sábado, 6 de dezembro de 2008

qualquer coisa como o risco


eu escrevo para daqui a muitos anos
quando puder já lembrar-me de mim
num país para onde parti

eu escrevo a vermelho
sobre as tuas costas partindo
para muito detrás daqui
quando voltares de novo à tua infância

sobre a cara suja das paredes
onde a burocracia inscreveu as regras
arbitrárias

inscrevo com garras afiadas
como canetas o meu testemunho
defendo as paredes altas
da memória

ergo alto o traço do texto
com um orgulho primitivo
como quem sobe a cabeça
do bastão no ar

para descer sobre o silêncio
sobre este branco do écrã
sobre estas guelras da asfixia
láctea

e aí deixar uma mancha
um pouco de tudo todo destroçado
e colorido de escuro.

escrevo como o arquitecto que levanta
o compasso,
e traça a rua, e os edifícios
que não servem para nada,
que não levam a lado nenhum

a não ser ao outro lado do cenário
onde já esperam o passado e o futuro
apertando as mãos efusivamente.

escrevo entre os lábios colados
do beijo das estátuas
e digo:

dá-me licença, quero passar
tenho na mão o manuscrito
transporto a responsabilidade
da mensagem

vejam as credenciais
de ouro
o bordado do texto
que em filigrana caminha
incessantemente

de mim para ti
do teu passado para o meu futuro
do meu futuro para o teu passado

vejam a minha fita
de púrpura,
o óleo com que fui ungido

vejam a face fosforescente
do que caminha, do que traça,
do que risca linhas sobre o tempo,
sobre o espaço

do que leva o envelope, a caixa,
sobre a palma da mão
através das idades.

do que cruza em diagonal
traçada, diria mesmo riscada,
a tinta da china preta

todas as circunstâncias
os pequenos risos,
as quotidianas
conjuras.

na urgência, no entusiasmo
de transportar sobre o dorso
qualquer coisa que é da natureza
da arquitectura,
do risco.


_____________
texto voj porto 2008
imagem de Bogdan Zwir (rep. aut.)
fonte: http://www.zwir.ru/zwir.htm

3 comentários:

Sorriso Secreto disse...

GOSTEI MUITO !
DESEJO UMA BOA CONTINUAÇÃO :)

Sill Scaroni disse...

Um escrito encantador ...

Vitor Oliveira Jorge disse...

Obrigado.