quinta-feira, 2 de abril de 2009

contradições


O extremo desgosto que uma puta provoca é que deixou de ser uma pessoa inteira, e se tornou, mesmo que por momentos, uma mercadoria. E nessa qualidade é impossível estabelecer com ela uma relação de pessoa a pessoa, quer dizer, desenvolver uma fantasia, antes ou depois do seu "serviço". A cumplicidade não existe, tudo está reduzido à abstracção plana do dinheiro.

E todavia, gostamos de uma mulher em atitude provocante, de uma mulher a quem nos apetece chamar "puta" quando atingimos ou estamos prestes a atingir a esfera do auge, quando penetramos no círculo do seu íman: mal de nós se não fosse assim. Mas aí traímos uma velha tendência para a desqualificação como mercadoria do nosso mais íntimo e profundo alvo de desejo: a vontade de espezinhar, de reduzir a um objecto, o ser com quem procuramos ter prazer, a quem procuramos dar prazer. Ou seja, no imaginário mais íntimo de nós, homens, está de certo modo sempre uma "puta" como objecto de desejo. Uma mercadoria. E por isso nos é tão difícil conjugar a amiga que é uma pessoa, com a mesma amiga que nos desperta desejo, e que temos secretamente de ver como puta, de imaginar como puta, para a poder desejar. Contradição insanável que conduz necessariamente à frustração. E que cada vez mais é uma contradição simétrica, pois existe também do lado da mulher, olhando o homem como um puro objecto de gozo. O gozo em estado puro é uma mercadoria abstracta, um produto do capitalismo. O seu cerne indecoroso, porque matou as pessoas, tornando-as mercadorias na sua consciência e na sua própria fantasia cúmplice.
Por mim tenho a honra (ou a secreta frustração?!...) de nunca ter sido cliente de uma puta, de nunca ter conseguido, de nunca ter sido objecto de um serviço, de uma troca económica desse tipo. É-me impensável. Um homem que "vai a putas" vai sempre a putas quando está com qualquer outra mulher. Mas, não seremos afinal todos um pouco assim, apenas em graus diferentes de experiência/frustração?... sejamos honestos nas nossas contradições.
Estes temas são sempre desagradáveis, porque querendo (supostamente) abstrair, uma pessoa está sempre é a falar de si. Daí o carácter impúdico, no sentido de subtilmente pornográfico, castrador, de qualquer sexologia. O discurso trai a vontade do desabafo quando se esconde por detrás dos protocolos da ciência: como a enfermeira nua debaixo da bata profissional, ou o médico disfarçadamente libidinoso palpando clinicamente a "sua paciente", cheio de atenção objectiva.





6 comentários:

Rosa Silvestre disse...

"como a enfermeira nua debaixo da bata profissional", habitualmente as enfermeiras não andam nuas debaixo das suas batas profissionais porque isso não é profissional nem ético, há aqui qualquer confusão ...não quereria dizer quem se veste de enfermeira? porque não é a mesma coisa, certo?

Vitor Oliveira Jorge disse...

você raciocina de maneira muito certinha... então não vê que todo o meu discurso á metafórico, que alude a fantasias assumidamente pessoais, que uma enfermeira nua por baixo da farda é uma velha e boa fantasia masculina, que sem fantasia a vida é uma chatice profissional?!... con-funda tudo, liberte-se! seja silvestre! E boa Páscoa...

A-Verdadeira disse...

Transcrevi este seu texto para o meu Blog.
Espero que não me processe.

Cumprimentos.

ginha no país das maravilhas disse...

Não sei se seria capaz de escrever algo assim num "sítio público"!! Terei de ler outra vez mas, assim de repente, acho que nós mulheres somos tal e qual os homens. Ambos temos a mesma animalidade e fantasias. E ambos procuramos o mesmo, ou seja, sexo e amor, amizade e desejo numa mesma pessoa. A dificuldade está aqui.

Vitor Oliveira Jorge disse...

Ginha, aconselho-a a ler um pouco de Lacan no que toca às sua teoria da sexuação e à impossibilidade da relação dita sexual. Não é a banalidade que parece: é complexo e muito interessante.
O que digo neste meu texto é uma velho lugar comum, bem conhecido da psicanálise de bolso, que é a dupla figura da mãe como puta (representante do falo) e como ser venerado (a mulher do amor). Tema para especialista que não sou...
Note-se que "falo" aqui não é o pénis, mas um pólo simbólico, que tanto diz respeito à mulher como ao homem. Mas a lógica fálica é uma questão muito interessante e dificil. É preciso ler os seminários do Lacan.

Vitor Oliveira Jorge disse...

A-Verdadeira: tenho muito gosto em que tenha transcrito!