quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Um bom burocrata - alguns apontamentos (esquemáticos, delirantes e anedóticos) da insónia

1 - dá-se bem e prolifera em ambientes altamente burocratizados, isto é, auto-alimentados, em que o que importa são mais os meios do que os fins
2 - não resolve nada (de fundamentalmente importante - assunto para outra postagem), ou se o faz é secundariamente, mas antes se puder acrescenta mais problemas e lembra-se de mais regras que, idealmente, obrigam a voltar a repetir (ou rever) tudo de novo, mostrando a sua informação e o seu poder (a sua mais-valia)
3 - é inseguro e tem horror ao vácuo: a vida tem de ser preenchida por regras bem definidas segundo as quais se deve actuar, porque existir é antes de mais cumprir regras, sobretudo se elas tiverem uma aparente boa, óbvia, justificação (bom senso, saúde, boa gestão, funcionamento, etc)
4 - divide geometricamente o que são as suas atribuições e competências do que são as dos outros (supostos burocratas também, porque esta espécie não se dá em isolamento, vive em sistema e este tende a alastrar nos seus efectivos. a aumentar na percentagem de habitantes), tanto inferiores, como superiores, como iguais na escala hierárquica
5 - não se interessa em demasia pelo que se chama agora conteúdos, mas sobretudo por procedimentos e enquadramentos (importa mais a moldura do que o quadro em si); é o processo formal em si que interessa (justificado pelas ideias de eficácia, etc.). O burocrata é um apaixonado pelo artefacto "burocracia" como a criança pelo seu brinquedo; trata-se de um jogo tendencialmente indefinido no tempo e sempre extensível
6 - devido ao ponto anterior, pode mostrar-se extremamente dinâmico e inovador: o burocrata moderno desloca-se como peixe na água de um sistema para outro, porque o que lhe importa são os sistemas formais, como se fosse uma espécie de ginástica, e não tanto as questões que envolvam indecidibilidade (ou seja, as verdadeiras questões), porque isso (perguntas não previstas ou em excesso) são atrasos na máquina da eficiência, no processo produtivo que medeia entre os meios e os objectivos, entendidos estes como outros meios para novos fins, numa cadeia ou círculo interminável
7 - o burocrata moderno é tão insatisfeito quanto frustrado, porque o prazer (mesmo que masoquista) temporário que obtém com uma burocracia que cumpre ou faz cumprir deixa-lhe sempre sabor a pouco; há um vazio estrutural nesta espécie de gente, cheia de dossiers, programas e projectos, mas evitando interrogar-se seriamente sobre o sentido do que anda a fazer na vida
8 - o burocrata em geral não gosta de filósofos, poetas, e outras pessoas que atrasam a sua tarefa de formiga, a sua teia de obediência ao que está ou de complexificação no sentido de mais do mesmo. O burocrata não inventa, cumpre, ou então inventa novas regras para cumprir
9 - o burocrata adora informática (ocorre com frequência carreando um portátil e outros equipamentos miniaturizados de suporte), arquivos, leis, reuniões, tudo aquilo em que se possa actuar de maneira sequencial e onde uma vez rotinizado se "avance sobre rodas". O seu modelo é a máquina
10 - incapaz de produzir verdadeiramente algo de interessante, que implica improvisação em âmbitos muito maleáveis, e ao mesmo tempo estudo aprofundado nesse quadro de pesquisa relacional e rápida, o burocrata agarra-se às rotinas, antigas ou novas, como algo de incontornável. É obcecado pela ordem e pelo supremo cumprimento da mesma; é um conservador mesmo quando inova, porque a inovação é para racionalizar o sistema, ou seja, para o tornar mais maquínico, mais automatizado. Os automatismos são a felicidade do burocrata. O burocrata em casa faz zapping, dedica-se a jogos, é adicto de rotinas (programas televisivos de entretenimento, por exemplo)
11- o burocrata tem sempre o seu currículo em ordem e os seus arquivos como deve ser; em geral é dotado de boa memória, pois o seu cérebro não está tanto ocupado com conteúdos, mas com procedimentos (ou com a eventual falha a eles por este ou por aquele). É um indivíduo que interiorizou a regra a ponto de a corporizar, de se confundir com ela. Um burocrata é uma legislação antropomórfica: ele é o seu próprio polícia, e a sua política é policiar os outros, naturalmente que de uma forma moderna, educada, polida, por vezes até atraente

Etc. Quando tiver pachorra, um dia, continuo a caracterizar esta espécie que se está a espalhar cada vez mais, e pode assumir formas muito simpáticas. Num sistema burocratizado, o ainda não burocrata (avis rara) pode mesmo sentir-se aliviado com a simpatia e eficácia do burocrata, quando este, momentaneamente, o liberta das exigências (para de novo voltar à carga mal ambos recuperem forças, que no burocrata parecem inextinguíveis). O não burocrata pode sentir-se confortável, e pensar: afinal estes tipos até são úteis, indispensáveis mesmo.
Em suma: o burocrata substituíu o processo à vida. Obcecado pela carreira e pela produtividade, na busca constante de uma falta que o incomoda sem que por vezes tenha disso inteira consciência, persegue fantasmas sendo ele próprio um.
Vivemos numa sociedade fantasmática, com uma espécie de robots a circularem em todos os sentidos, por vezes extremamente ansiosos e disponíveis, desde que lhes demos atenção ou que cumpramos com as regras inventadas. Estão com frequência assentes em lugares de poder (há poder desde que se possa mandar alguém, nem que seja um animal doméstico, fazer qualquer coisa de modo absolutamente imprescindível e irrevogável), onde assumem toda uma postura.
Somos todos (que remédio) tendencialmente burocratas...senão arriscamo-nos a concluir a nossa vida como "homeless". A regra é um muro alto, por vezes pouco espesso, mas necessário, que pode dividir o pretenso paraíso do inferno.
Evidentemente que esta "caracterização" anedótica foi também uma forma de me distrair um pouco. Apenas algumas dicas para uma caricatura, como é próprio de um blogue.
Vou dormir senão não aguento a burocracia daqui a pouco, quando clarear a manhã.

11 comentários:

tratado de botânica disse...

É na insónia que a realidade se desvela!

José Manuel disse...

Não são os burocratas que arqutectam as regras burocráticas. São os políticos que as constroem enquanto dizem a quem tem pachorra para os ouvir que estão a "desburocratizar". ...Simplex

Aliás existe todo um sistema de sanções que pairam sobre os burocratas que não são suficientemes rigorosos na aplicação das regras.

No fundo são talvez as primeiras vítimas da burocracia, produto do crescimento e complexificação das organizações

Gonçalo Leite Velho disse...

Sempre achei que aqueles que anseiam pela liberdade da burocracia são em si próprios os maiores burocratas, tal como os maiores pervertidos costumam ser aqueles que desejam a ordem.
Essa ansiar pela liberdade revela-se como uma utopia, perante a revolta do que é a culpa do Grande Outro. Porque compreende-se no próprio que não é livre. Auto impõem-se regras, rotinas (os horários que são sagrados, a ansiedade do esforço continuo). Sofre-se porque se sente que isso não parte do próprio mas de um Outro, muitas vezes personificado na figura da Mãe ou do Pai. Por isso o mais revoltado tende a ser um eterno organizado.

Recomendo "Margarida e o Mestre" de Bulgakov (está até editado pelo Público). Supera o próprio Dostoievski. Uma obra-prima da literatura soviética (sim SOVIÉTICA)

Vitor Oliveira Jorge disse...

Desvela ou encena?... velho jogo...
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Eu não que não são os burocratas, nem os políticos, mas um sistema muito mais abrangente QUE NOS ENVOLVE A TODOS, que não tem centro nem exterior, e que desafia qualquer teoria holista, porque como rétil invisível chupa e digere, reclicando, todos os anti-corpos. Claro que está a depredar tudo, a destruir o planeta e as pessoas numa POLÍTICA GLOBAL DE DELÍRIO QUE Já NÃO TEM AUTOR, apenas exec utantes a diversos nºiveis. Uma grande tradicomédia ou nave dos loucos, como as que o Bosch pintou no fim da Idade Média... mas a história não acabou, só que perdemos a esperança de "fazer justiça por nossas mãos". Só os terroristas lamentavelmente pensam/sentem isso, para pavor geral e maldição de todos. Mas há sinais de mudança. São é irritantemente lentos e silenciados.Como sempre, e apesar do sofrimento, o povo festeja.Que se pode fazer?! Esquecer na festa a utopia do que não vai acontecer... com uns bons copos de tinto, umas sardinhadas e umas canções prá frente.
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Não percebi muito bem o Gonçalo, mas já estou habituado. 3 pontos pró cascalheira (código só entendido por nós, peço desculpa, mas se alguém mais quiser saber tem de fazer log-in e ter password).

Vitor Oliveira Jorge disse...

No início da segunda parte do meu comentário anterior, queria dizer, como é óbvio, "Eu sei que não são os burocratas..." etc.

José Manuel disse...

A burocracia surgiu como uma forma do poder ser exercido e acontrolado a partir dum Centro sobre a Periferia. A sua arquitectura utiliza uma técnica de construção específica: a "arquitectura jurídica" com corpus teórico a que se dedicaram as Faculdades de Direito e de Economia. A sua arquitectura expressa-se em diversas normativas jurídicas emitidas regularmente pelo Centro em direcção à Periferia e em relatórios enviados pela Periferia ao Centro.
Está concebida como uma máquina impessoal que deve funcionar sempre da mesma maneira independemente dos "burocratas" que a fazem funcionar. Estes são apenas parafusos facilmente substituíveis na grande máquina.

José Manuel disse...

O problema é quando deixa de ser nstrumento mas se torna um fim em si mesmo. Faz-me lembrar uma história que li, já não sei onde...

Em determinado lugar o governo entendeu que os funcionários da sua m´´aquina burocrática andavam sem controle. Era necessário saber exactamente o que é que cada funcionário andava a fazer. Decretou então que cada funcionário deveria fazer diariamente um relatório escrito da sua actividade no dia anteror.
Zelosos os funcionários cumpriram exactamente a ordem e todos entregaram relatórios de 4 ou 5 linhas sobre o trabalho que desenvolviam. Insuficiente decretou o Governo, precisando que os relatórios deveriam ser mais detalhados e com pelo menos 4 páginas. Zelosamente todos os funcionários se apressaram a cumprir as ordens, só que como todo o dia era ocupado a elaborar estes relatórios e balancetes não sobrava tempo para mais nada. Começaram assim a descrever no relatório tudo aquilo que imaginavam gostar de estar a fazer, embora fosse apenas produto da sua imaginação.
Satisfeito o governo anunciou então que com a nova reforma da função pública os funcionários estavam muito mais produtivos conforme se podia comprovar pelos diversos relatórios que tinham preenchido.

Qalquer semelhançaentre esta história e o SIADAP não é pura coincidência.

Vitor Oliveira Jorge disse...

Tema kafkiano, a espevitar a imaginação...

Aldey Rydhar disse...

Curiso ! Isto aqui parace um reduto de machos conformados....rsrsrsrs, no bom sentido é claro ! Mas a origem de toda a miséria do mundo está sendo sicutida no blog: paradoxo-cusual.blogspot.com, abraço senhores anti-burocratas. Aldey Rydhar

Gonçalo Leite Velho disse...

Acho que mesmo para me perceber começa a ser preciso nome de utilizador e palavra-chave.

Vitor Oliveira Jorge disse...

Para Aldhey: faz favor vá chamar macho a outro, que eu não dou pelo nome. Macho é um animal quadrúpede. Eu sou um ser humano do género masculino.