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domingo, 23 de novembro de 2008

Sujeito e conhecimento (apontamentos da aula do Prof. Paulo Tunhas de 21.11.08 na FLUP) - podem ter interesse para os estudantes e não só


É crucial distinguir dois aspectos:
o
epistémico e o epistemológico.

O
aspecto epistémico diz respeito à relação do sujeito com o conhecimento.
Esta relação tem a ver com a crença : dúvida, certeza, indiferença, etc, situam-se todas nesse plano. Para C. S. Peirce, por exemplo, a dúvida provoca irritação. A partir dos anos 60 do séc. XX desenvolveu-se toda uma lógica epistémica, relativa aos fenómenos de crença, cujas primeiras perspectivas foram avançadas por autores como Jaakko Hintikka.

O
aspecto epistemológico diz respeito à relação do saber, das teorias, com a realidade.

Há filosofias que privilegiam a primeira dimensão ou aspecto - epistémico - desde logo representadas por
Descartes.
Outras, privilegiam a dimensão epistemológica, como é o caso do filósofo das ciências
Karl Popper.

1 - Nas
Meditações Metafísicas (esse livro compõe-se de 6 meditações) Descartes começa pela dúvida, aparentemente na herança do cepticismo grego e de Montaigne (séc. XVI). Mas essa dúvida é muito mais radical, hiperbólica, extravagante em Descartes, embora esteja "programada" para ser superada. Nos cépticos gregos, a dúvida faz parte da própria estrutura do conhecimento. É uma recusa da tese e funciona como um motor de investigação (skepsis = investigação). Porém em Descartes a dúvida tem por fim ser substituída pela certeza. E por uma certeza metafísica ("científica", para ele) que deve ser absoluta. Ver uma obra importante sobre Descartes, de Martial Guéroult, "Descartes selon L' Ordre des Raisons", Paris, Aubier Montaigne, 2e ed. 2007.
É isso que se trata de adquirir com o conhecimento. E mesmo uma "certeza da certeza", uma certeza redobrada, ou seja, o grau máximo de superação da dúvida- disso fala Espinosa no 5º livro da
Ética, e também Fernando Gil, no livro A Convicção. Tal tema tem a ver com as modalidades da atenção, com a atitude do sujeito. Essa certeza da certeza relaciona-se com a crença. Também Wittgenstein numa das suas últimas obras fala da certeza.

2 - Popper -um grande autor da epistemologia da filosofia da segunda metade do séc. XX, publicou em 1934 (depois traduzido nos finais dos anos 50) o livro
A Lógica da Descoberta Científica. Ele desvaloriza a relação do sujeito com o conhecimento; a dimensão epistémica está aqui praticamente ausente. O conhecimento humano pertence a um mundo de teorias (mundo 3) que competem entre si darwinianamente pela sobrevivência. As teorias são filhas da mente dos autores, mas tornam-se entidades separadas daquela.
No livro
Objective Knowledge (princípios dos anos 70 do séc. XX) Popper distingue três mundos: o 1, o das coisas naturais, o 2, o dos estados de espírito objectivos, e o 3, o mundo das teorias. Estas não não apenas teorias científicas - abarcam a totalidade das criações do "espírito humano", incluindo as obras de arte, etc. Essas criações assumem uma realidade objectiva. Podem ser teorias matemáticas, teorias sobre a evolução da humanidade, por exemplo.
A Popper interessa a autonomia do mundo 3 - "não sou um filósofo da crença", declara. Por isso não tematiza praticamente as relações entre o mundo 2 e o mundo 3; isso não lhe importa.
Esta teoria de Popper é contra o psicologismo. Existe um mundo da realidade objectiva em que existem as nossas teorias, e que competem entre si. Essas teorias têm uma autonomia objectiva; ganham um estatuto autónomo e independente.
A luta contra psicologismo vem já de finais do século XIX, princípios do XX, procurando uma autonomização de todo o conhecimento em relação à psicologia humana. O seu primeito grande representante foi G. Frege. Esta corrente não concede grande impotância à dimensão epistémica. Combateu E. Husserl da primeira fase, o qual depois, sob influência de Frege, passou a ser anti-psicologista.
No séc. XVII temos um exemplo clássico do psicologismo na chamada École de Port -Royal, com por exemplo A. Arnauld e Nicole, discípulos de Pascal. Para eles, a lógica era um desenvolvimento da psicologia; ela diz-nos a maneira como nós pensamos. Os psicologistas em geral exigem a dimensão epistémica do conhecimento.

Posto isto, de Platão a Hegel, vejamos como se articulam os temas epistémicos e epistemológicos. Qual a relação do sujeito com o conhecimento?

Em
Platão encontramos as duas dimensões. Dimensão epistémica: o mundo das ideias é o mundo da verdade Há uma exterioridade do mundo das ideias em relação ao sujeito humano, ao seu conhecimento. Apesar da anamnese (v. Fédon) nós não temos um contacto directo e imediato com o mundo das ideias. Mas há também a discussão da relação do sujeito com o conhecimento.
Existe de facto uma oposição entre o que ele chama "doxa" (opinião) e o que chama "episteme" (saber, ciência para nós). Esta oposição é também epistémica, e não apenas puramente epistemológica; diz também respeito à relação do sujeito com o seu conhecimento. Na
República, Platão elabora o diagrama da linha dividida.Há várias formas de conhecimento. O grau máximo de conhecimento é an-hipotético, quer dizer, é um conhecimento que transcendeu completamente o estatuto de hipótese, é a certeza da certeza de que fala Espinosa, uma certeza redobrada. É dotado de uma espécie de brilho de evidência por oposição à opinião e mesmo aos conhecimentos epistemológicos.O an-hipotético em Platão consiste numa experiência do próprio sujeito.

Leibniz (fins do séc. XVII. primeira metade do séc. XVIII) avançou com o conceito de hipótese (como igual a conjectura) que é já o sentido que mais tarde lhe dará Popper.
Para Platão, hipótese é algo que colocamos na base do conhecimento para lhe servir de suporte. Não há portanto uma dimensão aventureira da conjectura.
Para Leibniz, quais são as características da boa hipótese? Ela é algo que nos surge como mais do que uma simples hipótese. São: a inteligibilidade (critério epistémico - tem sobretudo a ver com a relação do sujeito com conhecimento); a simplicidade (uma hipótese, uma teoria, é mais inteligível e eficaz se for mais simples; pode assim revelar-nos mais acerca da natureza do mundo; se uma teoria estiver cheia de hipóteses ad hoc ela é menos eficiente do ponto de vista da representação do mundo); a beleza (elegância, no sentido em que falam os matemáticos).
Pensadores como René Thom, Einstein, ou Popper pensam que a teoria quântia, por exemplo, acusa um défice de inteligibilidade, há dificuldades nela do ponto de vista epistémico.
Nos finais do século XIX, princípios do séc. XX Pierre Duhem defendia uma exigência da inteligibilidade, de abertura à compreensão por parte do sujeito, das teorias científicas.
No séc. XX, pelo contrário, a concentração do interesse faz toda nos aspectos epistemológicos. Já para Kant a dimensão do epistémico estava num segndo plano.

A
Crítica da Razão Pura, de Kant (1781) está dividida em duas partes. Porém, a maior parte do livro é consagrada à doutrina transcendental dos elementos (estética, analítica, e dialéctica - esta última tem a ver com a distinção entre ser e pensar - transcendentais). Está aqui em causa a importância das nossas intuições, entendimentos, categorias, no espaço e no tempo, e a dificuldade, ou impossibilidade, do conhecimento em sair delas.
A segunda parte, que ocupa apenas uma pequena porção da obra, é a doutrina transcendental do método. Qual é a base filosófica da ciência newtoniana? Nesta questão, a dimensão epistémica (relação entre a opinião e o saber) está arredada. Ela aparece apenas de passagem na doutrina transcendental do método.
Há aqui um corte com o passado filosófico: uma sub-valorização do epistémico em relação ao epistemológico. Grande parte da filosofia do século XX reclama-se dessa herança kantiana, por exemplo, o neo-positivismo.
David Hume, que escreveu o Tratado da Natureza Humana (séc. XVIII) inspirou Kant. Nessa obra, ele discute toda a questão do conhecimento a partir da noção de crença ("belief"). A noção fundamental que aparece em Hume para a questão do conhecimento é epistémica.
Hume pergunta: que justificação temos nós para acreditar na regularidade dos fenómenos naturais? Certos filósofos, anteriores e posteriores a Hume, defenderam que é por razões emotivas.
Mas para ele, essa crença não é susceptível de justificação racional. É inevitável os seres humanos acreditarem em regularidades, mas elas não oferecem tal justificação. A crença é compulsiva, necessária, serve-nos de orientador, é indispensável à sobrevivência. As ciências da natureza, por exemplo, permitem-nos criar expectativas em relação ao mundo.

Em
Kant, o sujeito transcendental tem o mesmo estatuto do eu de Descartes. É impessoal, fora de qualquer concreto. Vamos aliás encontrar isso na nossa época em Piaget. O sujeito do conhecimento é um sujeito abstracto, serve de assento ao conhecimento, mas não o sente. Opõe-se a sujeito concreto. O sujeito de conhecimento experimenta afectos intelectuais (Espinosa); sente a dúvida, por exemplo. O sujeito intelectual, ao contrário, não tem afectos individuais. Os sujeitos abstractos são distintos dos sujeitos concretos, mas servem para pensar estes últimos.
Em Kant só é possíve pensar com as categorias a priori do nosso espírito. Essas categorias são imutáveis (para outrs autores, tais categorias são mutáveis, e não são a priori).

Cepticismo, pois, de
Hume: a crença não é justificável por um processo indutivo. Não há qualquer espécie de justificação da crença - e esta, apesar disso, orienta a nossa existência. O facto da crença não ser justificável não quer dizer que não seja operatória - ela é mesmo impossível de evitar.
A filosofia posterior vai tentar justificar a crença em termos emotivos.

O neo-positivismo foi um anti-psicologismo.
Rudolf Carnap é um dos seus mais destacados elementos. H. Reicenbach outro. Eles procuraram uma justificação epistemológica para a crença - fundamentar o epsitémico pelo epistemológico.

Em Hegel há fusão do epistémico (relação do sujeito com as teorias, recorda-se mais uma vez) e do epistemológico (relação das teorias com a realidade).

Antes, para certos autores, as teorias representavam a realidade. Tal é uma relação de representação, a qual é externa - essa ideia de exterioridade está no cerne dessa concepção. A nossa intuição é a da verdade, da verdade como correspondência. Nesse ponto de vista, uma teoria é verdadeira se representa a realidade.

Toda a filosofia de Hegel (por oposição a Kant) é uma crítica da exterioridade e das relações externas. Para Hegel a verdade não é representativa, não se constrói como uma representação, decalque do mundo exterior. Ela é o produto da actividade do sujeito. Encontra-se numa relação interna com o sujeito.
O que é o sujeito em Hegel? Não é um sujeito psicológico que se define por oposição ao objecto. O sujeito em Hegel representa toda a humanidade no processo de desenvolvimento do seu conhecimento, uma recapitução, que se realiza no próprio Hegel (por muito megalómana que possa parecer, e essa a sua concepção).
Em 1807 Hegel publica A Fenomenologia do Espírito. Aí retrata todo o desenvlvimento da história humana para mostrar que ela chegou a um fim com o próprio Hegel, que recapitula a história passada. O sujeito não é um indivíduo particular. É a história humana toda que é recapitulada por Hegel (espécie de anamnese à maneira de Platão). O que ele chamou Erinnerung ganha sentido através da recapitulação que ele faz. O sujeito não é abstracto (como acontece em Kant ou em Piaget). O sujeito é o próprio processo da verdade. Há uma completa eliminação da exterioridade em Hegel ( a sua "bête noire").
O epistemológico em Hegel é absorvido pelo epistémico, pela relação do sujeito do conhecimento - este último é produto do desenvolvimento do sujeito. Aqui está considerado um máximo de inteligiblidade do sujeito: o que eu tenho a comreender são os gestos do meu espírito, mais inteligíveis do que é exterior ao meu espírito.
Hegel visa ois aqui a inteligibilidade máxima. Tudo está na inteligibilidade do sujeito. Absorção do epistemológico pelo epistémico.
Todo o processo de conhecimento humano é concebido como o desenvolvimento (recapitulação por Hegel) que conduz ao saber absoluto. Há aqui uma forte carga epistémica. Não é um saber exterior, designa a maneira como o sujeito se apropria de toda a realidade. O saber absoluto é a apoteose da dimensão epistémica.
O espírito humano é que pensa. O sujeito ao qual se refere o conhecimento absoluto não e o indivíduo isolado, é a própria humanidade tal como e concebida por ele.
A certeza sensível é a certeza que temos em relação aos objectos dos nossos sentidos. Através de várias etapas (superação ou sublimação de cada etapa na seguinte) vai-se progredindo até chegar ao saber absoluto.
A certeza sensível caminha até ao espírito absoluto.
Dos gregos, até ao próprio Hegel há, na sua concepção, um pleno desenvolvimento do espirito. A humanidade inteira vem concretizar-se em Hegel (esta é uma concepção um pouco delirante, do autor, mas...)

Encontramos formas mais radicais deste privilégio concedido ao sujeito em autores como Fichte (filósofo alemão que se situa entre Kant e Hegel) e Paul Valéry, poeta francês, ambos dos finais do séc. XIX, inícios do séc. XX.
Fichte diz que só podemos compreender o que nós próprios produzimos. Compreender uma filosofia é de certo modo ser capaz de antecipar o que o autor pensa. Compreender é conseguir reproduzir em nós mesmos os processos de pensamento do autor: reproduzir através do nosso pensament aquilo que se trata de compreender. O eu projecta, através da acção de imaginação, um não-eu, que é o mundo exterior. Este descobre-se numa exterioridade que foi criada pelo próprio sujeito, e por isso é que ele, mundo, é compreensível.
Para Valéry nós só podemos compreender as operações que podemos executar, como por exemplo em matemática; mas isto vale para tudo. O epistemológico encontra-se sob a alçada do epistémico.


Para aqueles que entendem a verdade com correspondência, tudo o que é susceptível de uma representação que seja verdadeira é algo de exterior. A interioridade tem a ver com a nossa percepção dos nossos estados mentais. Há uma relação da primeira com a terceira pessoa, por exemplo na filosofia da mente contemporânea.
Os qualia são estados mentais pessoais intransmissíveis, aos quais apenas a primeira pessoa tem acesso. A interiordade não é redutível à pura exterioridade. O ondivíduo concreto tem uma experiência concreta de qualia.

Wittgenstein nega um privilégio da primeira pessoa, mas há na sua filosofia algo de complexo (e variável ao longo do tempo), pois, apesar disso, há uma certa capacidade da primeira pessoa: a dor só é sentida por mim.

A movência estruturalista e o pós-neo-positivismo constituem-se como uma crítica do sujeito, uma negação do epistémico.

Em Jacques Derrida há uma crítica do sujeito, uma crítica da evidência.

Muitos outros não perdem de vista a dimensão epistémica do conhecimento - por exemplo, Fernando Gil.
Nomes como Roderick Chisholm e Hector-Neri Castañeda situam-se nos antípodas do desconstrucionismo, valorizando a dimensão epistémica do conhecimento.

O desconstrucionismo (Derrida e outros) sustêm-se numa crítica do epistémico que não é compensada por uma revalorização do epistemológico.
O epistémico e o epistemológico são desvalorizados neste autor.
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Nota: estes apontamentos estão sujeitos a correcção pelo autor da aula. Certas repetições são próprias da oralidade e são, a meu ver, muito úteis.
Qualquer correcção será feita, se e onde necessário, após a sua revisão.
Até lá, eu sou o único responsável por qualquer gralha ou má interprertação resultante da minha percepção da lição, dos meus apontamentos, (14 pp. A4) e da minha falta de preparação em filosofia.
Estes elementos são úteis, creio, para todos.
Este blogue visa aliás contribuir para superar a superficialidade/banalidade que muitas vezes caracteriza esta forma de comunicção/expressão (com ridicularias até à náusea), dentro das minhas capacidades e competências que, como as de qualquer pessoa, são muito limitadas, por maior esforço que se faça. Visa-se assim também contribuir para uma cultura de não facilitismo nem de mais ou menos. Uma cultura aberta, acessivel, mas exigente.
Isso implica trabalho constante.

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Foto acima: d.m.
Fonte: http://egipciadffm.blogspot.com/



2 comentários:

Vitor Oliveira Jorge disse...

Comentário de Leandro Surya (Brasil), enviado por mail, e que me permitiu publicá-lo (transcrevo):
Achei muito instigantes as suas anotações sobre o curso do Sujeito e conhecimento ministrado pelo prof. Paulo Tunhas, principalmente por aproximar-se das leituras que estou mantendo atualmente. As relações entre os aspectos epistêmico e epistemológico me soam um pouco parecidos com transformações do pensamento arqueológico. Frege, Russel, Wittgenstein e posteriormente Popper ao valorizar o epistemológico poderiam ser situados próximos das mudanças buscadas pela New Archaeology ˆ um afastamento do sujeito e do objeto de pesquisa e busca generalizações ˆ e por oposição Fichte e Valéry ao valorizar o epistémico, desta forma, sustentando a importância do caráter do indivíduo, poderiam ser situados próximos do pensamento pós-moderno na arqueologia ˆ ao reconhecimento dos papeis do indivíduo, da sua história, do seu subjetivismo destacados pela arqueologia pós-processual. Claro que este paralelismo de idéias não possui nenhum valor, todavia, serve para expressar um pouco as minhas angustias e conflitos sobre o pensamento arqueológico. Refiro-me as transformações entre o Processualismo e o Pós-Processualismo, das mudanças ocorridas entre uma busca de cientificidade e a aceitação de um subjetivismo intrínseco e inegável. No meu caso estou a estudar o processo de escavação arqueológica e este dentro de uma perspectiva processual justifica todas as medições e leituras que de tão precisas tornam-se quase cientificas. No entanto, para uma leitura de escavação mais atual, digo, pós-processual toda a certeza da escavação perde o sentido. Se as interpretações estão carregadas de subjetivismo e são frutos de uma visão pessoal do arqueólogo qual o sentido em manter toda uma estrutura formal? E ao mesmo tempo como podemos nós arqueólogos abrir mão dos registros e do caráter positivista de uma escavação tradicional? Estou a trilhar estes caminhos duvidosos, não sei se vou encontrar alguma saída neste labirinto, mas por enquanto indago-me sobre a validade de todo este debate. Abraços, Leandro

Vitor Oliveira Jorge disse...

Totalmente de acordo consigo, Leandro, como aliás podem testemunhar os meus alunos. É até uma curiosa coincidência. É que após ouvr o Prof. Paulo Tunhas, e antes de ter recebido o seu mail, fiz esse mesmo paralelo numa aula. Creio que a filosofia nos ajuda enormemente a cartografar o pensamento contemporâneo e, dentro dele, como um sub-campo, o arqueológico, desde que não se torne demasiado rígido qualquer esquemas desses. Mas é por isso que estudo filosofia, dentro das minhas limitações.
A poesia é o meu artesanato, tal como a arqueologia. É onde sei construir coisas.
E a curiosidade pela filosofia,incluindo a que deriva da psicanálise, o outro lado complementar, mais meta-reflexivo, tentando dar sentido ao que vou fazendo, ao que é a vida.
Cada um de nós tem de encontrar a sua cartografia pessoal e os seus trajectos nesse mapa. Ironicamente, iremos para o túmulo sem saber nada. Talvez possamos parar o cortejo, sair do caixão, e pedir um adiamento; dêem-me mais uns minutinhos antes de me porem a sair de alimento aos bichinhos do solo, orque estava aqui a ter uma ideia... a encontrar um link... agora é que era!
Tarde demais, dirá o coveiro, que tenho outra "gente" para enterrar e tenho de ir para casa comer o meu bacalhauzinho com todos. Helas.