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sábado, 28 de fevereiro de 2009

blue jeans

Foto: Frank Herholdt
Site: http://www.frankherholdt.com/html/personal_detail2.php?id=160&gallery=Personal
Agradeço a este fotógrafo a autorização para reproduzir os seus trabalhos
Texto: voj porto 2009 fev.


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Uma mulher despe-se
No único ponto iluminado da noite
Tira os jeans como se estivesse sozinha
E de facto está

Eu sou apenas um olhar
Deste lado escuro da noite
Um olhar invisível para mim mesmo

A mulher despe-se. Tira imensas peças
Que espalha pelas sombras listradas
Da noite. E os pés que pousa estão nus.

De que continente vieram? Eis o que se tornou indiferente.

A mulher não é uma mulher, é A Mulher.
E onde se despe surge uma coluna de luz.
E em volta uma quantidade de eus a olhar.

A sua missão é a de sempre. E é essa repetição milenar
Que dá ao seu gesto toda a magnificência
O seu frenesim de lingerie universal: o evento.

O evento aparece sempre iluminado,
Vindo de outro continente, que pode ser
O corredor ao lado, e acontece sempre espectral.

É um corpo, isto não tem nada a ver
Com o ser humano, com sentimentos, paixões
Ou desejos. Isto é simplesmente um Milagre.

Um milagre por excelência, sem contexto,
Em toda a perversidade da sua Iluminação.
Isto é Espectáculo, algo sério, mesmo.

É a metafísica de um Corpo-Que-Se-Despe
Marcando as etapas da luz, as suas reverberações,
O impacte da suprema Revelação.

A mulher despe-se para um olhar
Que sabe não existir: que sabe ser um olhar cego,
Totalmente ofuscado pelo cinzento das pupilas.

E essa noite que vai nos olhos do observador
Essa névoa negra que percorre os meus olhos
É o que ilumina a mulher toda, dos tornozelos
Às nádegas,

É a corrente eléctrica que lhe torneia
Os Ombros, que deixa os jeans cair no chão
Como o Acontecimento por excelência.

A Mulher despe-se desde o início do mundo
Ninguém sabe para quê, nem para quem,
Nem ela própria obviamente: algo compulsivamente

A leva à exposição dos seios, à demonstração
De como é depois de despida, um espectáculo
Que jamais acaba: há sempre um último ornamento
Que resta.

E a mulher é esse Resto, essa luz que sai do resto
E em volta dele faz girar os planetas da noite triste
Dos homens.

A mulher é o único ser que conserva a soberania
Depois de se descalçar;
Exibindo, espalhando em sua volta, todos os odores íntimos,
Faz rodar numa tontura os candeeiros da noite.





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