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sábado, 17 de janeiro de 2009

fronteira

Há dias, no momento da partida, num dos aeroportos de Londres, cometi o erro (há sempre erros, muitos deles crassos, quando o cansaço aumenta, é claro) de deixar uma pequena garrafa de água meio bebida na minha mochila, portanto na bagagem de mão. Ao passar no controlo ficou de parte para revisão. Justo. Essa revisão foi exaustiva, com esvaziamento de cada compartimento da dita mochila (tem bastantes), observação detalhada/milimétrica de cada coisa, e passagem de aparelho pelas partes esvaziadas para detectar se havia alguma irregularidade. Óptimo. Ainda bem que há tais cuidados. O meu único stress resultava de a minha mulher não saber onde eu estava naquela altura e por que razão estaria a demorar tanto tempo, sendo que eu não podia avisá-la por telemóvel pois era um dos objectos em observação. Um molosso conduzia a operação. Só tive uma reacção no sentido de pedir cuidado quando concretamente me tocou num ponto fraco, a minha preciosa mini-caixinha de medicamentos de primeira utilidade, ainda por cima um recuerdo de Veneza. Temi que a destruísse ao abri-la do lado errado. Acabaram por cair dois comprimidos, que se recuperam, foi o menos. Mas o molosso em causa (era grande) irritou-se mesmo, e disse-me: não toque com as suas mãos em nada, nem as ponha aqui, senão ainda não viaja hoje. Bem, era nítido que o melhor era obedecer-lhe, e que foi o que evidentemente fiz. Não é o que fazemos toda a vida, quando percebemos que há uma fronteira, razoável ou arbitrária? Ninguém quer ser esmagado por um mal-entendido, por dar ao outro razões fáceis para exercer coacção, em nome da lei e da ordem. Quando finalmente me mandou pôr tudo dentro da mochila de novo (onde um dos biscoitos ficou reduzido quase a pó, foi o menos), seguiu-o até à entrada do circuito, único sítio onde, previamente a refazer todo o percurso (tirar cinto, etc.) me foi permitido incorporar o resto da minha água, antes de deitar fora o recipiente. Óptimo. Nunca mais vi o colosso em causa. Deve ter mudado de turno. Ah, também não apreciei que ele afastasse com a sola do sapato (supostamente não limpa) um dos papéis que cairam ao chão, e que eu recuperei, foi o menos.
Mas é isto o poder. Sempre as suas razoáveis razões todas e mais qualquer coisa, um condimento de violência, que normalmente apenas se anuncia pelos seus signos e insígnias.
Tem toda a razão, o erro foi meu, aquela inspecção é para nossa segurança de passageiros, até ficamos mais tranquilos e seguros; só a ameaça que me fez teria sido evitável. Ou talvez não, deve ser chato estar ali a fazer aquilo, naturalmente por um salário fraco e ainda por cima a ter de se denunciar assim como elemento tão primário de um aparelho de controlo, a dar a ver a cara irritada do poder, provavelmente com frequência, quer dizer, a atirar as insígnias para a frente, como um antigo mestre-escola. Poor man. Mas foi o menos. Ele não tinha de ter presente, sempre, que o verdadeiro poder nunca perde as estribeiras, senão desnuda-se. Ter isso presente pode talvez impedir uma pessoa de seguir aquela carreira, de ter aquele emprego. A delicadeza não tem ali a melhor morada. Falo em geral, é claro. Tenho o maior respeito por quem trabalha e cumpre escrupulosamente as funções para que foi designado.



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