terça-feira, 9 de dezembro de 2008

tochas

Foto: Liliana Jasmin
(rep. aut.)
Ver: http://www.olhares.com/Jazmim





Quando a vítima se entrega voluntariamente
À imolação
Quando o Cordeiro Pascal
Se aproxima silencioso
Da faca

Que tem de estar
Por detrás do altar?

O brilho de deus?
A promessa do repouso
Na transfusão dos vasos?
A erecção de um milhão de círios
Contra o horizonte do mar?

Ou tão só um vaso de palavras
Consagradas, brilhantes
No vão da sombra, na sua discrição?

O Cordeiro procura recuperar
A palavra?

Ou tão só a tábua horizontal
Do começo, quando entre as tochas
Ele entrou neste mundo?

Que empurra o corpo
Para o ardor do sol,
Suplicante?

Parece dizer: aqui estou, queima-me
Com o gume, traça-me a garganta.

Fatigado da palavra, peço
Que transvases este líquido que sou
Para o silêncio, para o infinito anónimo
Do oceano.

Deito-me. Exponho-me. Dobro-me
Ritualmente. Cumpre tu
O teu ofício, este é o meu Corpo
E o meu Espírito, mistura-os na cor.

Cansado. Aqui me entrego para ser
Escorticado, entregar a pele
Para aparecer vermelho, sangrado

Como um sexo pode sangrar,
Como um interior pode virar-se para fora
E sob o sol, suplicar: acaba comigo.

Cordeiro, aqui não está mais ninguém
Senão eu e tu, a comunidade desertou
Os olhos estão escondidos na sombra,
Os altares estão frios nas igrejas abandonadas.

Então é ao sol que temos que consumar isto,
Sobre esta tábua, sobre este paredão,
Como se empurrámos um barco com sua proa,
Como se fôssemos à pesca e amanhássemos um peixe.

Dá portanto jeito, vira-te entre uma sílaba
E outra, para eu te ver bem a veia
Onde fazer a incisão, encontrar a palavra
Aguçada, difícil, cirúrgica.

Pois seguro a faca da qual te aproximaste,
A missão que me conferiste,
Ao entregares-te voluntariamente
Aos lábios negros do texto, à sua perversa

Saliva. Aquela
Que tem o sal do mar, onde no fim
Se lava tudo, os gumes e os órgãos,
A pele exposta contra a ilusão dos molhes,
E as sílabas ficam a secar
No aroma festivo desta suprema ilusão

Que é vivermos dentro da Realidade
E ainda nos deitarmos, todos dobrados,
Num dos seus paredões, como ela fosse de facto.

Esperando a inocência do Cordeiro.
A confiança dos seus olhos

Na sua virgindade pascal,

Exposto, entre mil círios,

Como as vitualhas que na cozinha
Se deitam na mesa, mesmo ao lado

Das receitas.



à l. j.

3 comentários:

Michele disse...

Molto bello questo brano Michele http://pianetatempolibero.blogspot.com

Michele disse...

Michele http://pianetatempolibero.blogpost.com
ti propongo uno scambio link se ok lascia un commento nel mio blog
ciao

Vitor Oliveira Jorge disse...

Grazie. È proprio peccato mettere un cane qui,come símbolo de tu persona. Una fotografia ispiratore, prego!