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domingo, 26 de outubro de 2008

fotografia




Tenho-me perguntado muita vez: se fosse fotógrafo o que fotografaria? Já vi todo o tipo de fotografias, de todas as escalas, enquadramentos, preparações prévias, trabalho posterior à fixação da imagem, tudo isso, como toda a gente. Passo horas a ver sites com fotos.
Pergunto-me muitas vezes se fotografaria a mulher, esse modelo eterno, ao lado da natureza, das paisagens, das naturezas-mortas, das pequenas e grandes coisas. Se fotografaria os jardins, a textura pequena dos objectos e dos seres em geral. A fotografia aí seria como uma agulha, ou mesmo uma ecografia: para ver através. Não sei, creio que tudo isso está esgotado. A internet tem milhares de coisas kitsch. Pergunto-me se tiraria fotos eróticas, se seria capaz de captar esse momento. E de repente acordo para o meu logro. Uma foto é tudo quanto há de mais construído, claro, tudo quanto há de mais abstracto, óbvio, mas ela pressupõe uma relação. Uma relação a quatro. Duas pessoas, pelo menos, se se tratar de tomar alguém como pretexto; a própria câmara fotográfica, e - o mais essencial de tudo - uma espécie de "entente" entre esses elementos todos, um invisível, um ponto de fuga que desse sentido a isso tudo em conjunto e que permitisse fotografar o infotografável, tal como em poesia queremos escrever o inescrevível, ou em música queremos meter som sobre o som que já há, quer dizer, sobre os sons todos que nos sobrevoam, abafando-os. e chego à conclusão de que teria de partir para outra vida, mesmo aqui, tal como na leitura, porque é um logro bem conhecido sair, e aqui mesmo fazer fotografia como quem escreve, ou pinta, ou faz qualquer outra peça de artesanato, depois de preparado o corpo, os instrumentos, os materiais. Porque já todas as fotografias foram feitas e ao mesmo tempo estão todas por fazer. Ainda um dia, cansado de raramente me espantar em tantos sites que visito, me dedico a isso. Como quando escrevo: escrevo porque já não suporto só ler a escrita dos outros. Isso fatiga. É preciso fazer também. Não deve haver pior condenação do que a daquele que é leitor. Há que fazer, experimentar os materiais, agarrar os corpos das lentes, das máquinas, das pessoas, dos bichos, seja o que for que sirva de pretexto a qualquer coisa que não está feita, que terá de ir sendo feita, que nunca estará completa, acabada, pronta, um borrão medonho, eis o que é preciso fazer. Desalinhar tudo, mas de um modo mesmo radical; não como quem vai ao caroço de um fruto apenas por uma questão de eficácia: mas como quem deita o fruto fora, e com as mãos cheias de polpa come o almejado caroço redondo e enorme como um seixo duro, sabendo que pode asfixiar nessa experiência.
Por já não poder ver mais fotografias, acho que me vou tornar fotógrafo, entre outras coisas, um destes dias. Estou farto de consumir, quero fazer.
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Foto: Aya and Ned

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