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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

integração/desintegração

Os dias com obrigações e horários são muito chatos, mas ao menos uma pessoa vai fazer coisas socialmente aceites e sente-se ao fim do dia vazio, mas integrado.
Os dias livres têm esta coisa de terrível: confrontam-nos com a dificuldade do essencial (por isso muita gente se entretém nos rituais e nas obrigações que ela própria contruíu: para não ter de afrontar este desafio de si própria. A sua vida é um adiamento). Pois gostaríamos de ter não uns dias livres, que só dão para umas "coisitas", mas um grande período livre, que desse para ler e maturizar verdadeiramente qualquer coisa. Muito tempo à frente.

Quando uma pessoa era nova, não sentia isso: havia muito futuro.
Quando uma pessoa está na crista da vida, em certos aspectos, vendo de um lado o que já viveu e do outro lado o abismo da interrupção definitiva, tudo se torna urgente, tudo o que foi adiando, e a irritação contra todos os impedimentos sociais cresce.
Sabemos que temos alguma coisa a fazer e a dizer: saber isso é já de certo modo tê-la feito. E todavia, sempre que a mão vai para a acção, é interrompida. É medonho, o espectro dos dias livres, em que a pessoa se volta para a esfinge do seu destino.



2 comentários:

AM disse...

Percebo bem o que diz. "Ofereço" como comentário um poema meu, espécie de "poema-âncora" do meu último livro - "A urgência das palavras", chama-se precisamente "Urgente":

Urgente?
Urgente
é o pão na boca do pobre,
urgente
é o céu
que a todos nos cobre,
urgente
é a mão que afaga
e me acode,
urgente
é o não que
na língua me morde.

Urgente?
Nada é urgente
senão a sorte.
Urgente
é o passo
com que fujo da morte,
urgente
é a ausência
de mim e o desnorte,
urgente
é a demência
que em mim se faz forte.

Vitor Oliveira Jorge disse...

Obrigado. Tão simplesmente.