segunda-feira, 11 de junho de 2007

Um drama...

... pelo menos vivido por mim: o profundo contraste que existe entre a vivência de todos os dias e as suas múltiplas solicitações e "pedidos" a responder "para ontem", e a postura tão típica do verdadeiro investigador, do simples leitor atento, que é o mergulhar num poço para poder absorver o conteúdo, incorporar essa experiência.

É este um dos problemas que nos traz a todos estressados: não é possível conjugar a atenção voltada para um tópico preciso, exigida pela reflexão criativa, e a dispersão em todas as direcções que a sociedade nos exige.
Essa contradição entre "profundidade" e "horizontalidade", entre repouso e irrequietude, é particularmente notória, sente-se agudamente, se quiserem, em organismos supostos serem feitos para a investigação do saber e sua transmissão. Estão ali muitos colegas de interesse, estão ali muitos alunos que vale a pena estimular, realizam-se ali muitos encontros e debates a que é pena faltar - enfim, é um privilégio trabalhar numa instituição dessas, sobretudo numa época onde a "cultura" é (pelo menos potencialmente) o maior valor.

Mas percorremos todo esse elemento, muitas vezes, como um cenário: a correr para mais uma burocracia, uma capelinha, uma notícia, uma conversa, uma informação, que são importantes, mas nos desviam do essencial.

Andamos numa fona, acelerados, e mesmo que pudéssemos parar, já não conseguíamos, nem no fundo o desejávamos. Ou, se quisermos, essse desejo deve manter-se como fantasia, inacessível. Se fôssemos confrontados com a possibilidade de realmente satisfazer a fantasia, essa seria a nossa maior frustração.
Veja-se como se queixam dolorosamente as pessoas que preparam doutoramentos. Ainda não sabem que, depois, se forem de facto investigadores (as vocações diminuem para este sacerdócio...), o seu sofrimento vai ser muito maior...
A sociedade burocrátrica, tecnocrática, em nome da racionalização e da "facilitação" da vida, complica-a horrivelmente, transformando-a diariamente numa tortura. Por isso é que tudo foge para congressos quando pode: legitimados pela necessidade de"actualização" e "contacto", vão mas é passar férias do seu quotidiano duplamente fastidiante: uma gesticulação ridícula e inútil, mas imposta como sagrada.


É triste.

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