sábado, 13 de janeiro de 2007

ametista

um professor contou-me uma vez a seguinte história: queria ter com uma aluna uma relação inteiramente profissional. mas de cada vez que a rapariga se lhe dirigia, no fim, à despedida, ela acrescentava sempre, quando já se encontravam a uma certa distância um do outro: “tenho comigo uma ametista, uma pedra preciosa, que um dia te irei mostrar.”
aturdido com essa atitude, o professor aproximava-se, talvez para lhe perguntar por que o tinha passado a tratar por tu, ou o que significava tão descontextualizada frase; mas nesse momento a relação pedagógica restabelecia-se; e o homem começou a perguntar a si próprio se o envelhecimento não lhe estaria a trazer alucinações.
passando porém um dia por uma loja, viu na montra o seguinte anúncio, escrito numa caligrafia antiga: “temos ametistas”; e, talvez impelido pelo frio, e dizendo a si próprio que jamais disporia de dinheiro para comprar tais luxos, entrou naquilo que havia de ser o seu maior vício: a aquisição repetitiva de jóias feitas daquela matéria-prima, ou mesmo até as próprias pedras em bruto, as quais passou a guardar em caixas apropriadas, cuidadosamente divididas no interior, e forradas a veludo.
quando a colecção já era grande, desmesurada mesmo para as suas posses e para a modéstia de casa solitária em que vivia, e alguns anos tinham passado, a mesma aluna voltou, desta vez a frequentar uma cadeira de pós-graduação leccionada por ele. e, um dia, quando se afastavam um do outro, ele ouviu-se a si próprio a dizer-lhe: “possuo uma enorme riqueza em ametistas, que porfiantemente acumulei e secretamente guardo: queres contemplá-la?” a rapariga estacou de espanto, voltou-se para trás muito lentamente, aproximou-se do mestre, e disse: “como?”
“nada, nada”, ouviu o académico responder, numa voz que parecia sair da sua garganta, “estava apenas a tossir devido ao vento!”. e assim que pronunciou isto, o peito convulsionou-se-lhe num ataque de verdadeira tosse, ou coisa semelhante.
a sua figura, ainda com a aura docente de uma aula acabada de dar, metamorfoseou-se, e da boca saíu-lhe como que um hálito muito antigo, um jorro indecente e colorido, que se espalhou pelo solo. olhando-o espantado, o professor exclamou: “a minha colecção!”.
quando voltou a si da emoção, a rapariga já ia longe, mas a determinada altura voltou-se, e um anjo de prata, destes que de vez em quando cindem o céu, e cortam o espaço e o tempo em dois planos fractais, passou entre ambos, dizendo: “é impossível”.
aquele professor, solitário como todos, voltou a casa confundido, tentando adivinhar o que se passara; e nesse dia, de caminho, comprou mais uma ametista para a sua colecção, mesmo ao fechar da loja, pensando que tinha de se refazer, presenteando-se a si próprio.

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