I am not

I am not
quotation

sábado, 15 de novembro de 2008

excepto



Tudo teria ficado igual
Eras apenas mais um rosto
Uma máscara escondida sob os óculos
Escuros

Tudo teria sido indiferente
Eras apenas mais uma mulher
Uma máscara escondida sob o meio-
-sorriso

Tudo teria ficado quieto
Os pássaros do Douro parados
No meio do seu movimento
Como lâmpadas
No ar

Tudo não teria passado
De um equívoco súbito, logo
Esquecido sob as máscaras
Que povoam as manhãs,
A corrente dos rios;

E são levadas pelos inevitáveis
Torvelinhos
Da memória

Tudo teria sido trivial
Se não tivesses aparecido com os lábios
Picados por reflexos de sol
Por mil alfinetes
E não me tivesses implorado:

Tira-me,
Um a um; sofro
Ardores horríveis,
O fogo consome-me
As portas.

Extrai-me estes males do corpo
Um a um. Com precisão cirúrgica,
Com a arte do Mumificador.

Ardo. Ardem-me as janelas.
Tenho os lábios cravejados
De diamantes, é
Uma agonia lenta, lenta
Como as águas do Douro
Nos seus mil torvelinhos
Desaparecendo.

Trata-me, debruça-te sobre
O meu corpo todo, no meio da manhã
Estende-me. E extrai-me o fogo que
Me consome a beira dos orifícios,
Este enxofre que tenho nas narinas,
Este ácido que aureola o ânus,
As portas.

O sol vai carbonizar-me.
A manhã vai-me ser mortífera.
Vê como me brilha nos lábios,
Vê como o suplício
Me alfineta a boca.

Debruça-te sobre mim
Como o grande Alfaiate.
Morde-me em cada um dos
Alfinetes. Se o conseguires
Subirei contigo até à nascente
Até onde o rio encontra as montanhas,
E estas o céu.

Cura-me, alivia-me
Deste fogo que me arde nas molduras
Desta ânsia de aberturas,
Deste sol no ânus, na vagina
Caindo verticalmente!

Depois de tal veemência
Tudo poderia ter ficado igual
E quieto como antes.
Mas um comboio passou.
Mas um comboio escondeu-te.

E do outro lado, sem que o texto me visse
E na outra margem onde já
Não estavas
Consumei o que tanto me imploravas.

Um barco passou.
As folhas dançaram nos ramos.
E tudo ficou igual, tal qual
Como dantes
Excepto a minha boca
Em sangue,
O meu corpo cravejado
De diamantes.


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texto voj nov. 2008 porto

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