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terça-feira, 11 de novembro de 2008

avalancha

Aquilo que está em crise na vivência contemporânea é a atenção.
Os indivíduos (isso afecta sobretudo os jovens) não são capazes de se concentrar suficientemente em tradicionais objectos de atenção, e as causas desse fenómeno são muito mais estruturais do que circunstanciais. Os valores estão deslocalizados, tornaram-se voláteis, e os indivíduos têm a sua afectividade deslocalizada também - implodida no seu cerne. Procuram incessante e desesperadamente, sem às vezes disso terem noção, objectos em que se fixarem, em que investirem a sua libido. Mas a desilusão segue-se a cada desejo. Essa desilusão feita vivência contemporânea é o próprio ar que respiram os jovens. São então pasto das mais variadas formas de alienação: indiferença, passividade, agressividade, violência, etc., etc.
Estes problemas são estruturais, inerentes ao capitalismo na sua forma mais feroz e amoral até hoje conhecida, e não são passíveis senão de paliativos para irem adiando o rebentamento da bolha.
A solução para eles passa pela acção política, mas como esta se tornou no melhor dos casos reformadora (a revolução violenta só aumenta os problemas, embora em certos casos talvez venha a ser inevitável, infelizmente, e assumindo feições inéditas), não acompanha a velocidade alucinatória do sistema, para o qual se não encontra solução à vista, a não ser na mente dos simplistas ou tecnocratas que reduzem esta complexidade a causas simples, ou confundem sintomas com problemas estruturais.
Estamos debaixo de uma avalancha, e em estado de sítio. É o salve-se quem puder, escapando cada um para onde e como pode. Comportamentos de risco e cada vez mais vigilância e policiamento. Sucedem-se explosões de cólera, manifs, recalcamentos, consumo de todo o tipo de medicamentos, fugas. Uma escalada patética.
Felizes dos artistas, que ainda têm algo que os concentra. Porque se concentram no cerne do que lhes dá um intenso prazer, o prazer necessário ao equilíbrio da pessoa humana, para que esta possa estar aberta aos outros, sem demasiado ressentimento. Pessoas destas vão rareando. Há também as que sublimam melhor, e disfarçam muito bem.
O mal-estar estrutural que se apoderou de todos nós é inevitável num sistema exacerbado de consumo que nos comsome e do qual não podemos de modo algum sair; pelo contrário, cada dia mais vigilantes, cada dia trabalhando mais, cada dia consumindo mais produtos de fuga (turismo, deslocalização da atenção para alvos sempre novos, e tudo o mais que escuso de enunciar).
Só há uma solução: aumentar os níveis de consciência pública desse invisível, dessa estrutura, dessa causa de longo prazo, e não entreter as pessoas com pequenas reivindicações, protestos localizados, petições ,assumindo uma cidadania e um direito que, na prática, está muito erodido.
Manter-se activo e desperto, pensar, tentar pensar criticamente, tornou-se hoje um elemento maior de humanização, de dignidade.
Denunciar não os sintomas, que todos conhecemos, mas as causas estruturais deste desencanto, deste desespero, desta FALTA.
Quem, como e quando a preenche?
As pessoas esbracejam, multiplicam-se em funções, entretêm-se em causas, esfalfam-se para viver, dão escapadelas, e são uma multidão de homens e de mulheres nus, desprovidos.
Apanhados na malha das contradições e paradoxos que formam a estrutura subjacente do mundo em que vivemos, do ar que respiramos, dos dispositivos que conformam a nossa própria afectividade, desejo, margem de crítica, e as integram como elementos dinamizadores do sistema louco, amoral, aberrante e, no entanto, com a força de uma cheia ou de uma avalancha que leva tudo consigo.
Passámos de uma sociedade de risco a uma sociedade do estado de sítio como "modus vivendi".
Considerem estas palavras apocalípticas e continuem, a ver o que dá.


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