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domingo, 19 de outubro de 2008

Ideias talvez enviesadas


Creio que o facto de estarmos permanentemente a acentuar (até eu, claro) - e mesmo a queixar-nos de - que vivemos numa sociedade de mobilidade, em que os indivíduos são nómadas, errantes, e se deslocam constantemente, para além de revelar uma nostalgia da fixação, da sedentarização e de uma quietude idílica a ela associada, se esquece de um ponto fundamental.
A vida é essencialmente movimento, não paragem, e grande parte da história humana, a dos caçadores-recolectores, foi (e em parte ainda é) uma história de deslocação (ões).

Daí o fascíno que exerce o "arquétipo neolítico", plasmado em mil imagens, bem como a casa/lar e o campo e redil ao lado, a aldeia e depois o sítio fortificado, símbolo de segurança e domesticidade (bem delimitado por muros, muralhas, fossos, etc., do perigo e do desconhecido).
É uma fantasia regressiva, securizante, talvez de volta ao embrião, ao útero de onde saímos, nosso primeiro trauma.

Por isso os arqueólogos gostam tanto de ter a sua "estação" (palavra significativa), o seu campo limitado pelas coordenadas geodésicas e pelo quadriculado. Dentro dele sentem-se em casa, podem exercer a sua actividade sem interferências: apropriam-se simbolica e afectivamente do lugar... e das suas interpretações sobre ele...
Claro que o desenvolvmento deste tópico nos levaria muito longe (...) e mais uma vez implicaria considerar toda uma teia de complexidades e de paradoxos, sem esquecer o carácter alienatório que a deslocação pode ter, sobretudo quando é forçada (migrações de todo o tipo) ou compulsivamente induzida pela publicidade ao serviço de um desejo por ela criado, típico da sociedade de consumo.

Por alguma razão em todas as religiões ou seus símbolos, a realidade é apresentada parada, tranquila, em meditação, etc - é o contrário do ser humano, da experiência humana. O ícone, e actualmente a imagem fixa (fotografia) fascinam-nos no que há em nós de pulsão de morte, isto é, de desejo absoluto, de repouso final confundido com o ápice, a plenitude, a realização, o orgásmico momento do fullfilment (jouissance)... etc.
Assim, por um lado, aí está a figura do peregrino, do profeta (que vem sempre de qualquer lado indefinido, bruma ou deserto), etc, e que se contrapõe à daqueles eremitas ou até radicais solitários que viviam décadas no alto de árvores. As duas imagens estão de facto em contraponto em muitas "culturas"...

Se não erro...
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Fonte da imagem acima
Source de l' image ci-dessus:
http://www.amazon.fr/Sahara-Lappel-désert-Jean-Marc-Durou/dp/2850258237/ref=sr_1_9?ie=UTF8&s=books&qid=1224430490&sr=1-9
livro de Jean-Marc Durou, Paris, Hazan, 2002.

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