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terça-feira, 11 de novembro de 2008

alienação



O processo alienatório contemporâneo de tipo democrático consistiu fundamentalmente na constituição de uma nova forma de subjectividade: chamar o indíviduo, como pessoa autónoma, para o lado do poder regulador, mas não de forma autoritária (fascismos, nazismo, estalinismo), de fora para dentro, mas de forma maximamente sedutora, de dentro para fora. Ou seja, cada indivíduo deve desejar ardentemente ser sujeito, na sua dupla face: sujeito no sentido de poder pensar e actuar por si (em oposição a objecto, o que é pensado) e sujeito no sentido de desde o seu cerne estar impregnado da absoluta evidência da necessidade de se sujeitar, de ser um cidadão, um elemento da população, por oposição à populaça selvagem. Quer dizer, o Estado moderno criou um novo tipo de sujeição e um novo regime de subjectividade, em que cada pessoa o que mais deseja é produzir-se a si própria como sujeito, como sujeita às leis e regras de que o Estado precisa para cada dia se certificar e reconstituir. O Estado, o status quo, legitima-se pelo facto de ser normal, natural, inquestionável. E esse carácter inquestionável não é imposto de fora, pela coacção, mas fabricado no indivíduo desde a nascença. De modo que quando ele opina, e deseja, e escolhe, e acredita com toda a força do seu ser, essa é a força do Estado. O cinto da realidade fecha-se sobre si mesmo, perfeito. Na convicção (alucinada, alienada) dos sujeitos reside a maior força do poder soberano. Porque ela vem de baixo; eles exigem o Estado que na verdade não poderia existir sem essa convicção partilhada por cada um dos seus sujeitos, como coisa original, própria, íntima, de cada um deles. Este é o circuito da ilusão plena. E os governantes podem falar em interesse público, estando legitimados por processos de representação, de delegação.
O que se passa é que este sistema de enormíssima sofisticação tem duas dificuldades: a sua exportação para "ontologias" (cosmovisões) diferentes da ocidental; a sua inculcação em populações que o próprio poder excludente conduz de novo à condição de populaça, quer dizer, de nudez, em que a ideologia alienada do cidadão perfeito se não pode mesmo constituir, em que o cinto da ilusão não tem já furo por onde fechar. Essa é a maior parte da população do mundo, lá longe e aqui ao pé da porta.


Foto: Loretta Lux (reprod. aut.)
"The walk"
Fonte: http://www.lorettalux.de/




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