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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Formas de construção da coesão comunitária no III e II milénios a. C. no Alto Douro português: algumas notas

Castanheiro do Vento, 2008.






Formas de construção da coesão comunitária no III e II milénios a. C. no Alto Douro português:
algumas notas



No Alto Douro português a época que grosso modo se intercala entre o mundo dos caçadores-recolectores (Paleolítico, Neolítico antigo) e o mundo das sociedades mais ou menos fortemente hierarquizadas (Bronze Final, Idade do Ferro), isto é, em geral o que na Europa se designa Neolítico, ou, em termos neo-evolucionistas, processo de neolitização no seu sentido mais amplo, era praticamente desconhecida até inícios dos anos 90. As décadas de 90 do séc. XX e a primeira década do séc. XXI tem vindo a assistir a um incremento das pesquisas, através de prospecções e de inventariação de sítios e outros dados, de escavações de dois locais de altura (Castelo Velho de Freixo de Numão de 1989 a 2003 e Castanheiro do Vento de Horta do Douro a partir de 1998, e agora em curso), e de trabalhos conexos que inclusivamente recuam até ao Neolítico antigo (sítio do Prazo, de Freixo de Numão). Esta actividade tem sido coordenada e participada por elementos da Universidade do Porto e investigadores do CEAUCP (FCT), mas também do IPT de Tomar, e sempre em articulação com a associação ACDR de Freixo de Numão e com a Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Côa, e almeja uma mais profunda articulação com o PAVC que, na região, é um pólo arqueológico fundamental. O apoio do então IPPAR, agora IGESPAR, nomeadamente de 2001 a 2003, foi decisivo. Os resultados substanciais são conhecidos, para além do número das publicações feitas (a nível local, nacional, ou internacional), das intervenções em reuniões científicas a todos os níveis e escalas, do interesse crescente que vêm suscitando por parte de colegas e Universidades estrangeiras, do funcionamento ali de cursos práticos de campo, onde, desde 1989 até hoje, já participaram muitos milhares de voluntários, e dos trabalhos académicos produzidos, sejam eles relativos a conclusão de licenciatura, de mestrado ou de doutoramento, e mesmo de âmbito pós-doutoral. É indubitável pois que, pelos resultados obtidos (nomeadamente com o sítio de Castelo Velho aberto à visita pública, e com a criação de um núcleo museológico de Pré-história, em curso de desenvolvimento e organização ,integrado no Museu de Freixo de Numão) pelas sinergias criadas, pelas expectativas futuras, e adentro do se convencionou chamar a Pré-história do território português, o núcleo das investigações mencionadas é neste momento um pólo de referencia a nível nacional e internacional.
Qual é basicamente a problemática que se tem desenvolvido em torno dessa experiência, e que subjaz nomeadamente aos vários projectos plurianuais aprovados pelo IPA/IGESPAR ? É esse núcleo problemático que justifica a continuação dos trabalhos, que se não reduzem a escavações/prospecções/ investigações de museu (mau grado a sua importância decisiva), mas têm uma problemática subjacente, que, é claro, nem se mantém igual desde 1989, nem tem de ser partilhada de igual modo por todos os investigadores ligados a este pólo de pesquisa. Tem sido procurado sempre um equilíbrio entre a especificidade das questões de cada um e o diálogo necessário (quer dizer, o terreno aceite por todos) para a prossecução coerente das pesquisas.
Não se trata de (apenas) de compreender sítios e territórios de um ponto de vista arqueológico “clássico”, e de os integrar em interpretações histórico-culturais (quem - que “culturas” -, quando, como e com que fim “ocupou” - ou “ocuparam” - um determinado espaço do Alto Douro no III e II milénios a. C.) ou processualistas (quais as tendências gerais de “desenvolvimento” de sociedades de bando para sociedades linhageiras ou de chefado”, recorrendo-se ou não ao chavão pseudo-marxista de “modos de produção”, etc.) .
Trata-se de ir muito mais além do que aplicar “receitas” gerais de pseudo-explicação “historicista” a uma época/zona definidas. Isso seria mais do mesmo, ou seja, estéril. Trata-se de um processo contínuo de desconstrução de conclusões aceites como certas e definitivas, no sentido de Jacques Derrida, que, como se sabe, nem tem nada a ver nem com relativismos nem com a validação de explicações definitivas, mas implica uma concepção do saber em permanente construção. O pensamento da desconstrução é o único pensamento construtivo possível, e portanto aquele que em ultima análise pode ser inovador cientificamente.
Ou seja, trata-se de um saber que contribua para um propósito multidisciplinar, a partir do ponto de vista e da experiência da vulgarmente chamada “arqueologia pré-histórica”, ou seja, o de conhecer como se tece, se reforça, ou enfraquece, o cimento social, o laço social, o que leva os seres humanos a serem constituídos e a constituírem comunidades e a permanentemente negociarem modos de equilibrar a agressividade e a generosidade, a troca/intercâmbio e a procurarem permanentemente estádios de equilíbrio entre os pólos opostos do conflito e da paz. O conflito e a paz, a reciprocidade negativa e a reciprocidade generalizada (a hospitalidade, no dizer de Derrida) são os dois pólos extremos permanentes do ethos humano.
Como foram eles “geridos” em sociedades, ou em modos de sociabilidade (para se ser mais preciso) que existiram durante o III e o II milénios a. C. (particularmente, neste último milénio, durante os seus três primeiros quartéis)? Como interagiram comunidades e meios ambientes, construindo-se mutuamente, numa tal “fase” ? Que especificidades locais assumiram e qual o significado dessas especificidades de cada contexto quando comparado a diferentes escalas (sítio, paisagem envolvente, território, Península Ibérica, Ocidente mediterrânico, etc.)?
Concentramo-nos em particular na questão da acção “construtora”, “arquitectónica” (assumindo a convencionalidade óbvia do conceito) das comunidades, em sítios de concentração de actividade, quer dizer, em espaços definidos onde, durante centenas de anos, continuada ou descontinuadamente, se operaram acções que envolviam necessariamente a mobilização de muitas pessoas e de muitos materiais, locais e alógenos. Chamamos-lhes, também convencionadamente, colinas monumentalizadas,
Tal como aparecem ao olhar do arqueólogo de hoje, essas “colinas”, apesar de muito alteradas pelas destruições históricas, principalmente recentes (florestações, uso agrícola) “contêm” um conjunto de características que, sendo locais e mesmo micro-contextuais (e produto de uma determinada técnica de abordagem por nós, é claro) permitem por essa mesma razão (a da análise fina, detalhada, descritiva, mas sempre no sentido de uma leitura necessariamente interpretativa e portanto provisória) colocar um conjunto de questões que julgamos pertinentes.
Este ponto é decisivo: encontrar (e reformular constantemente) as questões pertinentes é a principal tarefa do investigador (desconstruir para poder construir), porque colocar uma questão é estabelecer desde logo a moldura da(s) resposta(s) possível(eis). Isso implica um esforço de distanciação em relação às molduras correntes que enformam o trabalho arqueológico, tornadas paradigma dominante, e portanto não auto-reflexivo ao nível conceptual , quer dizer, destinado a ser mais do mesmo, destinado ao fracasso. Em background está pois uma preocupação que se articula com o pensamento crítico contemporâneo, que a nosso ver tem de ser necessariamente desconstrutivo no sentido derridaniano, para ser verdadeiramente produtivo e científico.
Que há de comum entre nós e os homens e mulheres (as comunidades do III e II milénos a. C.) que supomos, usando o senso comum, terem construído sítios que hoje designamos convencionalmente monumentais, carreando para eles o que parece ter sido uma parte muito importante da sua energia individual e colectiva? Como se agenciavam, nesse contexto, sentidos que na sua maior parte não seriam expressos (é essa a noção de senso comum, ainda hoje), mas estariam permanentemente a construir-se (e a desconstruir-se, claro) através do diálogo e do confronto, a nível comunitário e individual? Que aportação específica pode o arqueólogo, através dos contextos concretos que estuda, dar ao entendimento de como se estabelece o consenso e o dissenso, de como se reforça ou destrói o laço social, de como se conseguem planaltos de estabilidade e se produzem fracturas, eventos, que provocam inovação? Esse é o pano de fundo da nossa problemática.
Queremos imaginar (propor interpretações plausíveis) através da experiência de arqueólogos, em que medida certos tipos de técnicas e de materiais, o estilo dos objectos (às mais diferentes escalas) uniu ou desuniu, pode ter contribuído para o fazer e o desfazer de alianças, de redes de intercâmbio, de identidades territoriais, de estatutos diferenciais, de modos de polarizar acções colectivas em torno de certos princípios/pessoas, como é que pela fabricação de paisagens sempre novas com pontos de referência “construídos” as comunidades se articularam ou desarticularam, estabelecendo redes de trajectos e portanto centros e periferias, corredores e fronteiras, um espaço habitado.
Se o conseguirmos, conseguiremos perceber melhor como nós próprios actuamos, aqui e agora. Mais, muito mais do que contar a história, do que narrar o passado (necessidade ontológica indesmentível, a da constituição da memória, mas processo sempre em fabrico, porque do domínio do desejo, e portanto nunca totalmente satisfatório) o que queremos é, obviamente no presente que é tudo o que temos em cada momento (e portanto o próprio presente está em perda por definição, pois se define pelo que já não é, e pelo que ainda está para ser) ver mais claro qual é a nossa condição, seres que habitamos num espaço arqueológico, isto é, numa paisagem de traços, de heranças, de vestígios, mas onde constantemente se mobilizam forças para uma política do seu entendimento e, portanto, da sua reorientação.

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