I am not

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Que entendo por pensamento crítico?...

... cujo curso estou gostosamente a preparar...

Um pensamento que, necessariamente, quer deixar de o ser para poder ser acção. Acção fracturante. Acção eficaz. Então, um pensamento que toma distância, que forja pacientemente a sua própria localização, não só para distinguir nitidamente o alvo, para preparar de forma precisa a arma, mas para saber exactamente de onde atira, isto é, de onde pode criar verdadeiros agravos ao que visa alvejar. Um pensamento estratégico, e portanto um pensamento mutante. Um pensamento inventor de uma acção transformadora no mundo real.
Não uma acção global nem apressada, do tipo revolução ou ataque seja a quem for. Já se viu tudo o que isso deu de malefícios. Um pensamento que respeita profundamente a revolta diária e local dos atingidos, em toda a parte, pela imoralidade do mundo, claro. Mas um pensamento que não tem pressa, porque já se viu o que a pressa dá. O que as ideias simples são: pantufas ideológicas pintadas de símbolos, que confortam as almas simples. E por vezes acabam por patinar num lago de sangue, e no sangue confunde-se o mal e o bem: distinção que ninguém quereria fazer, e que todos os dias fazemos.
Qual o seu alvo? O que é causa daquela parte de sofrimento que seria talvez evitável na maioria dos viventes. E ao dizer isto, traça desde logo um horizonte de utopia, quer dizer, de mobilização para.
Um pensamento que não parte de uma discordância nem de uma revolta. Mas basicamente de uma ética: só se é digno de se ser (humano) se se não estiver em conformidade com o existente.
Mas também de uma certa humildade: é possível que a raiva dos que não podem pensar venha a sobrepor-se a qualquer pensamento que quereria substituir-se a eles, os oprimidos, os excluídos. Um pensamento pois um tanto complexado, por saber bem que todo o saber é poder, e que o saber que cria poder é tão difícil de alcançar.
Mas também um pensamento consciente de que é nessa partilha (de um lado as ideias, a ilusão, a utopia, o adiado - e de outro lado o que é possível, a administração, a gestão, o do mal o menos, o realismo, quer dizer,  conformismo) que se baseia a própria impotência que nos constitui, a própria restauração diária do status quo.
Sim, muitos gostaríamos de ser gladiadores poderosos que, pouco a pouco, virássemos a cabeça do touro para a areia já molhada do seu sangue, até lhe enterrarmos aí bem os terríveis cornos, até que nem a cabeça se visse. E a seguir, gloriososos, nos pudéssemos dirigir ao imperador, dizendo: César, aqueles que tu querias ver morrer aqui para teu espectáculo e entretenimento, vão agora fazer-te o mesmo que acabam de fazer ao touro, sem que possas ter qualquer modo de fuga.
Ah, o sacrifício. O sacrifício fundador. Sabemos como é utópico.
Mas que bem nos faz pensá-lo, que bem nos faz ao menos saber que o que nos sufoca, e não tem cara nem plano, pode de dentro do texto ser encarado por nós com a mais temível ironia, com o mais desprezador riso.
Quando as palavras por momentos se fazem de novo espadas, quando elas clamam vingança, não se sabe bem como, nem de quem. Esse pensamento, que é do corpo, que é do desejo, que é da posse de uma ordem que destrua esta ordem.
Um dia, um século, um milénio, alguma vez, em algum momento. Há-de ser. O dia da ira.


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