes não passam de murmúrios ou mesmo de silêncios inaudíveis. A arqueologia, para ser audível, nomeadamente junto dos(s) poder(es) tem ainda de fazer um grande (hercúleo) esforço. Senão pode ser facilmente ridicularizada (é fundamental um discurso não se expor à sua fácil desmontagem por quem pode saber menos, mas tem o poder de ridicularizar ou ignorar) ou até, em última análise, parecer a velha história do servo que constitui a sua subjectividade (não tem outro método para tal) identificando-se com o desejo do senhor, isto é, de quem o faz servo.

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