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sábado, 11 de outubro de 2008

as cores da casa


a casa é um ser vivo que nos interpela nos seus inúmeros braços e superfícies, nos músculos e mucosas que correm nas paredes, as quais não são direitas e rectilíneas como às vezes parece, mas antes se modificam e ondulam à medida que caminhamos.
a casa pensa. e por isso permite este diálogo interminável, que escorre pelas janelas entreabertas e vai lá ter fora com as árvores, os prédios, as extensões do verde e do mar, numa obsessão de pintura, com a lua a sobrevoar tudo, como um olhar enorme, dilatado, vigilante, protector no seu enigma.
a casa é isso, uma disposição de enigmas, por entre as quais as pernas começam a abrir caminho, com o corpo a acompanhar. e de cada corredor abrem-se para o passado e para o futuro subterrâneos e escadas que mergulham nas pequenas sombras afiadas, até se diluirem. e em cada sala centrada, onde os móveis encetam uma conversação permanente, abrem-se céus e planuras que terminam nas fotos dos livros, nas memórias das viagens, e, no fundo das fotografias, tocam os locais mais longínquos, as pessoas mais distantes, os objectos mais hirtos.
é impressionante como tudo isto mexe, e como as ondas de ar ainda arranjam espaço para dançarem, como grandes lagartos vermelhos, pelo meio. parando quando o céu se põe. certamente para dormirem por detrás da tinta branca das paredes, onde vão fazer companhia aos camaleões nocturnos, esses guardiões da eternidade, espíritos danados na sua posição imóvel, tenaz.

































Fotos e texto VOJ Outubro 2008

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