I am not

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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

amazónica



ainda bem que regressaste 
do Brasil,
com todas esss penas, e atavios,
atada pelas costas
a uma maresia
tropical

ainda bem que te conheci
que pude olhar o teu corpo,
 
fotografá-lo
no esplendor 
deste estúdio

e ouvir

os apelos das araras longínquas
sobrevoando as colinas luminosas
das tuas costas, do teu rabo,

os sons de todos esses bichos
que proliferam
sobre a tua cabeça
entontecida,

toda essa profusão de taxonomias
chilrreantes

assim aceito
tratar-te
como a um dos meus animais,
deixar-te passear
nesta floresta
de memórias e de móveis
de pau-santo,

nua e tropical,
imitando sons
de pássaros meus
desconhecidos

sim, acolho-te,
com as mãos abertas
aos teus seios, à seda
dos teus seios, 
à sua cor, ao seu calor
tépido!

põe-te em cima da peanha
sobe um pouco as pontas dos pés
que vai dar-se 
o disparo

e então ficarás 
ainda mais presa
definitivamente
às maresias e às aves
do Brasil

e do escuro virão
os frutos, e cores, 
e odores, e bichos
passear entre a tua imagem
onde batem fortes 
os sons das ondas

a transpiração das costas
abrasadoras.

e as minhas mãos recolherão
as primeiras algas
que anunciam terra

trazidas
pelo teus pés 
pela tua nudez
deambulando
pela casa à noite

e segurarão nas tuas nádegas
nos pássaros ruidosos, iluminados,
do teu rabo

acima das palmeiras
acima das areias
estendidas
até ao horizonte!

e vem à boca este longo sal do mar
que enfuna as velas 
dos músculos
e faz vibrar as cordas eléctricas

a voz que engrossa
que rejuvenesce as forças
e atira o corpo 
contra a luz do flash
contra o turbilhão dos sumos

onde tu apareces 
miraculosamente
ao centro

recém-regressada

jorrando água doce
suco de manga e abacaxi
das concavidades suaves

emitindo pequenos sussurros,
suspiros, 
chilreios de pássaro louco,

tão tipicamente
brasileiro

agitando as pernas 
desencontradamente

a nudez do rabo

a seda das penas
a sede das plumas






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Foto Aya and Ned
http://www.louchelab.com/index.html
texto voj porto dez 2008

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