I am not

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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

à defesa, em interrogação


estamos rodeados de, embebidos em, presos dentro de, tudo quanto é inócuo. a maior parte das coisas que nos preenchem os dias são infindamente chatas e banais. há momentos em que parece que a arte nos salva, em que nos sentimos fonte de beleza, seres que pegam numa pena alta, e por ela sobem as criaturas. uma fonte jorrando água invisível no meio de um deserto só entrevisto. muito fugazmente. e persistimos nessa visão, nessa vontade de visão, permanentemente atravessada por caravanas de inutilidades, pela proliferação de tudo quanto não nos deixa ouvir o nada, este som que fica nos ouvidos, que vem de dentro do universo para dentro dos ouvidos, e de dentro dos ouvidos para a consciência. esta beleza não vê já nada senão hipóteses de coisas, vultos, aparições. configurações do espaço/tempo. explosões/implosões de tudo quanto nos enche o dia, desse lixo horrível, desse calvário interminável, dessa miséria que nos assola de todos os lados, de todas as direcções. um clamor imenso de queixa, um estertor de mortos-vivos. como é difícil isolar uma coisa, pô-la no centro da atenção, e fixá-la, intransigentemente. uma coisa enigmática: uma profecia, uma anunciação. meu deus, por que criaste tantas coisas belas e nos estás permanentemente a retirar, a distrair, arrastando-nos para a banalidade dos dias? eu sei que não queres saber de mim para nada, eu sei que tu és apenas um desdobramento de mim, o meu fantasma. mas se nem o meu fantasma posso interpelar, a quem recorrerei para me lavar, para me limpar da sujidade dos dias, da intrusão?

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Foto: Bill Durgin
Site: http://billdurgin.com/

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