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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

martelo de novo


Imagem: Alexander Bergström
Site (reprod. aut.): http://www.alexanderbergstrom/com/
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A mulher é um quadro descolado

Da parede, onde há milénios
A tinham crucificado com quatro pregos
Nos vértices.
Agora, libertada, é vê-la
A arrastar-se pelos soutiens
Prometendo doces para encontrar
A Saída. Não lhe foi dado um Programa,
Não está bem nesta arquitectura,
Arrasta-se de corredor em corredor
À procura do Projecto, do Ensaio,
Do Rolo onde estava desenhado o Mapa.

Vai toda engalanada, como um rei nu,
Como uma grande galinha com ligas,
Com o grande poder de ter acabado
De perceber como se pode sair da parede
E arrastar o pó dos dias pelos rodapés,
Sujando as meias de seda, toda ela Elástico
De si mesma, toda ela contente de ser.
Vai coroada pela sua infinita
Vontade de sair. Por corredores vermelhos,
Surge sempre onde menos se espera,
Com pregos espetados ainda no corpete,
Com atilhos a prenderem todas as frases,
Rodeada de folhos, de criadas, de frases
Cuidadosamente estudadas ao longo de séculos.


Faz beicinho pendurada de alfinetes.
Leva à certa qualquer rinoceronte
Que atravesse o teatro, faz perder o espectáculo
A qualquer um que tenha camarote à espera,
A família, a posição social, a compostura.
E ela adora, vê nisso um caminho para a Saída.

Um sussurro bem dado, e os rinocerontes
Põem-se sobre as duas patas traseiras.
E os porcos suplicam, todos cor-de-rosa.
E a mulher faz-lhes a vontade, com a promessa
Da saída. É hábil de boca, chega a dobrar-se toda.
Incrível agilidade, desesperada para cuspir
Os últimos pregos contra os que a escravizaram
Tão longamente. Então vai livre, de bar em bar,
E demora-se nas casas de banho a compor atilhos
Ligas, cordões, espartilhos formidáveis,
Como se fosse um caixão em pé, saído de Magritte,
Esticando os elásticos e largando-os, pelo prazer
Do som. Faz balões de pastilhas elásticas,
E na ponta deles vemos a cara de um aprisionado.

Segura os quatro círios do seu próprio velório
E ri muito quando a cera lhe chega aos dedos
E os queima. É assim espantoso, um ser que aparece
Sempre entre cores fortes, do meio de florestas,
Como um tigre. E uma pessoa mesmo sabendo
Que ele está empalhado, pede-lhe um beijo,
Faz-lhe uma gravata, abre-lhe as guelras
Para ver se está fresco, é um bicho que cheira,
Que arfa, que nos cheira, que nos engole, que não tem
Vergonha.

Vai pelas avenidas com aquele passo
Que realça o movimento, com aquela ondulação.
Está na rua, é uma criatura emancipada,
E escreve isso com baton nas paredes sujas
Dos arrabaldes. Está sempre a chegar de Leste,
Enquanto os rinocerontes puxam o brilho
Aos sapatos impecáveis. Que mundo, que automóvel.

E no entanto a mulher entra descalça, em meias
De seda. E atira um pé contra a parede.
Pede o homem do martelo, espera que a crucifiquem
De novo. Nas paredes sujas dos arrabaldes,
Este convívio de contrastes é chocante.


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texto voj jan. 09 porto

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