I am not

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sábado, 24 de janeiro de 2009

sofá

Imagem: Alexander Bergström
Site (reprod. aut.): http://www.alexanderbergstrom/com/

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Há muitos anos, havia na casa da minha avó um grande sofá, um sofá negro, imponente como uma enorme urna ornamentada. Era acolchoado, tinha as costas cheias de efeitos, reentrâncias cuidadosamente trabalhadas nos veludos, que enchiam a parede de uma corrente de relevos, e deslizavam pelas tardes da minha infância. Eram tardes enormes, uma infância enorme, paredes enormes, e grandes relógios de pé estavam ali só para marcar a ausência de tempo: os seus pêndulos ligeiramente dessincronizados diziam, balouçando: há tempo; há tempo; há tempo.
Uma vez cresci, e vi pela primeira vez aquelas duas imagens junto ao maple. Deslumbrado, perguntei-lhes, porque estavam de costas, mas tinham algo de familiar: mãe, és tu? Eram duas imagens de mulher, todavia não lhes via os rostos, cada um de um dos lados do móvel. E pareciam estáticas como numa fotografia, posando para um fotógrafo ausente. Mãe, és tu? Respondeu o eco do outro lado do corredor, que ficava muito longe, para lá da tarde, depois de uma quantidade de janelas e de luz que elas projectavam nos soalhos. Mãe, vais sair e ainda não te vestiste? Disse ainda, mas só vi passar a farda, toda aos folhos, lá ao longe, de uma das criadas que estava encarregada de me vigiar, mas só me ensinava frases obscenas; atravessava o corredor do outro lado da tarde nos afazeres a que sempre e continuadamente se dedicava, mudando vasos de flores, dando brilho a sapatos, bordando panos, etc. Perguntei às imagens: que fazem vocês aqui, que nunca vos vi antes? É nesse sofá que costumo ler, pois é nisso que me entretenho nesta infinitude que é minha vida, neste labirinto que é a minha casa. E então elas responderam-me também pela primeira vez: estamos cosidas aos estofos, cada qual na sua posição. Reproduzimos os altos e baixos do sofá, embora a nossa cor seja diferente: temos partes repuxadas para dentro, outras para fora, tudo cosido com linhas próprias, e estamos ajoelhadas. Vês como reproduzimos as geometrias? Uma de nós tem as costelas salientes, e isso representa as linhas; a outra, as nádegas redondas, perfeitas no seu delineamento, e isso representa os sólidos; e o maple, ao centro, é a ordem masculina que nos acorrenta. Estamos aqui para que conheças o corpo da mulher, e saibas o que é sair da infância, começar o tempo, para que sintas no corpo o sofrimento do desejo, os martírios da carne, e também os seus violentos arranques contra a passividade das tardes. 
Nesse momento, os relógios tocaram as oito da tarde, e apareceu uma das criadas, uma que tinha vindo de trás-os-montes e era muito sensual, dizendo-me. Vá, venha menino, que lhe vou contar outra história, muito chegadinha a si.
Confesso que pela primeira vez dessa vez fui com gosto.


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