sábado, 29 de novembro de 2008

molhar-te



quanto desejava molhar-te
aspergir-te
do sal destas ondas

do brilho destas escamas
quanto


quanto desejava afogar-te

comer-te
temperada com saliva e sal
com o brilho destes peixes

que saltam do mar

e saltam

do interior da onda

directamente para o meio

dos teus seios

abrindo as conchas

da maresia,
afastando as válvulas
da embriaguês.

e eu ia

para o mar

e não me detinha

na sua margem

quanto


quanto te queria toda

molhada

com as duas luvas erguidas
viradas para o poente

com os lábios

pedindo: sal, sal, sal


e tu saías da areia
em toda a tua pele,
em toda a solaridade
do teu corpo,

e as tuas costas
vinham já molhadas

dessa velocidade
desse cheiro acre

do peixe, das escamas quando abrem

dos lábios quando se afastam
,
das cortinas azuis

que se estendem todas, totalmente,
e pedem a onda


oh quanto

desejava a tua juventude

para a arpoar, erguer

entre cordas de linfa e sangue
num estertor de peixe

num ruído de escamas

numa congestão de iodo


quanto

me aproximava das falésias

do seu rebordo perigoso, e não

me detinha, perdendo-me

neste odor compacto,

nesta boca de peixe
nestes lábios líquidos
e perigosos
nesta praia virada

para cima


sempre mais acima, erguia
a tua cintura, e tu molhada,

e tu salgada, e tu cortada, e viva
gritavas: corta-me, salga-me, asperge-me,

dá cabo desta monotonia.


deita ao céu todos os livros

deita ao iodo todos os apontamentos

deixa voar as pautas
que o conhecimento só adia

este momento da sofreguidão

de te saborear, posta em cima do fogo,

como vestal oferecida simplesmente

contra o bafo alaranjado do oceano

simplesmente deita-te

deixa só o umbigo

por onde entrar o mar
este odor a ovas, este tacto de escamas
esta praia erecta, completamente traçada
pelo sol


e eu risco um fósforo
por debaixo do teu lombo,
pego-te
posta a posta

corto-te com a faca
do pescador

que se acerca do seu festim

e quer secar a tua humidade


mas nesse limite não paro

e nessa espinha me alongo

quando sobre o mar as estacas

te trazem alta, jovem,

com o sol nas nádegas,

com a lua no lombo,

com as estrelas em volta

dos lábios.


com o sexo roxo
cheio de algas e esponjas,
e os olhos atravessados
por anémonas
cheias de uma intenção, mesmo
fortíssima

bebo a tua humidade,
sal, sal, sal, sal, sal.


asperge-me, sacraliza-me, come-me
na tua juventude,
na solidez das ancas, no veludo
das aberturas, arpoa-me


neste desejo insensato.


apanha-me de surpresa.

vinga-te.


toda molhada.

como um cavalo cheio de suor.
coberto de escamas.

virado na direcção do mar
para além do mar
entre baterias
quanto!

como um cavalo de cujas narinas
saem constantemente, voando,
peixes

cheios de uma

humidade terrível,
de um arfar
no seu extremo limite

- vorazes de infinito.



_________________
Fonte da imagem: http://www.sachafedor.eu/index.html
Autora: Sacha Fedderowsky
Texto: voj nov. 2008 porto

4 comentários:

Vanessa Pelerigo disse...

Damn good. Parabéns pelo poema.

Faz-me lembrar um texto que escrevi no ano passado.

Se me apareces à frente nem sei o que te faço. Suspeito que o desejo engoliu-me o sono e o bom senso. Respirar arde-me. Pensar-te custa-me.
Na minha cabeça só a imagem das carícias a roçarem-te a cintura, do teu olhar no meu decote, dos dedos a manipularem o êxtase, da boca a conjugar-se nos teus lábios. Só a força dos meus pulsos, do meu corpo contra a pele do teu peito a gemer a madrugada que há de vir. Qual cio, qual pudor, a tudo alheio.
Vem, despe-me a blusa, tira-me as meias devagar com o branco dos teus dentes. Na minha nudez estão todos os pecados. Treme a tua sombra, quando me deito. Aperta-me. Estreita-me mais no teu abraço. Lentamente. Afina o meu corpo pelo ouvido do teu tacto.
Eu prometo que te escalo o ventre. Que te ateio o lume breve dos olhos. Subo por ti de gesto em gesto. A minha boca a desfazer-te o colo, a descobrir o gosto. Arfar como quem respira.
O suor, carne na carne, o sémen. O teu prazer aceso. Depois o grito.

Vá, não páres. Há muito amor por fazer esta noite.

É o regresso, é o silêncio a dar lugar à ternura.

Vanessa Pelerigo

Vitor Oliveira Jorge disse...

God! E agora, como concilio o sono? Por favor, diga-me que o texto foi escrito há muito, muito, muito tempo.

Continue nesta onda - se conseguir. Fantástico.

God!

Vanessa Pelerigo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vitor Oliveira Jorge disse...

Marota.