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quinta-feira, 16 de abril de 2009

Versalhes: jardins, com alguns pensamentos pelo meio























































Os japoneses, como se sabe, invadiram o mundo. Nos locais turísticos ocorrem sob a forma de magotes, querendo fotografar-se com os monumentos por fundo. É espantosa a sua tenacidade e o seu espírito de grupo, seguindo guias e cumprindo etapas com atlética disciplina. Uma energia fabulosa. Quando vierem os chineses, em magotes, ainda será mais concorrido.
Nota, para evitar mal entendidos: não sou xenófobo, adoro conhecer gente de outras "culturas", e nem sequer me posto numa atitude antropológica, que é sempre a do superior. Não, posto-me na atitude poética da surpresa. Vejo os ritos, mas sei que poderia estar do lado de lá, a fazer a mesma figura. Ou melhor, que também sou um japonês aqui, como em qualquer lado.



























"APENAS A POESIA PERMITE A INTERPRETAÇÃO E É NISSO QUE EU NUNCA AÍ CHEGO, NA MINHA TÉCNICA, ÀQUILO QUE ELA DETÉM: EU NÃO SOU SUFICIENTEMENTE POETA."

"(...) seria "preciso a ajuda (...) do que se chama a escrita poética" para "encontrar a dimensão do que poderia ser a interpretação analítica."
J. LACAN
(Seminário, aulas de 17 de Maio e de 19 de Abril de 1977, citado por Clero, "Dictionnaire Lacan", Paris, Ellipses, 2008, p. 151).





É inconcebível, ou tristemente significativo, que em Portugal haja tanta gente que estudou o genial Freud e não estudou Lacan: este último é fundamental para compreender o primeiro e para o arrancar de muita coisa que ainda o vinculava a um saber que entretanto mudou, como mudou desde o tempo de Lacan, evidentemente! As pessoas metem-se por caminhos mais práticos ou mais míticos da psicanálise (que pulula deles) e não vêem que Lacan é capital para perceber Freud! Para quem tenha dificuldade, aconselho o dicionário recentemente saído, e que é fulcral para se perceber Lacan e, retrospectivamente, Freud.
AO CONTRÁRIO DO QUE PENSARÃO ALGUNS, NÃO PRECISAMOS DE IR SEGUNDO A CRONOLOGIA DO APARECIMENTO DOS AUTORES OU DAS OBRAS - MUITAS VEZES, SUBITAMENTE, É ALGO QUE SE PENSA AGORA QUE DE REPENTE TORNA CLARO O QUE SE PENSOU ANTES.
Esses modos lineares de trabalho já foram: é preciso é ser persistente e não cair em ridicularias fáceis a que muita psicanálise nos conduz. Nem evidentemente erigir nada nem ninguém em definitivo. Neste mundo não há nada de difinitivo. Lacan não era lacaniano, como Marx não era marxista. É o pensamento académico e caduco que laca tudo, ensinando um método que já foi, que já deu. Mas que impregnou as pessoas até ao cerne do seu habitus, do seu desejo mais íntimo. Que horror. O pensamento procede por deambulações errantes, é assim que se aprende.




Se crês que as estátuas estão imóveis, não entendeste nada.

Se crês que as estátuas mobilizam, ainda entendeste pouco.








Até aqui, mal escondido, o consumismo se instala... as pessoas têm fome e sede e vontade de ir às casas de banho porque sabem que tudo isso está cá...
mas, claro, em geral pensam ao contrário: ainda bem que isto está aqui, estava mesmo a precisar. O produto faz o consumidor, como o hábito faz o monge.










Não te confines nunca a nenhum programa: pensa que só começas a existir DEPOIS dos programas indispensáveis cumpridos. Recusa-te ao automatismo da resposta, resiste à sociedade das máquinas, às engenharias subtis do sentimento e da vontade. Não lhes devolvas o que pretendem. São formas de autoritarismo emergente.
Os novos campos de concentração são os que assim dia a dia, máquina a máquina, matam a consciência, o jardim dos prazeres inventados, e não dos prazeres disponíveis, consumíveis. Larga-te ao encantamento, imagina que a relva se prolonga até ao infinito. Essa é a tua colcha. Não te deixes prender no veneno da informação: o mundo transformou-se numa máquina informacional, quer dizer, num triturador dos seres humanos. E esta reacção não é em nome de qualquer "humanismo", mas da dignidade ética do ser humano. A informação é um cancro que invade tudo, silencioso. Como dizia Deleuze, ela é a forma recente de fascismo.








































Estes jardins, sem um pensamento (não me refiro à corrente de consciência, que jamais se interrompe, mas a um pensamento denso) não seriam mais do que um lugar como qualquer outro: é cada um de nós, ao passar sobre eles (ao ouvir o som dos seus pés sobre a resistência do cascalho miúdo que os atapeta) que lhes dá existência invulgar. Nesse sentido, qualquer jardim, qualquer lugar, pode ser Versalhes; e por outro lado, só agora, com a minha reflexão espontânea sobre estas fotografias, que o acto de blogar me permite, Versalhes e a sua densidade volta a existir para mim. É agora que a minha palavra abre de novo a água das fontes, e a sua música inaudível nas fontes, mas não na minha memória. Os lugares, como qualquer outra coisa neste mundo, são apenas pretextos para um caminho se exercer: passos de uma viagem que o sujeito faz, sempre à deriva, sempre com um programa certo, sempre com um caderno de encargos de intensificações no bolso.
É nesse sentido que nenhum encontro existe. Eu não encontro, invento.

















O preço das coisas é o que estamos dispostos a pagar para irmos até ao fundo do nosso desejo. Aquilo para que se dirige o desejo é sempre obscuro.
J. Lacan
(seg. J.-P. Cléro, Dictionnaire Lacan, Paris, Ellipses, 2008, p. 142)
















































A ideia de incorporação (ligada evidentemente à de identificação com) é muito antiga: vem da noção de corpo místico.






O melhor curriculum de um professor são os êxitos dos seus alunos














1 comentário:

Blogat disse...

Passeando por postagens antigas...Achei esta visita,guiada e comentada.Fiquei maravilhada e encantada...de novo.Um abraço.