uma escritora conhecida pelos seus romances de grande tiragem, destas cuja imagem aparece em cartão de tamanho natural nos supermercados, e cujos livros as pessoas põem nos carrinhos de compras junto com as primeiras necessidades (leite, pão, papel higiénico, hortaliças, coisas assim), tinha dois fantasmas. estes, nunca os confessou aos “media” e às revistas de entretenimento onde frequentemente aparecia.
um: ser intelectual, ao menos um dia.
outro: ser prostituta, ao menos uma vez.
intelectual, perguntei-lhe, mas você já é uma intelectual, publica livros, que têm inclusivamente muito êxito junto do público. e olhe que o povo não é parvo, não consome qualquer coisa, se compra e lê os seus livros e escreve para o seu blogue e alimenta o seu clube de fãs, é porque há em si qualquer coisa que não é banal. não se aflija, você a seu modo é já uma intelectual reconhecida, o facto de nunca ser citada nos suplementos culturais não tem assim tanta importância, acredite, tudo aquilo são lobbies, invejas de não venderem, de serem herméticos. você comunica, é amada, é mesmo avidamente devorada, as pessoas fazem fila à porta das lojas para comprar as suas primeiras edições (até em dias de intenso frio), logo existe – os seus livros são cultura, a qual hoje é aliás algo de muito abrangente, dentro de uma perspectiva moderna, descontraída - tudo quanto nós somos capazes de acrescentar, pelo nosso engenho e arte, à madre natura. e, vendo com atenção, você não conta histórias banais como parece, não – sente-se ali o fremir da vida, você consegue a fusão perfeita. é que sendo uma intelectual, diverte, apaixona, entretém, olhe, a sua obra devia ser recomendada a todos os consultórios médicos de certo nível, para estar sobre a mesa, junto à televisão sempre ligada e à tacinha com rebuçados de acalmar das longas esperas. não pense que é superficial – essas manias da profundidade já foram, repare que hoje até muitos jornalistas, políticos, jogadores de futebol são, a seu modo, homens de cultura. publicam livros, mas isso não é o mais importante; tem de se ver a inteligência prática, a forma especial de genialidade que revelam, a sua performance no terreno. e, aqui para nós, ser intelectual já não está a dar. agora até as cantoras de musica clássica aparecem em pezinhos nus nas capas dos discos; não, as coisas estão a mudar, e para melhor, para bem de todos, é mais democrático nesse aspecto.
mas, respondeu-me ela, serei intelectual (até de facto há várias pessoas a fazerem teses de doutoramento sobre os meus livros), porém puta é que nunca fui. alugar o meu corpo por umas notas, só pelo prazer da experiência. mesmo a pagar, dinheiro não me falta, mas no fim teria de passar pelo vexame de receber de volta pelo menos parte da massa, está a ver, sem essa humilhação não me sentiria realizada.
perdão, mas isso é o mais fácil, com posses tudo se consegue, inclusivamente perversidades, ilegalidades, coisas inconfessáveis, canonizações em vida; ora, “a mais velha profissão do mundo” é o que de mais trivial há. não percebo o seu problema; esse é um fantasma já muito banal para si.
como, eu? quer que seja eu? a propô-la para o prémio anual da sociedade de escritores, num banal quarto de motel, enquanto você se vai despindo sob fundo de música de mistura, tipo mozart go jazz?! mas, repare, há aqui qualquer equívoco; eu não devia ter entrado nesta, vi logo que o texto não tinha uma fácil porta de saída. é que uma pessoa também precisa de olhar para a cidade, fumar um cigarro, aspirar um pouco de ar livre poluído. dê-me cinco minutos para pensar melhor.
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