quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

obsidiana

tudo o que peço é que te acerques
de uma janela, e te vires para o exterior,
como se só visses, e não olhasses.

e que, como de surpresa,
me deixes também acercar por detrás,
não para olhar o mesmo que tu não olhas,
ou para ver através de ti, mas para, tão só,
para a frente projectado, te tocar.

como se o teu corpo, de costas,
fosse o espelho onde se mostra
o lado invisível; uma superfície
que reflectisse para ti mesma
a luz do teu dorso,
a imagem da minha nuca,
e, ainda mais para trás, a da rua
que talvez esteja ali,
pendente de confirmação.

tudo o que desejo é te estiques
lentamente, com lentidão natural,
e cada vez mais para trás,
abrindo as sensações como pequenas cortinas,
como minúsculas dobras de um corredor
que se percorre vencendo atritos,
sentindo a progressiva submissão dos movimentos
ao seu próprio acerto,
ao entusiasmo de se avançar no tempo.

empurrando-te contra a janela, passo a passo,
como num exercício um pouco incomum,
vou sentido o ricochete dessas forças
que, fracção a fracção,
te vão transformando no meu molde.

a volúpia pode assim liquefazer as superfícies,
preencher os vácuos, e já tarde
(neste interior que não conhece o tempo)
pode gerar-se a promessa
de que as duas partes que compõem o centauro

se venham finalmente
a erguer, desmesuradas,
a partir do centro da sala,
em toda a sua brilhante unicidade
de imagem completa,

com olhos vítreos de obsidiana,
quer dizer, trazendo ainda reflexos do brilho vulcânico
anterior ao momento do começo do mundo,
à dramática separação dos seres.

centauro magnífico, jóia viva, muscular, que toca
os quatro cantos da sala, do chão ao tecto,
no equídeo brilho soberano da perfeição, da síntese,

em cujo dorso suado se podiam vir projectar
os eternos lampiões das ruas exteriores,
se magritte se tivesse lembrado de as pôr lá,
e aqui dentro, janelas, de onde serem vistas.

e assim no fim estamos de novo nus,
tu e eu, lado a lado desfolhando o livro
das reproduções, para ver tentar adivinhar
o que fazer a seguir,
que eco de luz irradia ainda a lava
quando seca.

v.o.j.
do livro, em preparação, "Pedras Preciosas"

2 comentários:

Anónimo disse...

good

j

Vitor Oliveira Jorge disse...

obrigado. Que pena ser anónimo(a)...