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quarta-feira, 3 de junho de 2009

fundamental ilusão


Muitos doutorandos ou mestrandos, ou mesmo pessoas das mais diferentes áreas que se acercam do (nosso suposto) conhecimento para qualquer fim (normalmente hoje é a produção de qualquer coisa a curto prazo - tudo se funcionalizou num horizonte claustrofóbico de objectivos imediatos, numa proletarização medonha, numa transformação do conhecimento em informação mais ou menos bem vestida por forma a parecer interessante) caem no erro fundamental, na ilusão que lhes não permitirá ver nada.
Transformaram a vida e a sua vida de "pesquisadores" numa pesca à linha, ou numa ida ao supermercado, para colocarem na cozinha os condimentos. Condimento daqui, condimento dali, há que inventar a receita que lhes permitirá safarem-se. Não fazer uma coisa sólida (não há tempo, não está pressuposto) mas uma coisa bem parecida (tal qual como a imagem pessoal). Tudo é uma "assemblage" de componentes. E então ouvem falar de umas ideias, e dizem: já aproveitei. Essa ideia serve-me para isto e para aquilo. Está aí um dado que me interessa (um condimento para a cozinha, para a receita). E no fim uma pessoa, complacente, já só pede a todos os santos do altíssimo: fazei com que este prato não seja pelo menos indigesto ou mesmo mortal. Nós hoje professores somos um pouco como aqueles provadores da bebida e da comida dos antigos soberanos - a ver se não tem veneno para poder ser ingerida pela instituição do saber, pela ordem tolerável, ou o que passa por ela. Enfim, um sistema geral equivocado.
Eu sei, as pessoas conformam-se. E viajam, e curtem. E todas procuram, se forem inteligentes, algo de interessante. Mas devem saber, como pré-aviso, que o conhecimento não é a funcionalização da informação. O saber é um evento inesperado.


1 comentário:

Gonçalo Leite Velho disse...

Não poderá a vertigem de um evento inesperado, materializar-se na enunciação das palavras: "Seja o que Deus quiser!"? Não será isso o sinal de que passamos uma certa barreira... de segurança (já não estamos numa zona segura, no costume)?
Que modo de produção era esse, que "funcionava" no passado? (Que receituário era esse?) Não teria ele formas de sujeição adjacentes, alimentos de um desejo mais ou menos perverso?
Que pode o Tempo nos dar? Um futuro perfeito?
Quando é que as coisas fizeram sentido?
Que tipo de discurso se encontra na elegia do presente-futuro, nostálgica de um qualquer passado?
Na metáfora da cozinha apresenta-se uma pergunta: quem é que prepara o lume e quem é que coze lá dentro.