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domingo, 13 de dezembro de 2009

Livro sublime de Agamben, de cuja escrita nunca sai nada que não nos exalte!

NUDITÉS
Paris, Éditions Payot/Rivages, 2009 (ed. italiana, "Nudità", também de 2009)

Há dias noticiei aqui este livro e, ontem já tarde, agarrei-me a ele para já não largar.
Há um capítulo que tem o mesmo título do livro - é indescritivelmente lúcido, belo, erudito, enfim, não há palavras.
Apetecia-me traduzi-lo todo, mas é claro que não devo nem posso. Apenas um pequeno reflexo, que traduzo, do clarão fabuloso que é o pensamento deste gigante da cultura europeia contemporânea (algumas linhas do fim deste capítulo - pp. 145 e 146) que só se compreendem na sua plenitude se se ler o livro todo, bem entendido:


" O ROSTO BELO QUE EXIBE A SUA NUDEZ SORRINDO DIZ SOMENTE: "TU QUERIAS VER O MEU SEGREDO? TU QUERIAS DESVELAR [TIRER AU CLAIR] O MEU ENVELOPE? POIS BEM, OLHA ISSO, SE ÉS CAPAZ, OLHA ESTA AUSÊNCIA DE SEGREDO TÃO ABSOLUTA QUÃO IMPERDOÁVEL! " O MATEMA DA NUDEZ É, NESTE SENTIDO, SIMPLESMENTE ESTE: HAECCE! " NÃO HÁ NADA MAIS SENÃO ISSO". E, CONTUDO, É JUSTAMENTE ESTE DESENCANTAMENTO DA BELEZA NA NUDEZ, ESTA SUBLIME E MISERÁVEL EXIBIÇÃO DA APARÊNCIA PARA ALÉM DE QUALQUER MISTÉRIO E DE QUALQUER SIGNIFICAÇÃO QUE ESTANCA DE UM CERTO MODO O DISPOSITIVO TEOLÓGICO PARA FAZER VER, PARA ALÉM DOS PRESTÍGIOS DA GRAÇA E DAS SEDUÇÕES DA NATUREZA CORROMPIDA, O CORPO HUMANO NA SUA SIMPLICIDADE INAPARENTE. A DESACTIVAÇÃO DO DISPOSITIVO AGE ÀS AVESSAS, QUER DIZER, TANTO SOBRE A NATUREZA COMO SOBRE A GRAÇA, TANTO SOBRE A NUDEZ COMO SOBRE O VESTUÁRIO, LIBERTANDO-OS DA SUA ASSINATURA TEOLÓGICA. ESTA SIMPLES PRESENÇA [DEMEURE] DA APARÊNCIA NA AUSÊNCIA DE SEGREDO É O SEU TREMOR [TREMBLEMENT] ESPECIAL - A NUDEZ QUE, COMO UMA VOZ BRANCA, NÃO SIGNIFICA NADA E NOS TRESPASSA PRECISAMENTE POR ESTA RAZÃO."


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Meu deus, como é possível haver coisas tão fulgurantes, uma filosofia que é já poesia, que fundiu a sublimidade do pensamento com o pensamento do sublime, quando ao mesmo tempo a vida é maioritariamente feita de misérias, de ridicularias, de vulgaridades e de stresses sem fim ...
E anda tanta gente a julgar que escreve poesia, ou que pensa alguma coisa de jeito (eu incluído)... dá vontade de parar a cacofonia do mundo.


1 comentário:

alice disse...

gostei muitíssimo de ler, victor. tem toda a razão nas suas palavras sobre este excerto. um beijinho.