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sábado, 12 de dezembro de 2009

banalidades correntes


Um curso de mestrado custa agora, salvo erro, na minha Faculdade, 1250 euros por ano lectivo, pagáveis em 4 prestações. Entretanto, os estudantes podem solicitar apoio aos Serviços Sociais da UP. No campo a que estou ligado, o da arqueologia, é muito importante que o 2º e 3º ciclos se afirmem e consolidem, para o que são evidentemente fulcrais as bolsas, de modo a que as pessoas que procuram estudar não se dispersem com trabalhos que acabarão por as impedir de preparar as suas teses, por redundar no atraso da sua apresentação, ou ainda, no melhor dos casos, num inevitável baixar de nível de qualidade que pode tornar-se muito preocupante.
Os padrões de consumo, nomeadamente de "bens" caros, envolvendo compromissos a prazo (apartamento, automóvel, etc., para já não falar em questões mais complexas de organização da vida relacional e afectiva) transformaram-se completamente na geração actual, que deseja aceder a todos os "bens" ainda enquanto anda a estudar, em articulação com um constante incentivo ao crédito, e com uma predisposição mais que benevolente das famílias, num contraste profundo com o que aconteceu com a minha geração, nomeadamente entre pessoas de classes médias ou médias-baixas, em que tudo o que se procurava era, antes de mais, obter um curso, por vezes num grande "espartanismo" de vida, hoje inimaginável.
Na prática, muitos estudantes de licenciatura trabalham em algo que não é o que devia ser a sua profissão única, a de estudantes. Cada aluno universitário representa um investimento por parte de todos os contribuintes, em média, mas esse investimento nem sempre é aproveitado devidamente por quem pode consagrar-se ao estudo. A sociedade incentiva a saída mais fácil (a "janela de oportunidade") e não a meritocracia.
Tanto nesse plano, como sobretudo nos ciclos seguintes, a divisão por classes é cada vez mais notória, com o acentuar do fosso entre os que lutam para conjugar empregos mais ou menos precários e estudos, e os raros que se podem dar ao luxo de se não preocuparem com problemas económicos. A questão foi sempre muito a de uma emancipação em relação aos pais, e de afirmação de independência própria de cada geração.
Mas os modos como isso se tenta concretizar mudaram radicalmente no espaço de algumas décadas.
Entretanto, todas as pessoas perceberam que uma coisa é assegurar a sobrevivência condigna, outra a obtenção de um mínimo de competências que permita aspirar à execução de tarefas, outra ainda, e muito importante, a de dispor de um capital cultural e social (de um conjunto de conhecimentos e de hábitos de cosmopolitismo e de um âmbito ou rede de interacção exigente) que permita a circulação em meios de distinção de elites. São estes (a "cultura") que levam muitas pessoas à ribalta, e é a essa ribalta, com êxito mas sem grande sacrifício, que em última análise muitos indivíduos querem ascender, no meio de um consumismo que acaba por atabafar as pessoas, e de compromissos de todo o tipo que a envolvente familiar lhes vai criando, numa teia em que a dita pessoa é (ou se deixa ir sendo) cúmplice, nos pequenos gestos, nas pequenas opções, numa gestão da sua vida que cria um efeito de bola de neve e do nivelamento pela mediania.
Felizes dos artistas, dos cientistas, dos criadores de algo de eventualmente mais perene, que nunca estão satisfeitos com o que já realizaram. Felizes dos que não colocam pantufas mentais demasiado cedo, neste ambiente duro e hostil, cheio de invejosos e até de marginais, à medida que as diferenciações sociais perigosamente se acentuam. A falta de padrões comuns de valor e de hierarquizações partilhadas e interiorizadas de organização, criando esta espécie de sensação de estilhaçamento horizontal (em que cada indivíduo se tornou num tipo de "bicho obscenamente ávido" de se afirmar) e de que tudo a qualquer momento pode alterar-se, são factores de desestabilização que não vale a pena lamentar, mas primeiro que tudo tentar perceber.
Não disse senão banalidades correntes. É também isso um blogue... não querer sempre, ao modo jornalístico, falar sobre o bombástico... ou de forma fulgurante ou profética (ao modo dos "opinion makers") mas tentar recriar aqui o espaço público que hoje nos fugiu para a mediação técnológica sofisticada e para os grandes grupos financeiros que a controlam e para nosso envolvimento (as tais pantufas) a produzem. Pelos pequenos gestos nos vamos acomodando, cada um como pode.
E o glamour de que falava noutra postagem entretanto paira sobre tudo. E sem ele ficamos deprimidos.






3 comentários:

José Manuel disse...

A conjuntura em que vivemos e o progressivo aumento das propinas do ensino superior estão a levar ao progressivo aumento do abandono dos cursos por parte duma percentagem significativa de estudantes. A este propósito ver http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1199948

A política seguida para o ensino superior pelos governos do bloco central, no seguimento das directivas da OCDE, aponta para que no futuro próximo as propinas ainda sejam maiores. É óbvio que neste contexto também não haverá lugar ao reforço das bolsas de estudo. Antes pelo contrário. Quem não tiver a sorte de ter pais ricos, num país em que o salário médio ronda os 800 euros, que financiem um estudante a tempo inteiro ou arranja um part-time para financiar os estudos ou então terá que os abandonar. Não é um problema de consumismo. Para a maioria é mesmo um problema de sobrevivência. E o pior é que esta situação se agravou nos últimos quatro anos...

José Manuel disse...

Aliás penso que a sociedade portuguesa (e também a europeia em geral)estão numa fase de transição passando da "sociedade de consumo" para um novo paradigma que será uma sociedade da nova pobreza. A forma como ela surge não é apenas um produto duma crise conjuntural e passageira mas um factor estruturante deste novo paradigma.
Actualmente a o "consumismo" tornou-se uma miragem que se vê nas montras dos centros comerciais mas que não se pode tocar.

Vitor Oliveira Jorge disse...

Creio que, como diz um autor, se passou de uma sociedade de capitalismo "organizado", onde o Estado começou por ser nalguns países o garante de algum bem-estar, para uma sociedade onde, tendencialmente, digamos, já ninguém contém o barco, nem mesmo os próprios capitalistas, e em que a globalização do capital se liga intimamente à dominação de mafias. Basta olhar certos chefes de governo. Entretanto, não se vê um poder concertado internacional capaz de criar ma globalização minimamente justa, e entretanto observa-se a emergência do hemisfério sul, com um ambíguo Lula (as diferenças sociais no Brasil são de bradar aos céus) e com uma China esquisita que se desenvolve num capitalismo e consumismo acelerado sem os freios da democracia ocidental, no que parece o despontar de uma outra versão da barbárie em que os situamos. A coisa assim é preocupante. Cada vez mais me congratulo por já ser sexagenário e por ter tido a lucidez de não ter tido filhos. Apre! Neste universo, Portugal e os seus problemas, as telenovelas caseiras, são asteróides invisíveis à escala internacional, mas não deixando de espelhar, qual gota de água, a realidade envolvente. Mas a maior parte das pessoas quer é curtir enquanto pode, e é o salve-se quem puder. Palavras retóricas e ocas e acção pragmática no sentido mais oportunista, e vamos andando... mesmo assim, congratulo-me por estar no poder quem está e não quem todos os dias tenta minar, não se vendo qualquer tipo de luz ao fundo do túnel. Teríamos que discutir também o conceito de democracia à luz do que estuda Agamben... enfim, a tendência não é optimista. Embora a história não pare e estou crente de que algum sismo um dia se há-de dar... de novo. Tal como os sismos, será imprevisível, contrariando os que não vêem para além do horizonte de bem-estar em que se instalaram, entretidos no seu vedetismo.