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segunda-feira, 30 de março de 2009

O visível e o invisível


Há um processo de produção que todavia não aparece à superfície: a escavação, em arqueologia, produz passado, que se destina ao museu, ao centro interpretativo, ao sítio, ao parque de visitas, à brochura, ao livrinho, mesmo à obra científica. Mas o processo de trabalho fica sempre um pouco na sombra: no supermercado do passado o que importa são os produtos acabados, prontos a "comer", a compreender, a consumir, apetecíveis, nas vitrinas ou estantes. O carácter comprensível do produto na sua total individualidade e abstracção, arrancado ao seu próprio processo produtivo.
Existem muito poucas obras (se algumas) onde o arqueólogo, em vez de descrever o que achou e de o arrumar numa história, faça a descrição exaustiva de como achou, tim-tim por tim-tim, quer dizer, EXPONHA o real processo de produção daquilo que produziu.
O mesmo se passa também na vida cá de fora: assim como o museu incorpora toda a vida, assim a vida se transformou num museu: nos expositores dos supermercados, dos centros comerciais, das lojas, os produtos brilhantes e apetecíveis estão prontos a serem metidos no carrinho de compras. Até nas livrarias já há cafés e sofás onde se pode hedonisticamente usufruir algo que está muito para além do livro: é um espaço museografado que se procura, a nova igreja contemporânea onde se encontra gente ou se está só.
Neste contexto, perguntei-me muitas vezes por que razão a nossa sociedade consumista não tinha mais produtos culturais para venda, junto aos ou nos museus por exemplo. Por que não usa mais produtos multimédia, também. Uma pessoa abastada via uma obra de arte de que gostava e dizia: quero uma igual àquela. Tecnicamente é possível. Público também há, mesmo em época de crise continuam a vender-se jaguares. Mas é compreensível por que razão se verifica o que existe, o modo de distribuição dos produtos: o intelectual quer o livro, vai à livraria; o abastado quer a peça antiga, vai ao antiquário (por isso os arredores dos grandes museus são bairros de galeristas ou antiquários); o público comum satisfaz-se com qualquer coisa; e se houvesse uma verdadeira possibilidade de escolha de produtos de substituição (réplicas, videos, etc) isso interferiria com a aura do museu (com a sua economia) e com a mais-vaila dos intermediários, dos mediadores, dos que explicam, dos que ensinam (e os quais, é claro, estão muito senhores ou senhoras de si, desse pequeno saber/poder). As pessoas infantilizadas seguem os guias. Pagam para voltar a ser crianças. O mesmo nas lojas: levam souvenirs, o museu em si mesmo é um arquivo pesado e inquietante, é para estar onde está: basta o recuerdo metonímico ou alegórico. A mesma lógica preside aliás a toda a vida e à encenação da ligeireza e da infantilidade que está ligada ao consumo. Quando em família, com as crianças e apesar da parafernália que as acompanha em deslocação, TODOS SE TORNAM CRIANÇAS e podem jogar o grande jogo da leveza. O pesado processo de produção e de sustentação das máquinas de lazer está oculto. É preciso que o artificial absoluto se apresente como natureza, como pura aparição, e que o consumo seja uma espécie de caça-recolecção, onde o cnsumidor advertido (todo o consumidor se pensa a si mesmo advertido, é um predador esperto) fareja de longe, secretamente, o alvo do seu desejo. Mas não há sangue nem violência, não há pathos: música ambiente e deslizar fácil do dinheiro, tornado abstracto, pelos cartões e pelas máquinas automáticas. É uma natureza indolor, interiorizada, bem educada, espelhada nas maneiras e espelhando as maneiras. Pessoas e objectos, todos se comportam bem; qualquer coisa, vem a limpeza ou a segurança remover. Pela primeira vez pode-se viver neste processo de infantilização ideológica toda a vida, desde que, evidentemente, se saiba desempenhar bem uma tarefa, um serviço. Mas estes também estão a tornar-se mais abstractos. O trabalhador deu lugar ao sujeito atarefado e sorridente, que desliza à vontade no seu território de compostura e autoridade/competência, confraternizando no bar quando necessário. É esse ar blasé, um tanto auto-irónico, todo maquilhado, todo luminoso e lubrificado, o do sujeito moderno. Descontraído, preparado para o prazer. Prazer de ser pateta e de gostar.
Light, smooth, brilliant.


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