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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Jean-Luc Nancy: O "Há" da Relação Sexual


Livrinho precioso!
A propósito da célebre frase de Lacan, "Não há relação sexual".
Tradução de Pedro Eiras (que reconhece com justeza ser Jean-Luc Nancy propriamente intraduzível).
Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2008
ISBN: 978-989-552-315-3
Transcrevo:
"(…) O que é preciso dizer, portanto, é que não há a diferença dos sexos, mas que há, primeiro, e sempre, o sexo diferenciando‐se/diferindo‐se. E o sexo diferenciando‐se/diferindo‐se deve ser pensado no sentido em que ele não é nada senão relação, ou seja, não no sentido em que estaria numa relação com isto ou aquilo (por exemplo, com outro sexo), mas no sentido em que ele mesmo é a relação, o mesmo é dizer, o «relacionar‐se», o mesmo é dizer também, o entr’abrir do próprio entre, do «entre‐nós», ou da intimidade: o sexo diferenciando-se/diferindo‐se é o espaçamento da intimidade." Pag.36


Fonte da imagem e texto: http://www.quasi.com.pt/product_info.php?cPath=550&products_id=51353&osCsid=8eddcee80ab0bffa68bee2c541287fa1


Não resisto a mais uma citação:
"(...) curtir [baiser] não tem lugar como tal, mas sempre de outro modo (o seu pretenso "como tal " é a pornografia: essa é a figura - a única - do impossível enquanto impasse)."
(........) "O gozo [jouissance] não é nada que se possa atingir: é o que se atinge e se consome ao atingir-se, queimando o seu próprio sentido, quer dizer, iluminando-o ao calciná-lo." (pág. 58)
No meu modesto entender, há toda uma reflexão a fazer sobre a questão da pornografia, e, de uma maneira geral, creio que sobre o problema da relação e do gozo se pode pensar coisas muito interessantes na linha de Lacan, de Nancy, e de outros... o próprio Nancy tem, com Lacoue-Labarthe, uma obra que nunca li, referida neste livro (ver abaixo), e que é uma reflexão sobre a psicanálise lacaniana, "Le Titre de la Lettre" (1972), que agora vou ter de ler mal possa.


O LIVRO ACIMA REFERIDO, TÃO FINO QUE PASSA DESPERCEBIDO NAS ESTANTES, É A LER, DE IMEDIATO !!!!!!!!! Tem só 60 páginas, mas exige concentração...como é evidente.
O que é importante, aqui, é que Lacan, numa simples frase, convoca, não diria todos, mas quase todos os grandes temas filosóficos, como Jean-Luc Nancy explana... ou seja, ao contrário de muitos "infelizes" (desculpem a agressividade, mas é intencional) que ainda não perceberam, sem a psicanálise, entre muitas outras coisas, não se está no nosso tempo, está-se alhures!

Quanto ao outro, que entretanto já mandei vir, aqui vão os dados (este blogue é um autêntico serviço público, deus meu):



Le Titre de la Lettre
de Philippe Lacoue-Labarthe et Jean-Luc Nancy
Paris, Galilée, 1975

"Mieux que quiconque sans doute, Lacan a su que le psychanalyste, en "ne s'autorisant que de lui-même", risquait de mimer la certitude de la subjectivité philosophique, et d'y enclore, sinon d'y forclore, avec la philosophie, la psychanalyse elle-même. Et plus que tous, pourtant, il aura su ou il aura voulu s'autoriser lui-même à parler depuis le point où ça ne parle pas.
"

Fonte destes dados:
http://www.amazon.fr/titre-lettre-Philippe-Lacoue-Labarthe/dp/2718600020/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1233507688&sr=1-1

5 comentários:

Carmen Cynira disse...

Muito bom. Motiva a leitura
O há do não há propicia curiosidade

Vitor Oliveira Jorge disse...

Como tudo o que Lacan disse, é à primeira vista algo de incompreensível. Há que estudá-lo, porque a sua influência cresce, não diminui. Ou seja, Lacan (como aliás Freud) não foi só um psicanalista, foi um filósofo de grande monta.
Não se trata de estar ou não estar de acordo com ele, como seria ridículo lermos Kant, ou Platão, ou Hegel, ou Heidegger, ou Marx, para tomar partido por um ou por outro... Trata-se é claro de estudar pacientemente (e então pessoas como eu, que são autodidactas nestas matérias...), de cruzar informações, e de ir formando uma carografia sempre precária, trabalho que nos ocupa toda a vida...

Vitor Oliveira Jorge disse...

Queria dizer cartografia, claro.

Gonçalo Leite Velho disse...

A propósito de segundo livro ("Le titre de la lettre") Lacan escreveu no seu seminário XX ("Encore"):
"Je peux dire d'une certaine façon que, s'il s'agite de lire, je n'ai jamais été si bien lu - avec tellement d'amour." (pág. 84)

Talvez fosse interessante não confundir dogmatismo com a necessidade de alguém se comprometer.
Para pensar é preciso que nos comprometamos com algo, compreendendo o risco dessas posições.
Não se trata de uma aplicação de um autor num sentido estrito, num afã clubístico, ou num sentido messiânico (atribuindo-lhe o titulo de Mestre-Messias). Trata-se talvez daquilo que Zizek denomina como "repetição": repetir Lenin, repetir Freud, repetir Schelling, repetir Hegel... e de obviamente aceder a um comprometimento com algo, diria mesmo: ousar comprometer-se.
Poderá-se construir algum tipo de pensamento num pleno descomprometimento? É óbvia a questão que mesmo esse descomprometimento era um comprometimento com a repetição de um padrão de fuga.
Que futuro para uma estratégia de descomprometimento diletante? O que significa o sintoma recorrente de evitar o dogma?

Vitor Oliveira Jorge disse...

Claro que desde há muito sabemos que não há conhecimento neutro! Isto é como o jogo do gato e do rato, é política... cada vez que aparece um pensamento a anunciar-se fracturante, logo é sorvido para dentro do que supostamente tenta fracturar... o que é certo é que estamos a ser contemporâneos de uma débacle tremenda e isto se não é o caos, parece. De modo que todo o pensamento crítico corre sempre o risco de engalanar as molduras de um sistema mndial cujo diagnóstico está traçado.Mas não há médico de serviço para lhe provocar eutanásia, nem os seus beneficiários querem morrer, antes promovem e são mecenas de todo o tipo de coisas... até de esquerda, desde que dêm lucro. Enfim, todas as épocas disseram que chegaram ao fim do mundo ou da história e houve sempre mais mundo e mais história. Estamos escaldados. Mas quando a classe média começar toda a revoltar-se mesmo, por ser insuportável a sua proletarização, que é já o que nos está a contecer em todo o lado, quero ver como é...quem tem mão nisto (= planeta todo, incluindo este rectângulozito).Entretanto, há milhões a morrer. E ainda os vemos na televisão como espectáculo...