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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Alguns pensamentos d' hoje... em resposta a uma colega minha...

Informação

A minha forma de resistir à avassaladora carga de “informação” (que perversão em que transformaram o conhecimento...) é esteticizar tudo, isto é, fruir o mundo como imagem em que se tornou, sem legenda. Como nos museus. Já não leio legendas. Circulo... Senão a pessoa dobra-se toda e não vê a coisa em si... Num trabalho fatigante ao máximo, o do lazer. Se é que a tal coisa existe, pois!


Curso de Pensamento Crítico Contemporâneo, da FLUP (Abril a Junho próximos)

O programa é mesmo abordar oito figuras, uma por cada lição, como forma de reacção contra o cinzentismo escolar, que por ter 61 anos já não tenho pachorra para aturar... Poder-se-ia dizer que assim, em 3 horas só para cada figura que levaria uma vida a estdar, se torna mais fácil, mas todos sabemos que não... De modo que tenho de encontrar não só um fio para cada autor como um fio para os tentar ligar uns aos outros. E nisso fico (sou uma pessoa do discurso oral, apesar de ter escrito que me desunhei, como todos nós) pela seguinte estratégia, com que me tenho dado bem, barroco e improvisador que sou: vou pensando e logo se vê o que sai!
Tenho pena de não ter gravado algumas das minhas intervenções passadas... Acho que seria bem melhor por vezes vermos um bom video do que lermos um texto, que cose tudo em linhas num papel... Mas enfim. Perversão da escrita, que nos cose a algo linear (texto/têxtil) que nada tem a ver com o modo como pensamos... Julgo... A mim as ideias vêm por novelos, configurações, claro que textualizadas pelo longo hábito de escrever e de "falar textos"...
Eu faço tudo por intuição, amadorismo, auto-didactismo: poesia, arqueologia, tudo está para mim ligado e vou por esta floresta à procura de caminhos, levado pelo prazer do que me “pica”, sem querer consciencializar demais. Porque isso mata logo a fulguração: fotografa-a, transforma a vida em arquivo. Um pensamento perto da vida, o oral, talvez, eis a minha nostalgia. Por isso fui para a Pré-história, doce ilusão, a querer encontrar os gestos elementares, quando depois percebi que não há origens nenhumas e a maior perversão da nossa filosofia de “civilizados” foi ter inventado o primitivo, a origem, como parede de balanço para saltarmos para a compreensão de nós próprios. Só que a parede não está lá e o balanço vai para o abismo... Isto já começa a ter a ver com a psicanálise, a história, a antropologia, como sabe...

Há um ilustre amigo meu (Tim Ingold, Univ. de Aberdeen), cujo livro principal é "The Perception of the Environment", mas tem outro também que já se aproxima da "arte abstracta" e que se intitula “Linhas” (Lines). Está nos antípodas da psicanálise, mesmo da psicanálise como inspiração incontornável. De base materialista (o que para mim só lhe fica bem), tem também influências da chamada psicologia ecológica e da fenomenologia... Mas é muito ecléctico, muito próprio. Tem algo de genial, mas acho que há um ponto em que toda a sua démarche obsessiva pelo “back to the basics” o diminui um pouco, na sua ambição de diluir dicotomias de que o nosso pensamento está feito. É que à custa de diluir, fica-se com muito pouco na mão... Só umas linhas abstractas... Onde está ali o pulsar do desejo? Parece recalcado... É isso que quereria evitar, mas sem cair no pólo oposto do delírio “self-indulgent”...

Lacan

Eu encontrei em Zizek a porta (que só entreabri) para ele. Mas Zizek é também um indivíduo muito especial... Querendo fazer a síntese de Hegel com Lacan e com Marx, etc, e depois ligar a uma leitura da cultura de massas, no que de facto é original, cai naquele perigo que ele próprio enuncia, que é o de decifrar tudo tipo prestidigitador (o que julgo que Lacan odiava). Ora, estou também a tentar digeri-lo.
A questão é: todos estes grandes vultos são incontornáveis. São como grandes intérpretes de música. Mas o facto de os admirar não obriga a que os ame ou a que me cole a eles...ora, quando se é ignorante como eu, há uma vontade tremenda de encontrar um fio à meada, e normalmente isso é muito redutor... Ou seja, quatro décadas de estudo não chega para nada, nem para ser arqueólogo, sobretudo nesta periferia em que jazemos... Eu precisava de viver entre Paris e Londres, e não ir lá de vez em quando apenas. Estar ali, seguir aqueles cursos, beber aquele ar. Frustração!

Então, como não sei bem e só tenho umas luzes, obrigo-me a explicar, para me forçar a aprender. Quem disse que só ensinamos (ou nos apetece explicar) o que não sabemos?!... Já não me lembro, mas é isso – só o que não conhecemos bem, só o que ainda não está tecido em explicação transparente, e é ainda novelo um pouco opaco, nos atrai. Pelo menos a mim. Por isso o ensino expositivo é uma grande tristeza, uma farsa, acho.


Algumas questões muito gerais


Muito sintecticamente: parece-me que tanto Freud como Lacan são grandes inspirações, algo que está situado historicamente e cujo eco portentoso nos chega, como o de todo o estruturalismo, e outros ismos. Sem se passar por Freud, fica-se na ingenuidade da transparência do sujeito a si mesmo... Mas a obsessão da ciência que então o dominava, e que depois Lacan e tantos quiseram ir buscar à linguística, já está longe das nossas preocupações hoje, creio. Ou seja, percebemos que a ciência é um dispositivo, ou um enormíssimo conjunto de dispositivos, e não lhe damos transcendência alguma, quer dizer, estamos desencantados como crianças, e ainda bem, porque daqui podemos crescer. A questão da linguagem e da sua cesura relativamente ao animal, como de qualquer outra cesura ou “limiar”, é relativa, porque há tantas formas de comunicação...
Quer dizer, o debate entre monistas, continuistas (natureza-cultura como dicotomia para diluir, fim da excepção humana, etc) e dualistas (o homem é um ser natural, mas apesar de tudo é o que pensa todos os outros seres e até tem a capacidade destrutiva – científica – de nos levar à catástrofe, o que é uma forma de diferença, e faz dele uma espécie de pequeno deus) continua...e creio que a própria prossecução deste debate é pura ilusão, é beber ideologia a potes. Portanto também não acredito muito na questão do simbólico, é um conjunto de conceitos e de chaves fascinantes mas que tendem a tornar-se um tanto hirtas. Veja-se a atractiva explicação dos filmes por Zizek: reduz a matéria fílmica na sua especificidade à narrativa, querendo depois a partir daí encaixá-la numa leitura lacaniana. É muito importante ler essa interpretação, mas o filme não é uma história, como por certo o romance, ou seja, a narrativa tem um algo mais que sai muito para fora dela, é matéria especificamente fílmica, ou literária, ou teatral, e portanto a narrativa é sempre redutora, como quando nos fazem a sinopse de um filme ou livro, ou quando obrigam um músico a falar da sua música. Ele muitas vezes concorda com as mais diferentes interpretações, são as visões do receptor, e ele como receptor da sua própria obra também teria uma história, ou muitas , para contar, mas o importante é a obra musical e sobretudo as suas interpretações, as suas actualizações. Por isso me interessam tanto os conceitos de performance e de improvisação, porque nisso acho que o ataque ao nosso logocentrismo e à teleologia histórica é fundamental... pelo que me fascina J. Derrida, por exemplo, outro influenciado pela psicanálise...


Em suma, ando à deriva, mas espero não morrer afogado ou reencontrar costa!


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