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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

a casa como arquétipo de um mundo de funcionalidades domesticadas: breve nota

O que distingue o arqueólogo do antiquário ou coleccionador (para quem o que interessa é a "peça" em si, seja qual a razão invocada- estética, sentimental, prestigiante, etc.) é a procura de contextos.
Esta é pois uma palavra-chave em arqueologia.
Contextos são conjuntos de elementos que têm uma relação mais ou menos evidente entre si, dada pelo modo de organização dos elementos, pela sua proximidade/contiguidade, pela sua provável associação a/integração em estruturas ou elementos de maior escala (os materiais que se encontram numa fossa em relação à fossa em si, por exemplo), quer dizer, os contextos sugerem - acentuo sugerem - uma certa "cumplicidade" ou afinidade dos elementos que os constituem, afinidade no sentido cronológico (quando se constituíram), corológico (quem foi responsável por eles), e "funcional" (qual a razão de ser de tal contexto, qual a intenção (para se evitar o reducionismo de "função") que estaria por detrás deles.
Esta questão da intenção é crucial também em arqueologia, que é uma técnica/arte/ciência de elencar eventuais "intenções" para contextos, e portanto pressupõe sempre uma teoria do comportamento humano e, consequentemente, uma formação que transcende sempre, em muito, a filosofia espontânea comum, que leva à projecção inconsiderada de uma "natureza humana" ou de um conjunto de pressupostos da experiência corrente noutros momentos do tempo e do espaço, portanto, uma miopia anacrónica radical.
O arqueólogo, como cientista social, trata com fenómenos de intencionalidade, quer dizer com produções de seres auto-reflexivos e, portanto, com manifestações da ambiguidade (da "ruse", como se diria em francês) que caracteriza o ser humano. A sua problemática nem pode conter-se na mera aplicação do senso comum, nem nas leis das ciências naturais correntes, pois se trata aqui de fenómenos de outro tipo completamente diferente.

Os arqueólogos procuraram sempre distinguir claramente dois tipos de contextos: os contextos de deposição intencional (de que as sepulturas com as suas "oferendas funerárias" seriam talvez o melhor exemplo) e os contextos resultantes de fenómenos não intencionais, ou seja não controlados pelos seres humanos. Estes últimos ainda podiam subdividir-se em dois: os resultantes de fenómenos ditos "naturais" (por exemplo, uma enxurrada arrastando materiais e depositando-os noutro sítio, uma derrocada implicando a mistura ou reconfiguração de materiais originariamente noutra posição) ou "humanos" ( o "lixo" proveniente da vida quotidiana, por exemplo, supondo-se que em parte pelo menos não seria objecto de um tratamento secundário - limpeza, deposição, etc.)

Um dos contextos mais procurados pelos arqueólogos (sobretudo se motivados por um desejo de ultrapassarem a obsessão das sepulturas e de quererem voltar-se para a chamada "vida quotidiana" - adentro da famosa trilogia do povoado - lugar de culto - cemitério, a que se confinam os quadros interpretativos de alguns) é o mítico tema da casa.
A casa, suposto tema ou contexto a-histórico, no sentido de ser universal e corresponder a uma necessidade básica dos humanos, lugar da domesticidade e da intimidade, núcleo da sociabilidade e da "família", é um dos temas mais avidamente procurados pelos arqueólogos, e reporto-me aqui sobretudo aos chamados pé-historiadores, para os quais evidentemente a variabilidade das realidades possíveis é maior do que nas sociedades históricas mais padronizadas e (supostamente) ajudadas na sua interpretação por documentos escritos.
Procura-se encontrar a forma da casa, da unidade básica de habitação/abrigo, a sua estrutura arquitectónica e espacial, desde o Paleolítico até hoje. Certos autores fizeram mesmo uma "antropologia da casa", mostrando a sua diversidade e exotismo nas mais diversas "culturas". Assim, e independentemente da estrutura social, das formas de coesão, das "relações de produção" (passe o anacronismo), dos sistemas de consciência, etc, a casa, os seus restos materiais, quando encontrados, aí estaria a atestar uma realidade básica do ser humano, da sociedade humana, sendo um sintoma particularmente "falante" relativamente à interpretação da vida desses seres. Se a observação, aqui como sempre, já vai orientada por uma expectativa, por uma ideologia, por uma teoria subjacente (não há observação neutra, há apenas diferentes regimes/tipos de objectividade/subjectividade), a conclusão da observação é muitas vezes um deslizar fácil para a re-confirmação dessas expectativas, sobretudo nos casos em que os elementos aparecem mais bem conservados. Ou seja, a arqueologia aparece como o reforço de uma ideologia, sustentada desta vez numa suposta universalidade que se escora na antiguidade dos casos observados. O alibi é perfeito, e os autores muitas vezes nem estão conscientes dele: percebe-se que acreditam, que estão convictos do que afirmam. Quer dizer, fazem corpo completo com a sua inocência. Não se interrogam sobre o essencial,a montante: confirmam jubilosamente o que está conforme ao que tanto procuravam - como uma criança.
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Um dos locais do mundo onde qualquer europeu que se dedique à "Pré-história" deveria ter experiência de campo seria o Próximo Oriente, e todos os países ricos, "imperiais", assim o fizeram. Não Portugal, ou só muito esparsa e recentemente, num contexto pós-colonial.
O facto de nessa região tão diversificada se apontar sempre a precocidade com que os processos de passagem de sociedades de caçadores-recolectores a sociedades de agricultores e pastores (para usar uma terminologia consagrada) se verificaram, e a circunstância de se apontar a Europa como essencialmente uma região receptora de tal "revolução", devia fazer de nós, arqueólogos europeus, também especialistas do Próximo Oriente. Parece que nada pode ser compreendido aqui, espécie de península da grande Ásia, sem ser primeiro ou ao mesmo tempo compreendido lá. Claro que essa necessidade é obstaculizada por toda a sorte de dificuldades logísticas.

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Por exemplo, no livro "Premiers Paysans du Monde. Naissance des agricultures", dirigido por Jean Guilaine e publicado em 2000 em Paris pelas Éditions Errance, há um artigo, entre vários, interessante para esta problemática, de François Valla, sobre "A sedentarização no Próximo Oriente: a cultura natufense" (pp. 13-30).
Como se sabe ao Natufense (12.000 a 10.000 a. C.) é normalmente atribuído o início das "aldeias" (um conceito que resulta da reunião de "casas", por vezes de diferentes tipos) sedentárias, com "habitações" circulares em fossa, utensilagem microlítica, e uma regime de espectro amplo de caça e pesca. Tive a feliz oportunidade de visitar um dos seus locais mais carismáticos recentemente (Beidha, na Jordânia, depois "ocupada" no Neolítico pré-cerâmico B).
O autor, a propósito de "casa", adverte logo (p. 14) que o termo "deve ser utilizado com prudência, embora pareça que as principais funções, técnicas, sociais e simbólicas das casas mais tardias sejam já cumpridas por certas das estruturas mais antigas do Natufense." É muito interessante este discurso da continuidade (apesar da descontinuidade do Natufense mais recente...), e da procura de um elo de ligação entre as várias épocas da Pré-história desta região, neste caso em torno da "arquitectura". Mais adiante, ao tratar das "aldeias", refere-se a uma "casa" mais importante e melhor conhecida no sítio de Mallaha (Eynan, Israel), onde há toda uma série de inferências a partir das realidades observadas, que se poderiam comentar em pormenor, porque apontam sempre para "funcionalidades básicas", assumidas como as mais prováveis. Mas há sempre algo que vem complicar... e diz-se (p. 19): "A maior parte do solo [ da dita casa] não apresentava qualquer objecto marcante. Estes estavam concentrados entre a parede e o que podemos considerar a lareira principal.Ao lado de utensílios que se diria funcionais, tais como pilões, utensílios com ranhura, utensílios de sílex e de osso, encontravam-se objectos cuja razão utilitária - no sentido mecânico do termo - não salta aos olhos. Nesta categoria, incluiríamos uma calote craniana humana, uma semi-mandíbula de cão, os restos de uma gazela morta, e um grupo de pequenos seixos de cores diferentes. Não se pode excluir que este conjunto heteróclito remeta para o domínio do mito e das crenças." Quer dizer, primeiro vê-se a dita casa como uma casa, identificando-se e deduzindo-se um conjunto de funções, e depois, naquilo que se não encaixa em tal preconcebido esquema, e dentro de um espaço cujo diâmetro varia entre 5 e 7 m., recorre-se ao domínio "religioso"... toda uma grelha interpretativa está aqui em filigrana que muito provavelmente é uma simples projecção das nossas dicotomias actuais e que de certeza não é a mais apropriada para abordar uma realidade tão distante de nós, no tempo e espaço, mas também, certamente, no modo de conceber o mundo, incluindo o espaço construído, como seria o destas comunidades do Pleistoceno final...
Portanto, um trabalho que se adivinha rigoroso, metódico, mas que se molda por quadros de interpretação pouco propícios à recepção do completamente diferente, postura por excelência do arqueólogo, sobretudo o que estuda a pré-história num momento crucial como este.

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