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domingo, 20 de setembro de 2009

O que é uma mulher?

Domingo de manhã com documentário: "Il Corpo delle Donne" (duração 25 minutos). Aborda o tema da cultura soft-porn que hoje inunda a televisão italiana, bem como o paradigma dominante em Itália sobre o que deve ser uma mulher (modelo nada inocente ideologicamente).




É dito algures no documentário a propósito da questão das rugas: "Porquê esconder a face, quando a própria origem da palavra é de que a faço, faço-a eu". Uma construção tal como a de uma máscara acrescento eu.
Há algumas semanas postei o que pensei pudesse ser o primeiro de uma série de posts sobre o brilhante "Imagine There is No Women" da Joan Copjec. Queria ter já há muito tempo retomado essa série mas a vida não deixou.
Eu gosto de mulheres. Esta afirmação por si afirma a positividade de um conceito na sua aceitação. Se eu gosto de mulheres eu aceito o conceito de mulher. Elevo-o à dimensão do desejo (eu gosto). E ainda assim, todos sabemos da profissão de fé do homem contemporâneo: eu gosto de mulheres, mas isso não significa que as tenha de a colocar num nível de inferioridade admitindo-as apenas a questão do corpo (lembro-me de mil e um posts do Vítor no seu estilo de postar sucessivamente imagens de mulheres nuas - muitas das quais parecem ser a base dos seus poemas - e depois a sua tentativa de "desculpar-se" fazendo a sua própria profissão de fé em relação ao seu "feminismo"). No meio disto surge uma servidão (do desejo); um homem escravo, objecto da mulher fatal, sujeito do sujeito. Uma figura que parece algo patética no modo como se torna servo da fantasia que constrói. Tão mais patética quanto demonstra o seu espectáculo de impotência. Veja-se Berlusconi, hoje o palhaço da Europa, no seu espectáculo de orgias, vilas e prostitutas. Exemplo o seu amigo checo, apanhado pelos paparazzi, na exposição do seu pénis flácido junto a uma mulher com corpo "modelo". Não serão eles hoje a transfiguração perfeita desse mito do pai primordial freudiano, patético, aparentemente detentor de todo o gozo?
Um amigo meu dizia-me que não conseguia ter por companheira uma mulher que não tivesse um carácter forte. É certo que achei interessante o que me dizia. Um carácter forte, uma personalidade, alguém com quem se possa estar (há aqui demasiados sintomas para que os possa explorar num simples post). Mas enquanto ele me dizia isso não deixei de prestar atenção à apresentação do sintoma: uma mulher. Porque tinha ele de dizer "uma mulher"? Porque não disse simplesmente que para partilhar necessitava de alguém com carácter? E porquê carácter? Que carácter? O seu carácter de mulher? Seria que o que ele me queria dizer era que detrás de um grande homem à sempre uma grande mulher? (esta ideia só me faz lembrar algo que pudesse ser representado por um cartoon, representando a um homem fortemente obeso, com uma mulher igualmente obesa por detrás). Ele não diria atrás mas ao lado; uma mulher de carácter ao seu lado (qual lado direito, ou esquerdo? porque os lados também têm ordem). Uma mulher em pé de igualdade. Mas qual o pé de igualdade que se pode estabelecer quando ele estabelece desde logo essa diferença de que ele é um homem e ela é mulher? Diferentes mas iguais? Iguais em quê? Na sua diferença de homem e mulher? Seria essa a diferença que ele procurava e por isso me afirmava que queria uma mulher com o atributo carácter? Ou seja no fundo procurava o mesmo que tantos outros homens (não todos é certo): uma mulher.
O que mais acho curioso nesse meu amigo é a sua total ignorância em relação à imprevisibilidade das suas escolhas e no modo como se reflectem sobre ele mesmo. Não vou falar ainda da questão da redução de alguém a um atributo (uma categoria) que parece ser no fundo o que ele procurava. O que me passou a interessar sobre o caso dele foi o modo como parecia ignorar completamente que essa escolha pelo carácter se iria reflectir sobre ele mesmo. O seu carácter mudou devido à mulher que escolheu. Mais uma vez se assiste ao espectáculo da impotência masculina.
Esse amigo dizia-me que gostava de mulheres com um carácter assim ou assado. Pergunto-me em que é que nessa idealização do carácter ele se distanciava dos homens que escolhem mulheres com seios grandes. Na sociedade actual do individualismo, do próprio ("self"), o carácter é visto como um atributo essencial. Na sua base existe a ideia de que existe de facto um "eu", um centro da personalidade, um núcleo escondido que não aparece à superfície. O meu amigo acredita nisto. Ele tende a escolher mulheres dominantes. Não dirá isto bastante sobre ele? Não será isto uma exposição do seu sintoma? Não percebe ele que o desejo de algo "assim" reflecte uma objectivação do outro? (num nível de sobreposição, visto que já no primeiro ponto ele afirma que quer "uma mulher") Não percebe ele o individualismo subjacente à sua escolha? Não compreende ele que na sua mensagem também está codificada a mulher-objecto? Não percebe ele o sintoma?
A mulher de hoje, moderna, segura, ambiciosa, inteligente, com carácter, literada, activa. Não apenas um corpo (apesar de ser identificada pela existência de um género com base na presença de um atributo: vagina). Ex-igências. Tantas quantas as que existem nesse homem que fala: "eu quero", "eu gosto". Pobre palerma, na sua inocência que presume autoridade. Um sintoma de que gozo e padeço.

4 comentários:

Vitor Oliveira Jorge disse...

Transcrevo: "lembro-me de mil e um posts do Vítor no seu estilo de postar sucessivamente imagens de mulheres nuas - muitas das quais parecem ser a base dos seus poemas - e depois a sua tentativa de "desculpar-se" fazendo a sua própria profissão de fé em relação ao seu "feminismo".
Lá está o Gonçalo a meter-se comigo - um dos seus divertimentos favoritos. Será sintoma de quê?... Não sou analista.

Gonçalo, qualquer pessoa sabe que o corpo desnudado é, desde a mais remota antiguidade, motivo de "inspiração" de todos os artistas! E talvez seja a maior "aparição" que pode haver. Aqui entramos num assunto interessantíssimo, o da aparição, o da anunciação do ainda não ouvido/visto, que é todo o tema da modernidade... onde evidentemente a nudez tem muitos registos, mas todos eles centrais, como se vê na fotografia, no cinema, etc. (ver "La Technique et le Temps" do Stiegler, vol. 3, por exemplo).
Mas não há nada de mais aterradoramente anti-erótico do que uma praia de nudistas, em que se limpou septicamente a carga fantástica que pode ter o desnudamento e a nudez, temas eternos!
O que procuro numa imagem, quando escrevo, é algo que me despolete um distanciamento do mundo comum da linguagem/imagética diária, que crie uma distância em relação a esta ilusão em que vivemos mergulhados (sobretudo hoje, totalmente envolvidos, trabalhados, feitos, pelas tecnologias televisuais), se quiser um desnudamento do visível e do óbvio. E quando a poesia se consegue, esse é um acto erótico, é a própria escrita que desnuda e possui (sendo desnudada e possuída, claro), o que permite ver que o mundo se pode erotizar por muitas vias e que o corpo é apenas uma delas, pois as suas pulsões podem emergir no comportamento, na linguagem (e neste caso na "criação" poética), descentramento a questão de se observar voyeuristicamente seja o que for.

Mas, e já que nascemos nesta época, lidos todos os livros que precisamos de ler para perceber o nosso tempo e como se chegou aqui, viva a felicidade de cada um se poder realizar intimamente, na busca do preenchimento dessa perda, desse abismo de ternura e sensualidade que perdemos quando nascemos, e que os nossos sonhos nos trazem de novo por vezes de forma tão inquietante.Ah, se a erótica dos sonhos pudesse ser vivida em vigília... que loucura, que fundo prazer!
Mas o ser humano constitui-se nesse abismo da impossível recuperação da perda - Freud, Lacan e outros fizeram-nos perceber isto, genialmente. E libertaram-nos da tirania da felicidade.

Vitor Oliveira Jorge disse...

quando escrevi descentramento
queria escrever descentrando.

Gonçalo Leite Velho disse...

Se o blog se chama trans-ferir e remete para Lacan existe algo a que se reporta. O que é a transferência? Porquê trans-ferência? É um convite a uma ex-posição? Uma ex-posição do Vítor? (ver a coluna do lado e o seu conteúdo)
Não será que o facto de eu me meter consigo resulta ele próprio de uma transferência? O que é um analista? Aquele que é suposto saber?
O corpo desnudado, ou uma certa forma de corpo desnudado? Sempre a mesma forma de corpo desnudado? Aparição? De quê? Fátima? É Fátima erótica? Escreverá o Vítor sobre a "Êxtase de Santa Teresa" de Bernini? Nessa estátua Santa Teresa não está nua e no entanto há algo de erótico ou não?)
Pode o erotismo existir para lá da linguagem? Poderá ele transcender?
Que felicidade é essa que resulta da satisfação do íntimo? Íntimo ou éxtimo? Será a felicidade íntima, pessoal e intransmissível? Será ela imanente? Se a felicidade é uma tirania porque a exalta("viva a felicidade de cada um se poder realizar intimamente")?
Porque é que respondo ao Vítor com o Vítor, sendo que o post era sobre algo que não era o Vítor, apenas o menciona num pequeno exemplo de passagem? Porquê centrar a resposta nos seus poemas, na sua obra?
Qual a distância entre resposta e riposta?

Vitor Oliveira Jorge disse...

Perante tal rajada de metralhadora, declaro-me morto. A sorrir.