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sábado, 27 de junho de 2009

παρά-νοια

Se há algo que me afecta nestas viagens são as alergias. Geralmente em cada local onde passo (seja em escala, ou como destino final) tenho sempre um período de adaptação aos pólen, no qual espirro várias vezes. Por vezes surge também associada alguma tosse. Nada de grave, sendo bastante passageiro. Contudo, hoje em dia, quando se espirra ou tosse num avião, ou no aeroporto, é se de imediato alvo de um olhar reprovador. Não está muito longe do olhar que antigamente era lançado a quem usasse um chador, ou estivesse a ler algo escrito em árabe, ou simplesmente se tivesse um aspecto que aparentasse poder ser muçulmano (lembro-me de vários episódios de descriminação com sikhs). No aeroporto de Paris-Charles de Gaulle, há por toda a parte anúncios sobre a gripe H1N1. No voo de Paris-Sofia estavam dois passageiros com uma máscara e com tampões nos ouvidos. Não deixou de ser divertido ver como tiraram as máscaras para comer a salada fria, servida pela AirFrance (que era facilmente rejeitável, pois a quantidade era algo do tipo "petite cuisine").
Há algo de para-nous nesta questão da gripe, algo que está fora de, para além da compreensão e nesse sentido existe algo de delírio - uma delusão. Não se trata de algo ilusório, trata-se antes de uma extra-polação, de um tirar para fora, que com isso arrasta a pre-ocupação de muitos. Daí ao pre-conceito é um pulinho. É um sintoma característico do que me parece poder ser caracterizado como a para-modernidade.
Esta questão da gripe não está muito longe de outros movimentos do ego (do "self") que extra-polam vontades e medos. Essa para-noia avança desde o campo do desejo (somos educados a desejar) até ao campo do receio (somos a-visados dos perigos que nos rodeiam). Não é por isso de estranhar que a chamada pós-modernidade tenha assentado tanto na questão da identidade, do se deslocamento e da sua alteridade. O mundo de hoje insiste como nunca no Ego, sendo que nessa insistência nos aprecebemos da sua fragilidade.
A ex-posição (enquanto delusão) ao H1N1 é maior do que à exposição ao vírus, e isso não deixa de ser um fenomeno interessante.
Bom, o meu tempo de Internet gratuita está a terminar. Talvez volta mais tarde a este tema...

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