sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Tunísia - nosso circuito, esquematicamente



Agência internacional que realizou estes circuito: Travel Plan.

Empresa portuguesa que nos "vendeu" a viagem: Rumos e Ritos, Esposende.

1º dia - 22. 8 - Supostamente, deveríamos ter partido do Porto após o jantar. Na verdade, a viagem em avião da Tunisair foi realizada já no dia seguinte, e bem tarde: depois das 4 da manhã, devido a atraso excepcional do avião na partida de Tunes. Conclusão: não dormimos, tendo desembarcado em Tunes sob um céu de chumbo, cansativo, e com alguma turbulência na parte final do voo. Quanto à qualidade de serviço, pareceu-me óptima.

2º dia - 23. 8 - Tunes- área de Sousse, uma daquelas onde estão os hotéis de praia. Ali já um minibus com um guia nervoso nos aguardava há horas. Toca a meter as malas no "telhado" do veículo, atadas com corda, e a seguir para a "cidade sagrada" de Kairouan. O nosso grupo era pequeno. Além de nós quatro, mais três casais (destacamos a excelente companhia que nos proporcionou o casal da zona de Viana do Castelo - pessoas excelentes de quem nos fizemos amigos), num total de dez pessoas, mais o guia e o condutor.
Em Kairouan, com uma medina rodeada de imponentes muralhas, as cisternas dos Aglábidas (séc. IX), enormes (consideradas obras-primas hidráulicas do mundo árabe), não nos impressionaram muito, devido à depressão físico-psíquica em que nos encontrávamos, ao calor, e... ao facto de estarem vazias, pelo menos aquelas que me foi dado enxergar do alto de um edifício. Já nos animámos muito mais na Grande Mesquita, e no edifício do túmulo de Sidi Sahib (séc. XIII), conhecido como Mesquita do Barbeiro. Vimos depois uma "fábrica"/loja de tapetes. Embrenhando-nos na medina, em frente a cuja porta numerosos homens conversavam uns com os outros à sombra de árvores (as mulheres não frequentam este tipo de sítios públicos), contactámos de perto com a vida quotidiana daquele gente.
Após a refeição fomos em direcção a Sbeitla (Sufetula - cidade romana importantíssima, ocupada também em época cristã desde o séc. III), que visitámos demoradamente. O jantar e
a dormida foram em Gafsa, onde chegámos meio-mortos.

3º dia - 24. 8 - Visita aos oásis de montanha de Chebika e Tamerza, no SW do país, junto à fronteira com a Argélia. Interessantes construções em terra, restauradas porque há anos sofreram bastantes demolições devido a chuvas de tempestade. Muitos indivíduos a tentar vender fósseis, pedras preciosas ou a fingir que o eram, a famosa cristalização conhecida como "rosa do deserto" (vê-se por todo o lado até à náusea) e até sílex que ali aflora em grandes nódulos. Muita gente aventura-se a mergulhar naquelas águas, que têm uma cor duvidosa, verde... Inevitáveis compras nas tendas locais. Partida para Tozeur (um oásis com c. de 3000 palmeiras) e descanso no hotel (sesta). Visita ao Museu de Dar Cherait, de artes e tradições populares, muito rico, instalado na casa (centrada no característico pátio interior) de um antigo senhor importante da cidade. Participação numa festa colectiva (do tipo "para turista") no centro Planet Oasis, nos arredores da cidade, incluindo demonstração de certos "costumes berberes", danças com cavalos, bailados locais (alguns bastante sensuais) e jantar. Tatuagens nas mulheres.

4º dia - 25. 8 - Visita de carroça ao oásis de Tozeur, um paraíso de palmeiras, que por sua vez criam a sombra para as árvores frutíferas, e estas para os legumes que se desenvolvem junto ao chão. Prova de tâmaras. Um rapaz subiu ao alto de uma palmeira para nos demonstrar a perícia com que recolhem as tâmaras. Cada família possui o seu pedaço de terra, que é tratada como algo de precioso (lembrou-me as margens do Nilo); a terra fertilizada pela água, a palmeira, são verdadeiras entidades espirituais. De uma palmeira aproveita-se tudo. Maravilhosa arte. Uma saltadinha ao mercado local para ver o ambiente e depois internámo-nos da cidade antiga (medina), caracterizada pelos seus efeitos de parede em adobes, cada um dos quais com o seu significado. Muito belo. Partida para o deserto (lago de sal) de Chott El Jerid (recolha de um pouco de sal para recordação e compras numa choupana transformada em loja à beira da estrada, "in the middle of nowhere"). "Descida" até Douz, onde teríamos o melhor hotel de toda a estadia. Douz fica às portas do "Grande Erg Oriental" que se integra no Sara. Guardei numa pequena embalagem um pouco de areia finíssima, beje, do deserto, de um tacto fantástico. Ao fim da tarde, experiência de andar montado sobre um dromedário, nas dunas. Muito agradável e de passada muito sensual. Jantar no hotel.

5º dia - 26. 8 - Dia pesado: levantámo-nos muito cedo (os guias, dentro do trajecto combinado, têm um grande poder de decisão) para ir ver as "habitações trogloditas" berberes de Matmata. Ficam para oeste de Douz, já não muito longe da costa (golfo de Gabès). Pareceu-nos "muito arranjada para o turista", como aliás quase tudo nestes "pacotes de viagem". Parámos em Gabès e fomos fazer compras para o chamado "mercado das especiarias" de Jara. Almoço e, em seguida, a uma hora de grande calor, visita ao grande anfiteatro romano de El Jem (séc. III), extremamente bem conservado e comparável ao de Roma em magnificência (é o terceiro maior anfiteatro romano do mundo). El Jem foi cidade púnica e cidade romana "livre"; mais tarde, colónia. Compra de essências. Por fim, alojamento no hotel junto à praia de El Mouradi Port El Kantaoui, nas imediações de Sousse. Massificação total, mas apesar disso uma piscina e praia agradáveis. A praia com água demasiado quente e sem ondas (contrariamente ao meu gosto). Animação típica (música pimba local).

6º dia - 27. 8 - Visitei a medina de Sousse, incluindo a respectiva mesquita, e fiz compras interessantes. Entre elas estes dois vasos, um dos quais já sobre a minha estante:




Voltei para a praia e para as minhas companheiras de viagem, resignando-me àquela vida. Graças a poder dormir e ler, aguentou-se bem. Até na loja do hotel consegui encontrar livros (numa prateleira cheia de pó, com a impressão de que àquele sector vai pouca gente...) e também o vasinho de madeira de oliveira que a seguir reproduzo.



7º dia - 28. 8 - Praia, comida, cama, gente, muita gente por todo o lado. Calor húmido fora do ar condicionado. Leitura como refúgio. Esteve-se bem.

8º dia - 29. 8 - Transporte do hotel para o aeroporto, gasto dos últimos dinares, e chegada ao Porto, após uma espera de c. de 2 horas no aeroporto de Tunes, já perto do dia seguinte. Em casa, a arranjar as coisas, acabei por me deitar depois das 4 da manhã de dia 30. A qualidade do voo foi óptima.

Aliás, a maioria dos tunisinos são muito atenciosos para com os turistas, a sua "galinha dos ovos de ouro". O que se torna mais maçador é o constante chamamento para compras, no que os vendedores são hábeis e psicólogos experientes, quer com homens (convidando para entrar e tomar um chá, por exemplo; quando há ar condicionado, uns lavabos decentes, e um assento, claro está que tudo se transforma num paraíso terreal), quer com mulheres, que evidentemente nas medinas, cheias de lojas, ficam literalmente encandeadas. O tratamento das mulheres (sobretudo solteiras) por "gazela", e muitos outros epítetos do tipo "piropo", é muito frequente.
"Faites comme chez vous", dizem constantemente, sobretudo nas lojas maiores. Mas pode comprar-se um livro (velho) por um dinar, ou trazer qualquer coisa por um terço ou um quinto do preço fixado. O "truque" (melhjor diria, sistema, método correcto) é simples: o cliente diz um preço razoável em função do produto e do que está afixado, e nunca mais deve sair dele. Caso o comerciante não aceite, meia-volta volver. Quando o cliente vai a sair a porta, é chamado por um sinal de aceitação do seu preço. Os comerciantes preferem vender logo e despachar o produto, diminuindo a margem de lucro. De modo que, excepto em lojas mais luxuosas ou hotéis, os preços marcados são uma ficção.




2 comentários:

Anónimo disse...

Olá Vitor,
Tenho acompanhado os seus trabalhos...palestras, seminários, publicações e viagens.
Aliás já tive oportunidade de lhe transmitir alguns comentários pessoais sobre a sua "actividade" e vice-versa.
Sou sua admiradora enquanto profissional e ao nivel pessoal.
Quanto à sua viagem à Tunisia; senti-me a viajar consigo tal é a descrição de alguns pormenores.
gostaria de ter participado numa "aventura" do género com um profissional do seu nível. É um pais que ainda não conheço pois quando tenho disponibilidade, falam-me das altas temperaturas e tenho recuado até ao momento...
mas normalmente quando viajo gosto de sentir o local e as verdadeiras vivências do povo. Não aprecio mt o espírito do turista que vai com o plano que as agências recomendam (claro que é bem mais fácil e cómodo, reconheço). Um abraço mt forte da amiga

jorgesapinto disse...

Invadindo o espaço, aqui vai em resposta as impressões destes amigos.
È curioso. Há sete anos fizemos o mesmo percurso percorrendo quase os mesmos lugares e as impressões foram sensivelmente as mesmas. Infelizmente vocês não visitaram, quanto a mim três lugares maravilhosos. Um o norte de Tunes onde pudemos ver a influência da cultura andaluza e levantina na arquitectura e na maneira de estar da polulação em Sidi Bu Said e as ruínas das termas de Cartago. Em Tunis valeu a pena ver a mais faustosa colecção de painéis em mosaico de toda a colónia de Africa recolhida das várias vilas e cidades romanas e o espólio da ocupação romana e turca num palácio magestoso ( Museu do Bardo): Depois na região Norte vimos uma das cidades mais completas e bem conservadas do Império Romano Bulla Regia. Finalmente a Sul, a Ilha de Djerba, onde para além dos hotéis dos nababos se pode ainda visitar algumas aldeias da diáspora judaica e onde as mulheres tunisinas usam chapéu de palha em vez dos véus tradicionais.
Curioso foi no passeio a camelo ao por do sol ( o mais deslumbrante que assistimos nas nossas vidas) em Douz, ter topado alguns sítios com peças líticas nos vales das dunas. Onde a caravana parou, eu e a Ana ainda recolhemos algumas lascas que atribuímos ao Paleolítico superior e pedaços de cerâmica sigilata. (infelizmente esquecemo-nos de as levar do Hotel).
Gostámos imenso da Tunísia e imaginamos a razão porque os romanos também por lá ficaram.
A finalizar - tinham por lá um vinho soberbo: Venus, de sua graça. Mas estou convencido que foi Baco que o fez, valia bem os 7 Euros que dava por ele nos poucos mini-mercados que vendiam bebidas alcoolicas.
Um abraço aos dois. Estais maravilhosos!.

Jorge e Ana.