Quando era pequeno, ensinaram-me aquela frase célebre, tornada senso comum de tempos que já lá vão, segundo a qual para se ser homem (suponho que a mulher estaria abrangida nessa designação androcêntrica) era preciso fazer (ou implantar neste mundo) três coisas: um filho (implicava colaboração...), uma árvore (já era mais fácil de fazer sozinho...), e um livro (trabalho solitário por excelência, embora pressupondo um imenso contexto de estudos e leituras, e portanto também outros, muitos outros).
Estou muito contente por não ter cumprido a primeira “obrigação” (não vejo a vida de modo tão optimista que quisesse impô-la a mais um inocente); já não estou nada contente por não ter realizado a segunda (quem me dera ter tido a oportunidade, ou sabido, ou tido alguém que me ajudasse, a fazer uma árvore que agora existisse, e sob cuja copa uma pessoa pudesse abrigar-se); e quanto ao livro, já fiz muitos, mas para ser mesmo franco não gosto verdadeiramente muito de nenhum. Tenho esperança (não demasiada) de ainda poder fazer um de que goste mesmo, e de que algumas pessoas entretanto gostem do que já fiz... não sei.
Por isso, não estou em paz comigo próprio, nem quanto ao mundo natural, nem quanto ao universo cultural, que são os dois lados do biombo conceptual atrás do qual nós, ocidentais, sempre vivemos. A matéria e o espírito.
Se um livro implica pensar, e se eu usasse a frase de Descartes tornada senso-comum “Penso, logo existo”, veria que não sendo bem homem de acordo com a máxima acima, pelo menos existo. Mas eis que me saltam à cabeça logo outras máximas, mais actualizadas, como “compro logo existo”, “viajo logo existo”, “faço turismo logo existo”, enfim, e para simplificar, consumo logo existo.
Consumo tem uma estranha ligação a outras duas palavras, consumar (completar, realizar algo, chegar ao fim ou ao objectivo de um desejo) e consumir (consumimo-nos por vezes, se não sempre, a tentar consumar - é uma maçada).
Consumo além disso tem para mim uma estranha conotação. É que dantes utilizavam-se e faziam-se coisas. Hoje consomem-se, como se vivêssemos numa combustão constante, a queimar coisas, e a deitar os restos, ou as embalagens, para o lixo (atenção que isto não é vulgar nostalgia do passado...).
E começo a pensar se não será mais preciso, mais exacto, definir-me pela frase: “Deito para o lixo, logo existo”. Sendo que alguém (sociólogo improvisado) poderá a qualquer momento apontar-me outra máxima: “Diz-me o que deitas para o lixo, dir-te-ei quem és.”
É isso, deitar fora é fundamental, seja o que for, o embrulho, a embalagem, o resto, o produto mesmo: assim tenho de ir comprar mais, largar-me à aventura dos shoppings. Quem pode passar sem isso?
É um prazer tão grande, que a maior parte das vezes quero é ir sozinho, sem ninguém a interromper-me com outras lojas, com outros objectivos, com conversas filosóficas, com os resultados do futebol, com as notícias do dia, de que aliás não estou bem a par. É que, ao lançar-me no consumo, é como quem mergulha, quanto mais livre melhor. Sem peias. Sem pessoas. Também me descartei delas, deitei-as por assim dizer para o lixo, assim consumo-me menos. Eu quero é uma praia à frente, toda azul como nos écrãs de computador. Sem interferências. Mergulhar no mundo natural, sentir aquela sensação de splash no corpo tudo.
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