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domingo, 26 de outubro de 2008

telefonemas


Acabam de tentar telefonar-me aqui para casa, não sei quem, não atendi. Um telefone fixo que toca em vários lados, alertando tudo, o sossego da casa, mas me obriga a sair do sítio onde estou. Quando não é de empresas a quererem vender-me qualquer coisa, das duas uma: ou é alguém que não me conhece (e que portanto desconhece que detesto que me incomodem, sobretudo para o telefone fixo, de longe preferindo o mail e o telemóvel, este se possível em sms, que não faz barulho) ou então é um(a) valente sádico(a). Talvez venha a ler esta postagem e da próxima vez me envie um mail. O tempo é a coisa mais sagrada que temos, o tempo para estar connosco.
Isto não é ensimesmamento, adoro falar e conviver, é necessidade absoluta de reflectir, de me dar tempo, ao menos à noite tarde, ao menos aos fins de semana onde anda tudo numa correria, para, sentado numa espécie de praia cega, de onde se não vê ainda o mar, esperar até que acabe por escorregar, eventualmente, uma pequena primeira onda, que venha molhar os pés. Essa chamada, sim, é bem-vinda, reconforta, mesmo quando a água queima ou gela. É uma espécie de telefonema surpreendente, que não espera nada de mim: uma carícia grátis, sem pedir retorno.


4 comentários:

Ana Paula disse...

Gostei muito deste texto. :)

Vitor Oliveira Jorge disse...

Gracias!
O G. Agamben, figra cimeira do pensamento lúcido, odeia telemóveis. Eu também, mas sujeito-me. Mas o telefone fixo, inclusivamente usado com o maior dos desplantes para nos interromperem a impingir produtos, é como se me picasse o crânio, desconcentra, invade a vida alheia sem vergonha.
Um abraço
Vítor

Vitor Oliveira Jorge disse...

No comentário anterior, queria dizer figura, claro, onde está a referência a Giorgio Agamben.No livrinho (precioso) dele sobre o dispositivo (edição francesa) até vem na capa um telemóvel.

SjsVls disse...

Eu gosto do telemóvel. E sobretudo do sms! Produz comunicação diferente, necessariamente codificada. É um desafio para a criatividade! E o tm pode sempre pôr-se em silêncio.... Só é usado entre nós e quem nós queremos. É um artefacto subtil.