sábado, 22 de novembro de 2008

balões





Deixa o rio fluir.

Deus atou-nos
A este enigma

E partiu
Com um riso louco.

Ficámos sós
Com a corrente.

Sós
Com as lâmpadas acesas
Das estações desertas
Do Alto Douro.

Sem poder acudir ao gato
Agonizante.

Com os bancos à espera
Dos passageiros
Do passado,

E ouvindo
Esta batida dos tacões
Sobre o metal
Da linha;

Sentindo este cheiro
De alcatrão
Em que se dissolvem
Os comboios por vir;

Erguendo as mãos
Sobre a agonia;
Elevando os pés
Sobre os músculos
Da noite.

As luzes acenderam-se
E Deus lançou os dados,
Mas logo partiu
Com uma gargalhada
Dos diabos,

A esconder a sua capa vermelha
No escuro.

Ficámos sós
Com o corpo
Entre cadeiras,

Vendo os vestidos
A serem levados pela corrente,

E as corolas abrindo-se
E escoando-se
Rapidamente.

Mas tudo isso
Já o sabíamos
Há muito!

Por isso corro pela estação
Em demanda dos teus lábios;

Encontro-os deitados
No meu colo

E não sei bem
O que me pedem.

Acaricio-te o peito,
Essa suavidade,

Oh meu deus, como a acaricio
Lentamente,
Com todos os meus sentidos
Virados na direcção
Do rio;

E assisto ao crescendo
Da Respiração,

Ouço a corrente,

Vejo os pássaros cantarem
Em plena noite.

Olho-te implorando,
Vejo o gato pedindo,
E pergunto-me:

Meu Deus, e a mim,
O que me cabe agora
Fazer?!

Os balões explodem
No meu cérebro.
Os balões de luz.

Só tenho os teus lábios
Como orientação,

Antes que a corrente
Também a arraste,

E as imagens
Do desamparo
Se estiquem

E rompam
Algo de virginal
Que apesar de tudo

Existe neste Enigma!

Nas estações
Do Alto Douro

Mergulhadas
No seu negrume


Largo pois também
Os meus lábios
Aos fluidos
À atmosfera


Às flores
Dentro da noite,


Aos balões acesos
Que se acendem
Pouco a pouco

Oh meu deus, quão
lentamente,

Dentro de ti.


_____________________________
Foto: Bogdan Zwir
Fonte: http://www.zwir.ru/zwir.htm

Texto: voj porto novembro 2008

2 comentários:

Helena Branco disse...

o que permaneçe enigma...desafia o porvir...
Chama em balão de um olhar
na penumbra...enxameia o apelo do gato...sem acudir á respiração que morre nos lábios do banco dentro da estação
Onde só passa a tua sombra e o meu passado...
Ao digº Vítor Oliveira Jorge pelos balões-luz que soltou no seu Poema e que aqui lhe devolvo em jeito de Comentário...Obrigada helenabranco

Vitor Oliveira Jorge disse...

obrigado.
Vitor
até à próxima alumiação.