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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Bernard Stiegler - Primeiros contributos para um glossário - 2

Bernard Stiegler - Primeiros contributos para um glossário - 2

(continuação - os elementos novos estão a outra cor)

(arquitectura de conceitos - “work in progress” baseado nas palavras/definições do próprio autor – atenção, para não se pensar que estou a fazer qualquer tipo de plágio, quando se trata apenas de “apontamentos de estudo”, traduzidos por mim. Voltarei regularmente a eles, para os modificar, ampliar, enriquecer, até abarcar se possível toda a estrutura básica do pensamento do autor).



Baixa tendencial das taxas de lucro – aumento da parte do capital constante (meios de produção) e diminuição correlativa do capital variável (o trabalho assalariado). Marx mostra que resulta daí uma diminuição da rentabilidade dos investimentos. A crença neoliberal consistiu em pensar que a dinâmica capitalista tinha conseguido ultrapassar esta tendência sistémica, que está na base da actual crise mundial

Burguesia – seu desaparecimento contemporâneo no contexto de uma deriva mafiosa do capitalismo

Capitalismo contemporâneo – já não consiste basicamente ou apenas naexploração de energias motoras do aparelho industrial, como o petróleo e a electricidade, mas na energia do consumidor proletarizado, na exploração da energia libidinal

Capitalismo industrial do séc. XIX – produtivista, baseado na máquina a vapor e nas redes de caminho de ferro. Exploração do produtor proletarizado (do trabalho como pura força de trabalho)

Comércio – tipo de troca diferente do mercado. É sempre um intercâmbio de modos de saber-viver e de saber-fazer

Confusão da logística e do símbolo – sua integração não crítica – conduz à proletarização do espírito e à depauperização da cultura, quer dizer, à destruição das capacidades unificadoras dos fluxos temporais que as consciências individuais são

Consciência – é essencialmente livre, diacrónica, excepcional, irredutivelmente minha (ipseidade). É temporal, em fluxo contínuo, mas também no sentido de que a sua forma é histórica e evolutiva. É um arqui-cinema

Consciências individuais – podem ser destruídas nas suas capacidades de projecção, ou seja, de desejo, que é sempre singular. Das duas, uma: ou se afundam nas indústrias de programas, ou são apanhadas nas redes dos “perfis de utilizador”, que permitem sub- estandardizar e portanto tribalizá-las em sub-comunidades

Consumo – reconfigurou-se no séc. XIX numa relação essencial com o desejo e a sua economia, pela via do imaginário (fantasma), e através dele, do inconsciente – transformação do material pulsional. Consumismo e produtivismo estão intimamente conectados. O consumismo é a proletarização do consumidor

Controlo total dos mercados – sincronização dos fluxos temporais de consciências

Crise actual – crise do modelo baseado no consumismo: automóvel, petróleo, ordenamento do território com base nas redes de estradas e nas redes hertzianas das indústrias culturais

Crítica da realidade contemporânea – tem de ser radical e está ainda por fazer. O momento crítico de Kant, o da sua opção, é o do esquematismo fundamental. Stiegler vai tentar recolocar a questão em termos de um cinema da consciência.

Curto prazismo – sistema actual baseado no investimento de curto prazo, de natureza especulativa, em detrimento do futuro

Decomposição das consciências – está a processar-se pela via da hiperindustrialização dos objectos temporais

Desconstrução – é uma forma de crítica, o que a torna preciosa. Mas ela não clarificou o que seria uma critica não fundada num sistema de oposições

Devir técnico – primeira suspensão de programas, revolução do sistema técnico de uma época

Diacronia e sincronia – estão em permanente composição entre si, não se podem opor permanentemente

Discretização dos fluxos – afecta também os gestos. A discretização e reprodução espacializada do tempo dos gestos constitui o automatismo técnico que torna reprodutível como retenção terciária o logos (alma) e o gesto (corpo)

Duplo desdobramento [redoublement] epocal - há na contemporaneidade esta excepção, a de um duplo desdobramento. Uma dupla suspensão, ou desdobramento do desdobramento, criando uma nova unidade de espaço e de tempo e uma nova individuação psíquica e colectiva

Economia da contribuição – relança o debate sobre a propriedade

Economia do hiper-material – desenvolve-se através de redes numéricas de um tempo-luz, e substitui o capitalismo anterior estruturado em redes de estradas e na mobilidade baseada no consumo de hidrocarbonetos

Economia libidinal – modificou-se na contemporaneidade com a exploração da energia libidinal afectando assim a economia como um todo e provocando a destruição mútua de ambas. A economia libidinal capitalista permitirá diferir e agravar os efeitos da baixa tendencial das taxas de lucro

Economia política – economia que ultrapassa a esfera doméstica do oikos. Do seu ponto de vista, as funções de concepção, produção e e consumo são gramatizadas no século XIX, e assim integradas num aparelho de produção de retenções terciárias controladas por dispositivos retencionais

Emprego – nem todo o emprego é um trabalho. O consumidor encontra no emprego o pagamento que lhe permite poder de compra

Epocal [épokhal”] – o que, substituindo os programas em vigor (há uma ruptura, uma suspensão de programas) numa dada época, abre as condições de surgimento de uma nova época

Estado hiperindustrial, ou hiperindustrialização dos objectos temporais - corresponde à decomposição

Experiência do devir – dominada hoje por uma indiferença ontológica: há um mal-estar que tem a ver com o retorno sob nova forma da questão do mal, que é um mau-devir [devenir-mauvais].

Exploração sistemática e ilimitada das consciências – condição actual de “acesso aos mercados”

Externalidades – reconfiguram-se no decurso da industrialização enquanto processo de gramatização, na sua relação com a trans- individuação (comércio)

Fedro, de Platão – opõe a anamnésis filosófica (reconhecimento da verdade do ser) à hypomnésis dos sofistas: mnemoténicas e em particular a escrita.

Futuro [Avenir] – segundo momento de desdobramento, o que permite a transformação do devir em futuro. Este segundo desdobramento ainda não se deu. Vivemos num devir-relâmpago

Generalização dos meios [milieux] dissociados – primeira consequência da gramatização dos gestos e modos de produção em que a revolução industrial consiste

Gesto – deve ser considerado, tal como a palavra, como um fluxo retencional, como um encadeamento de gestos. A aprendizagem de um modo de vida [métier] consiste em produzir retenções secundárias gestuais

Hiper-segmentação das audiências – trata-se de industrializar os comportamentos individuais, dando aos destinatários a impressão ilusória de que o sistema os interpela pessoalmente. A pessoa (“personne” em francês) torna-se “personne” (“ninguém”, também, em francês, quer dizer, desindividuada) no próprio momento em que se julga autónoma para escolher um comportamento que já lhe foi escolhido. É nesta ilusão (acrescentaria eu), nesta crença partilhada, nesta “falsa consciência” ideológica, em que o desejo do desejo está totalmente colonizado pelo mercado hiperindustrial, que se funda o laço social de hoje (ser alguém como ninguém, mas sem o trazer demasiado à consciência)

Horkheimer e Adorno – querem construir um discurso crítico do esquematismo (contra a americanização, a indústria cultural americana dominante). Discurso lúcido e profético, mas ao mesmo tempo equivocado e reaccionário, expressão ele próprio de um mal-estar actual

Individuação – é o que nos fornece, nos dá, o trabalho para além do emprego

Industrialização da memória

Integração funcional das indústrias do símbolo (alfabético e analógico) e da logística (numérica) – é o que permite hoje um controlo total dos mercados, a exploração sistemática e ilimitada das consciências como condição de “acesso aos mercados”. Perda da individuação (Simondon)

Logos – constitui-se por discretização do fluxo contínuo da linguagem, a qual, espacializada, pode ser considerada analiticamente e entrar na fase diacrítica, de onde procede a lógica

Mal-estar actual – consiste na impossibilidade de discernir ou isolar uma fonte ou locus criticável do mal, porque ele está disseminado, por toda a parte, como o próprio material do devir – daí a desorientação dos discursos, por mais distanciados e críticos que se procurem mostrar ou ser. Há um bloqueio do pensamento, uma espécie de tempo que não passa, que não encontra passagem, quando o tempo é acima de tudo passagem

Management

Máquina-utensílio – século XIX. O trabalhador é substituído pelo “indivíduo técnico”, proletarizado, privado da possibilidade de se individuar, pois o seu saber está exteriorizado na máquina

Mecanologia – para Simondon, a perda de individuação do século XIX dá origem a este novo processo de individuação.

Mercados – são, antes que tudo, consciências; conjuntos de fluxos temporais que se trata de sincronizar. O mercado é introduzido pela indústria e pelo maquinismo que implicam um novo tipo de trocas. O mercado consumista pressupõe a liquidação dos saberes-viver e dos saberes-fazer

Modelo industrial consumista – baseado na metalurgia associada à petroquímica, e cuja oposição funcional produção/consumo está caduca. Há um esgotamento deste modelo. Desintegrou-se precisamente na medida em que constituía uma integração económica e funcional da produção e do consumo, tipificada no modelo fordista

Novo comércio – é necessário lutar por ele, tentar impedir a decomposição

Nova crítica – passa pela retenção terciária, isto é, pelo mnemotécnica

Novo investimento – social e político, um investimento do desejo comum (philia” de Aristóteles)

Objectos temporais industriais

Orientação do pensamento – no momento em que o pensamento se tornou tecnociência: é preciso decidir entre possíveis que são também ficções, através do estabelecimento de uma diferença na indiferença ontológica. A questão da orientação torna-se central. A questão da orientação e da desorientação reactiva a questão kantiana do princípio subjectivo de diferenciação, e o fundo teológico inerente a ele

Perda de individuação – a que conduzem o desenvolvimento e a integração das tecnologias da logística e do símbolo. O eu é um vazio, um “on” (em francês), porque se não constitui em função de um nós, mas em função de uma série de “eus” igualmente. abstractos e vazios, mercantilizados na sua consciência

Pharmakon hipomnésico – tecnologia do espírito que, como retenção terciária, tanto pode conduzir à proletarização da vida do espírito como à sua intensificação crítica quando se confronta com a abstracção (Wark)

Processo de acontecimentalização

Processo de exteriorização – é o processo de hominização na concepção de Leroi-Gourhan. Qualquer objecto técnico, enquanto “cultura material”, é um suporte de memória inter-geracional, e sobredetermina as aprendizagens e actividades mnésicas

Processo de gramatização – evolução das retenções terciárias, desde a pré-história até hoje. A reprodutibilidade produz grãos retencionais (gramas)

Processo de numerização

Processo de trans-individuação -

Produção industrial dos objectos temporais – o processo de proteticização da síntese (no sentido kantiano) em que consiste sempre a unificação do fluxo de uma consciência, atinge neste estádio um grau tal que a transformação da consciência pode levar à sua destruição pura e simples

Proletarização – é produzida pelas retenções terciárias no processo de gramatização. A nova forma de proletarização consiste na organização do consumo como destruição dos saberes-viver, criando uma disponibilidade do poder de compra que reforça o sistema de destruição dos saberes-fazer, por seu turno criando uma força de trabalho disponível. A proletarização é a expropriação do tempo das pessoas submetidas como consumidores ao tempo- mercadoria (Debord)

Proteticidade – afecta as condições do esquematismo (termo kantiano)

Proteticidade originária

Proteticização actual das consciências – industrialização sistemática do conjunto dos dispositivos retencionais

Reactividade

Revolução industrial do maquinismo – constitui-se pela transferência da tecnologia do autómato de Vaucanson para o tear de Jacquard

Retenção primária (Husserl) é o que se forma na própria passagem do tempo, que, como presente que passa, é constituído pela retenção imediata e primordial

Retenção secundária (Husserl) – tornada passado, esta passagem do presente constitui as retenções secundárias que entramam as recordações da memória

Retenções terciárias – inscrições materiais das retenções de memória em dispositivos mnemotécnicos – exteriorização mnemotécnica das retenções secundárias. Na verdade, a retenção terciária sempre precedeu as retenções primárias e secundárias. As retenções terciárias são o que constitui este mundo como mundo em que entra cada ser humano. A retenção terciária é uma exteriorização original do espírito

Síntese – unificação do fluxo de uma consciência (Kant). Com o processo de proteticização da síntese, com a produção industrial dos objectos temporais chega-se a um estádio tal que pode levar à destruição das consciências

Sistemas de escrita e de numeração – registos mnemotécnicos terciários cada vez mais analíticos dos fluxos retencionais primários e secundários

Sistema de tele-acção – deriva do sistema de televisão da segunda metade do séc. XX. Processo de transformação profunda da própria actividade da consciência

Sistema de televisão – sistema hegemónico afectando ao mesmo tempo milhões de consciências através dos mesmos objectos temporais industriais – processo de transformação profunda da própria actividade da consciência. Acabou por, nos finais do séc. XX, um sistema de tele-acção

Sistema técnico – há um sistema técnico próprio de cada época (B. Gille)

Sociedade industrial – implicou uma mutação do trabalho, uma funcionalização dos lugares nos processos de produção e de consumo e uma funcionalização das relações sociais (tecnologia maquínica)

Sofrimento existencial, mal-estar – resultante da perda de individuação

Técnica – materialização da experiência, constitui sempre uma espacialização do tempo da consciência para além da consciência e, portanto, envolvendo em última análise o inconsciente

Técnicas de gramatização da percepção áudio-visual – aparecem no séc. XIX. Discretizam os fluxos dos órgãos dos sentidos. Todas as funções noéticas, psicomotoras e estéticas são transformadas pelo processo de gramatização.

Tempo da consciência – é estruturado por retenções e protenções (Husserl)

Temporalização industrial das consciências

Tendências, estruturas meta-estáveis, objectos ideais – podem manter- se através das evoluções (transformações) das consciências, embora estas sejam sobretudo temporais

Terminal de tele-acção (écrã)

Trabalho aparece com a sedentarização e é sempre sobredeterminado pelo estado da gramatização. É preciso redefini-lo hoje. É o que permite adquirir ou desenvolver saberes e, através destes, individuar-se, criar um lugar na sociedade como produtor e não apenas como consumidor. Mas hoje o trabalho está cada mais reduzido ao emprego

Base(s) bibliográfica(s)

Bernard Stiegler, La Technique et le Temps. 3. Le Temps du Cinema et la Question du Mal-être, Paris, Galilée, 2001.

Idem, Pour une Nouvelle Critique de l’ Économie Politique, Paris, Galilée, 2009.

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