domingo, 23 de novembro de 2008

fotografia: algumas notas preliminaríssimas


Fotografia, desejo de posse... “Posse” sexual, “posse” (fantasia) erótica - ver por exemplo o filme paradigmático de Antonioni, “Blow up”...
E portanto também pulsão de morte, fascinação produzida pelo cadáver...
Fascínio nostálgico pelo resto, pelo vestígio, pelo testemunho...
De cujo fetichismo a arqueologia é apenas um sintoma entre muitos...
Mas cujo ápice se vê na fotografia (e em geral) na imagem pornográfica, que nos atrai tal qual como nos atrai o cadáver: a exposição total do outro como objecto “disponível” à nossa contemplação voyeurista e solitária (claro que toda a gente nega isso em público e condena como obsceno, isto é, fora de cena, que deve sair de cena, como se não fosse sempre o que só se entrevê que verdadeiramente nos atrai e eventualmente seduz!). O que se passa com a pornografia, porém, e daí a frustração das pessoas, é que ela revela, ao mostrar tudo, que não está lá nada, isto é, revela da forma mais perfeita o álibi da imagem, do ícone: o ícone não representa nada, representa-se a si próprio.
(A pornografia não apela à acção com o outro, mesmo quando o outro pornografado nos olha insistentemente, como se quisesse ser cúmplice do nosso olhar “maravilhado” - o "gaze" dos ingleses).
Nesse sentido, de aproximar enormemente a suposta intimidade do outro, evitando o seu contacto, o seu contágio, a nossa sociedade é ontologicamente pornográfica, a pornografia (aliás, como o turismo, uma das maiores “indústrias” em expansão) é-lhe constitutiva.
As tradicionais fronteiras entre o erótico (permitido) e o pornográfico (proibido) estão a esbater-se...
Veja-se por exemplo a notícia do "The Guardian" (Tuesday October 4 2005) a propósito do conhecido fotógrafo japonês, tão divulgado pela Taschen: “Dirty pretty things Nobuyoshi Araki has been called a monster, a pornographer and a genius - and the photographer quite agrees. Adrian Searle sees his extraordinary new show”
tendo uma legenda de uma fotografia esta frase: “His libidinous images are driven by subjectivity and desire.”
Outro exemplo: o checo Jan Saudek (igualmente publicado pela Taschen), que diz: "I still dream of the day when I will take a photograph so beautiful that it can be called love." (a propósito do lançamento de um seu livro com imagens de homens e de mulheres, lançado por aquela editadora). Como “arte” (num sentido que contribui para indistinguir arte e técnica) prototípica da modernidade (séc. XIX e seguintes), a fotografia situa-se no afiado gume entre a vida (o desejo) e a morte (a frustração, o luto), na medida em que ela constitui a identidade e a memória modernas como desejo, e ao mesmo tempo este alimenta-se do seu próprio horizonte de impossibilidade. Um desejo nunca se cumpre, ou então desaparece para dar lugar a outro. A fotografia faz viver uma nova realidade, que nunca tínhamos visto antes, e congela, cadaveriza, codifica essa vida num arquivo infinito antes inimaginável. Esse arquivo simboliza o nosso desejo (diríamos insensato, infantil) de totalidade, de fulfillment, de jouissance
A fotografia está assim inevitavelmente ligada ao luto e à nostalgia, ao desencantamento do mundo moderno, da perda da aura de que fala Benjamin. Ou seja,à substituição do modelo (imagem única) pela série (imagem reproduzida/reprodutível pela técnica) de que fala Jean Baudrillard em “O Sistema dos Objectos”. Mas está também relacionada com um formidável dispositivo de observação, registo, documentação, identificação, judicialização, repressão, que se liga ao Estado, à docilização moderna da consciência/corpo dos sujeitos, a um fantástico (fantasmático) aparelho de controlo, que cada um de nós imita e reproduz quando “tira” uma fotografia ou é fotografado.
Fotografia, morte, memória, luto, nostalgia, arquivo, codificação/indexação, identidade/identificação: eis palavras que andam entre si "coladas"...
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Foto (rep. aut.) : Pawel Sujecki
Fonte: http://strony.aster.pl/pas/nude.html



2 comentários:

A. disse...

Professor,
Muito me honrou a sua visita.
Nunca pensei receber num blog meu, Vítor Oliveira Jorge que tanto me ajudou sem o saber a fazer a cadeira de Pré-História.
Fez-me recordar o meu primeiro ano da faculdade.
:))
Dia 25 tenho a manifestação(sou professora) e por isso não poderei ir. De qualquer modo, muito obrigada pela visita e convite.:)
Muito sucesso para o seu livro.
Sobre este post, adorei o seu ponto de vista sobre a fotografia.
Beijinhos
Ana

Vitor Oliveira Jorge disse...

Fico muito contente por isso!
Visite o blogue de vez emn quando!
Felicidades e beijinhos
V.