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domingo, 13 de setembro de 2009

saber para a felicidade

Desde que me lembro de tentar pensar que não me revejo nas divisões entre disciplinas que o mundo académico-científico instalou e fez proliferar. Nenhum campo me interessava por si, mas como experiência para tentar perceber certas coisas sobre as quais me interrogava, e não tinha ninguém que me respondesse. Fui para história porque tinha de ir para algum curso, mas aí salvou-me o Prof. Jorge de Macedo com a sua cultura muito ampla de carácter filosófico e literário, e o Prof. Orlando Ribeiro, um homem do mundo como poucos Portugal teve. Nem foi mesmo o detalhe ou o pitoresco das coisas que me interessou saber (a erudição), mas apenas me interessava cada experiência na medida em que me abria uma janela de compreensão de um "grande dúvida"... introdução à filosofia, história do cristianismo, história da arte, por exemplo,foram assuntos por que me apaixonei no decorrer do curso, porque correspondiam a questões que se esboçavam, configurações do que me interessava perceber, e que se foi sempre reformulando até agora, claro. Por isso nunca tive aquela postura prática de estudar isto para aquela cadeira, ou de ler isto para aquele trabalho... sim, mas apenas como uma necessidade evidente, tal como comprava um bilhete para viajar de autocarro. Eram instrumentos de que logo me esquecia, muito diferentes das frases e ideias e emoções que de facto me iam consciente e inconscientemente estruturando.
Nunca concebi a história ou a antropologia isoladas, do tipo de produzir uma história disto ou daquilo, ou uma antropologia disto ou daquilo. Isso não significa nada, não acrescenta nada de fundamental, não é fracturante como se diz agora. O academismo é sufocante e sempre foi, para mim. A evitar.Por isso me choca ver a divisão em territórios e observar como das vigias colocadas nas fronteiras desses territórios certas pessoas observam os movimentos daqueles que, como eu, talvez ingenuamente, se sentem à-vontade em muitos campos, não por perceberem muito de cada um deles, mas por não verem os muros e as minas colocadas para sua defesa. Esses guardiões são-me indiferentes. São polícias, e os polícias têm sempre aquela ambiguidade: são criados por nós para nos protegerem dos malfeitores, mas nunca sabemos quando poderão agir por qualquer motivo, consciente ou inconsciente, pelo simples prazer de se afirmarem, de exercerem um poder que pode deslizar para o extravagante ou arbitrário se não nos acautelarmos...
Há muito também que deixei de acreditar no ensino formal tal como sou obrigado a praticá-lo, para muitas pessoas, muitas vezes ainda muito jovens ou pouco motivadas, e circunscritas ao espaço/tempo fracturado das aulas, das salas de aula. O verdadeiro ensino seria algo de vivencial e prático, com depois uma parte para a elaboração conjunta de trabalhos, e onde portanto a ratio professor/aluno teria de ser muito baixa. A transmissão de conhecimentos nunca está desgarrada da experiência de quem os transmite e não deveria haver aquela dicotomia, que o aluno em geral espera, e não aprecia quando é subvertida pelo docente, entre a matéria que quer que o professor debite, e as divagações onde o professor é suposto destapar um pouco do segredo de como chegou a saber o que sabe. Ou seja, a relação professor/aluno estandardizou-se na escola de massas e eu hoje apreciaria um tipo de trabalho em equipa com gente já de um certo arcaboiço e espaço pessoal de manobra para interagirem comigo. Já não posso ver um conjunto de manequins sentados em carteiras à minha frente à espera que eu lhes explique isto e aquilo, quando o mais interessante que eu tenho a transmitir é a minha experiência, não no seu aspecto privado, é claro, mas como "estudante" mais velho.
Enfim, a possibilidade de improvisar sem divagar por banalidades, eis a liberdade de um bom professor, desde que tenha do outro lado bons alunos, e esteja a falar de temas dos quais tem experiência pessoal, por vezes toda uma vida de leituras e de procuras acumulada. Os tais temas que implicam passar por fronteiras minadas, rompendo muros de disciplinas, e pousar em fios eléctricos como se fosse um pássaro inocente, indiferente aos perigos que por todo o lado entravam a nossa liberdade de nos constituirmos como sujeitos activos e, tanto quanto possível, felizes. Este espaço de aventura em que o saber e a vida são uma coisa só, e se vão constituindo sempre com outros, na maior liberdade possível das interacções. Só se é feliz quando se tem um lugar na sociedade activa, um lugar onde nos constituímos com os outros e para os outros, mas não em tipo de obras de caridade, sim na medida exacta em que perseguimos insistentemente o objecto do nosso desejo, um objecto sempre movente e irrequieto. Transmitir e aprender é a mesma coisa, porque só quando comunicamos somos, ou temos a ilusão de ser e de saber alguma coisa que interessa aos outros, esses outros em cuja atenção e curiosidade nos projectamos, compensando temporariamente esta perda, este vazio que cada um de nós constitutivamente é.
Talvez, afinal, mais do que saber (que raio é isso?...) me interesse a sabedoria, essa bagagem para o bem-estar, comigo e com os outros, jamais alcançado, eu sei...
É ambicioso, mas o que não é ambicioso não vale a pena. É mera gestão corrente.

2 comentários:

Egípcia disse...

Na minha opinião, não há um ensino que agrade a toda a gente. Devemos movimentarmo-nos entre os saberes, entre a(s) forma(s) de ensinar.
Por exemplo, um professor de História nada tem a ver com um de Arqueologia... sente-se maneiras diferentes de ser, estar, pensar e até mesmo agir... E essas experiências que nos podem contar são fabulosas.
No entanto, não desprezo, de maneira alguma o ensino, como exposição de matérias. Aliás, é uma trasmissão de conhecimentos que me agrada bastante. Aprendemos dos dois lados.
Sei que, muitos professores gostariam que os cursos fossem práticos, o saber-fazer, nomeadamente em História. Mas o facto é que sem uma base teórica sólida, os alunos são incapazes de construír conhecimento científico, porque a complexidade torna-se incompreensível do lado discente. Vejo os dois lados como cruciais.
De qualquer maneira, e no respeitante a arqueologia, se calhar haveria uma necessidade mais prática, mais activa... mas pronto.
A teoria é fundamental, no meu ponto de vista. Estudando, em consciência para uma ou outra cadeira, lendo o que há de mais 'recomendável' (susceptível), confrontando opiniões e saberes, construíndo a nossa própria ideologia sobre, mas, todo esse trabalho em função de, dá-nos uma visão muito ampla, totalmente interdisciplinar.

Vitor Oliveira Jorge disse...

Ainda bem que está satisfeita, e espero que este segundo ano o confirme. Também todos os anos tenho alguma esperança no recomeço. E há pessoas que valem a pena. A nossa ratio em Letras professsor/aluno não é justa. Também diminuiram em arqueologia 5 vagas do 1º ciclo no ano passado (tínhamos 40, passámos a 35, que já preenchemos, como aliás aconteceu em toda a UP). Por fim, são caros os cursos de mestrado e sobretudo de doutoramento, pelo que, quando se chega ao fim desta mini-licenciatura (na minha, com tese, levei 7 anos, agora são 3), enfim, fica-se com algo, sobretudo se o aluno se empenha, mas... é preciso muita força de vontade para prosseguir, porque pessoas com uma licenciatura destas e no quadro actual do emprego é óbvio que não têm grandes hipóteses. Procurar ter as melhores classificações possível e ao mesmo tempo ir se possível publicando alguma coisa, é agora, como no meu tempo, uma pequena alavanca para um futuro êxito...
É evidente que temos bons profs na FLUP e também bons alunos. às vezes as minhas manifestações resultam, de uma já longa experiência, que traz alguma acidez...estou cansado!