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terça-feira, 18 de novembro de 2008

João de Pina Cabral na "Ciência hoje"



O antropólogo poeta

João de Pina Cabral reeditou «Aromas de Urze e de Lama: Uma viagem antropológica ao Alto Minho». Conheça a exposição com as ilustrações do livro por Ruth Rosengarten no museu de Etnologia em Lisboa *

2008-11-17

Por Marta F. Reis (Texto e foto)

"João de Pina Cabral"Aromas de urze e de lama/Dormi com eles na cama/Tive a mesma condição/Povo, povo, eu te pertenço/Deste-me alturas de incenso,/Mas a tua vida não".
A voz de Amália enche o piso -1 no Museu de Etnologia na Av. Ilha da Madeira em Lisboa. Na meia luz, há dezenas de ilustrações emolduradas, vestígios de fotografias com desenhos simples por cima, retratos de uma ruralidade num tempo que passou.

*João de Pina Cabral é Investigador Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Doutorou-se em Oxford com a tese publicada "Filhos de Adão, filhas de Eva". Foi Presidente da Associação Europeia de Antropólogos Sociais (2003-2005) e é Membro Honorário do Royal Anthropological Institute. Nos anos 90, dedicou-se ao estudo de Macau. Mais recentemente tem vindo a estudar a relação entre nomes e pessoas no Baixo Sul da Bahia (Brasil).

Contextualizando, o Alto Minho há 30 anos atrás, dito em imagens assinadas por Ruth Rosengarten, um arado no meio da sala e um filme rodado nos anos 90, "Regresso à Terra", de Catarina Alves Costa, sobre essa mesma identidade de costumes, projectado numa parede. O mote para a mostra é o livro que acaba de ser apresentado no andar de cima. Tem no título as palavras do poema - depois fado - "Povo Que Lavas No Rio", de Pedro Homem de Mello, "Aromas de Urze e de Lama". É uma reedição e um gesto de etnopoética.
Ante a palavra, cabe dizer que a obra mostra o antropólogo e autor João de Pina Cabral no terreno, a viver enquanto estuda um momento de "vidas e mortes dos camponeses minhotos, das suas noções, dos seus fantasmas, dos seus amores, dos seus medos – recentes ou antigos, verosímeis ou fantasiosos". Em 1992 publicou pela primeira vez o livro, 10 anos antes a tese de doutoramento (Filhos de Adão, Filhas de Eva) que o levou a terras de Ponte de Lima e a pessoas que, diz a certa altura, lhe marcaram mais que tudo a vida. Ciência Hoje falou com o investigador sobre o lado poético do cientista social.

CH - Como descreveria este livro?

João de Pina Cabral - O livro que acompanha esta exposição é um livro que escrevi sobre a experiência que levou à produção da minha tese. Quando a acabei e sobretudo uns anos depois, quando as pessoas com quem eu tinha trabalhado mais começaram a morrer, senti que havia muitas coisas para contar do lado humano dessa experiência. Este livro é uma resposta ao que fica quando fazemos investigação em ciências sociais, quando trabalhamos em pessoas.

CH - Mostra uma dimensão diferente do antropólogo?

JPC - Entramos em contacto com pessoas, conhecêmo-las, perguntamos-lhes coisas. E daí resultam amizades e histórias.Conhecemos coisas que às vezes, do ponto de vista científico, nao são interessantes mas que do humano são. Há histórias humanas riquíssimas que às vezes numa abordagem científica usamos um aspecto ou outro mas depois deixamos cair. Este livro é uma reflexão completa sobre "o outro".

CH - Porque é que se dedicou ao Alto Minho?

JPC - Escolhi o Alto Minho como podia ter ido para outro sítio qualquer. Estava interessado em estudar a sociedade rural portuguesa e o processo de alteração ( emigração, a urbanização e a sociedade de consumo) que estava a ocorrer na altura. Escolho o Alto Minho também por ser um dos lugares mais bonitos de Portugal.

CH - Foi uma investigação marcante?

JPC - Este livro é todo sobre o que me marcou. O que me tocou mais foi as pessoas. Houve amizades que fiz inesquecíveis. Este lado das Ciências Humanas e Sociais é poucas vezes narrado e foi isso que quis mostrar.

CH - Sente-se, como disse António Feijó na apresentação da obra, um antropólogo dividido entre um lado peregrino e um lado cartógrafo?

JPC - Acho que ele apanhou muito bem esse aspecto dúbio de vivermos com a vida de outras pessoas e ao mesmo tempo estar escrever sobre o que nós experimentamos. Isso cria uma divisão em nós próprios... é um gesto duro. Não foi um trabalho fácil de fazer, foi duríssimo. Eu era muito jovem e estava a trabalhar com uma sociedade que estava a viver um momento problemático, o pós-25 de abril e o contacto com a sociedade de consumo.

CH - Descobriu na altura o poeta Pedro Homem de Mello (1904-1984)...

JPC - Este fado que dá nome ao título foi o que me fez ter consciência da sua importância. Nós não tinhamos uma opinião boa de Pedro Homem de Mello, associávamo-lo ao folclore. Mas nesses versos de "Povo que Lavas No Rio" ele consegue caracterizar essa duplicidade, essa dualidade de quando estamos a fazer um trabalho social. Aproximamo-nos e ao mesmo tempo distanciamo-nos, cria-se uma espécie de conflito dentro de nós mesmos. "Povo eu te pertenço (...) Mas a tua vida não".

CH - Esta abordagem mais vivida da antropologia é tradicional?

JPC - Há muita gente a fazer isso em muitas áreas mas a antropologia é uma ciência social que sempre teve ao seu lado esta dimensão mais humanista.

CH - A que chama etnopoética...

JPC - Sim, esse lado experiencial, humano da investigação. Esse lado da investigação que nos envolve a nós próprios na integralidade. É algo que assenta numa reflexão poética mas é como a ciência, acompanha-nos, faz parte da investigação.

CH - Na apresentação comparam-no às "Viagens na Minha Terra" de Almeida Garrett. Já tinha pensado nisso?

JPC - (risos) Sim, já tinha pensado nisso... Quem é que escreve uma coisa em Portugal sobre viagens que nao pense nas "Viagens na Minha Terra? Afinal não é tão longe daquilo que Garrett fazia na sua altura, repensar a sua pátria e a situação social. Ele na altura estava a escrever o nacionalismo, nós agora estamos a desconstrui-lo.

CH - É importante este voltar atrás?

JPC - Eu acho que não precisamos de pensar nas origens mas temos de pensar na História. A História faz falta a toda a gente, é um capital adquirido e uma das coisas com que temos de saber trabalhar é com a sua complexidade. Se optamos por um história monofactorial, muito reduzida, ficamos muito pobres. Histórias como estas são a tentativa de ligar coisas, de ligar universos diferentes. Aqui por exemplo temos vários aspectos, ilustração, filme e o livro. Não dizem todos o mesmo e falam todos dessa sociedade rural. Vai-se lá agora e já não se encontra nada disto. "

Fonte:
http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=28449&op=all

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